Crônica

Juízo final

por Mario Sergio de Melo* — publicado 16/07/2017 00h00, última modificação 14/07/2017 14h37
A quase morte de Risonho Sensalva


Espaço aberto para quem apoia o jornalismo transparente e crítico de CartaCapital.

Entenda as regras de envio de artigos em socio.cartacapital.com.br/duvidas

 

Risonho Sensalva de repente viu-se diante de um portal grandioso. Não havia nenhuma identificação, mas ele sabia: era a porta do fim da vida.

Ainda assustado, sem saber o que estava acontecendo, foi se aproximando. Esperava encontrar ou um velho de barba e batina branca, ou, tomara que não, um ente vermelho com chifres e rabo. Por um momento repassou os feitos de sua vida. Não achava que merecesse o inferno, mas mereceria o paraíso?

Outra surpresa! Quem apareceu foi um jovem vestido de executivo, habilmente manejando um ipad de última geração.

- Morri? Ou estou sonhando?

- Olá Risonho Sensalva. Não, isto não é bem um sonho. É um levantamento preliminar dos seus dados de vida, para o desenlace futuro. Você ainda não morreu, o que acontecerá num futuro incerto. Mas com o tamanho da população atual, temos que agilizar no processamento dos dados. Notou que não há fila por aqui? É graças a essas providências de planejamento.

- Quer dizer que ainda não morri, mas vou morrer em breve?

- Ainda não morreu. Quando vai morrer, se é em breve ou não, só Deus sabe.

- Mas não é ele quem dirige isto aqui?

- Não. Na verdade este é um serviço terceirizado. Atendemos a vários clientes.

- Mas se não sabe quando vou morrer, como é que pode fazer este levantamento?

- Não se preocupe, Risonho. Isto não é um sonho, mas é como se fosse. Quando você acordar pela manhã, não vai lembrar de nada disto. Sua vida vai continuar como sempre. A morte é certa, mas incerta na sua hora. Mas vamos ao que interessa. O que você tem a dizer sobre sua vida? O que lembra que poderia credenciá-lo para um ou outro caminho no fim de sua vida?

Risonho calou-se momentaneamente, pensativo. Então começou sua defesa.

- Bem, desde criança fui sempre um bom aluno...

- Ora, a importância da educação formal anda muito relativizada. Hoje se considera que qualidades como empreendedorismo, iniciativa, agressividade e malícia profissional são mais efetivas para o sucesso...

- Ah, sim, sim... Mas nos meus amores, desde jovem, fui sempre muito respeitoso e fiel...

- Ora, essas qualidades também andam em questionamento. Uma certa ousadia é essencial para apimentar os relacionamentos. E fidelidade... Ora, está provado que o ser humano é, definitivamente, um ser infiel. A plenitude dos relacionamentos depende da concorrência. Funciona como nos negócios.

- Fui um bom pai de família? (a esta altura Risonho já duvidava de seus feitos).

- Muitos acreditam que o núcleo familiar é a principal estrutura perpetuadora de vícios, preconceitos e atavismos...

Já se desesperando de perceber que o homem desqualificava tudo que pensava que tinham sido virtudes em sua vida, Risonho Sensalva começou a exasperar-se.

- Fui um profissional ético, que sempre procurou agir no interesse dos direitos daqueles a quem servi, da qualidade, da honestidade, da justiça e da verdade...

- Ora, estamos num novo tempo. Nem sempre o cliente tem a razão. Aliás, quase nunca tem a razão. Não sabem que decisão tomar de forma a fortalecer o mercado, que é quem mantém os empregos e a produção. Já qualidade, meu amigo, quer dizer durabilidade. E se algo dura, a fábrica fecha! E para onde vão os empregos? E honestidade, justiça e verdade! Ora, esses conceitos são muito relativos. O que pode ser honesto e justo para um indivíduo pode ser prejudicial para a sociedade. E vice versa. Verdade então! Existe uma verdade diferente para cada ser humano!

- Ah, sobre isto tenho minhas convicções. E não abro mão!. Sempre procurei seguir os ensinamentos de minha religião. De que devemos agir com o próximo da mesma maneira que queremos que ajam conosco. Isto me faz crer no respeito, na solidariedade, na justiça e na inclusão social, no amor...

De repente, Risonho Sensalva despertou em seu quarto de dormir. Era uma manhã corriqueira. Ele tinha a sensação de que algo se passara, mas não conseguia se lembrar do que era.

Lá no portal do fim da vida, o executivo Rufinus Mercadante, pensativo, digitava em seu ipad:

- Esse é de outro tempo. Vai ter de reencarnar! E vai ter de renascer como, como...

Hesitou um pouco.

- Palhaço!

 

*Sócio desde 2015

registrado em: Blog do Sócio