Manifestações

Como congestionar a “ponte para o futuro”

por Douglas Martins de Souza* — publicado 08/04/2017 00h01, última modificação 07/04/2017 10h49
Muitos perceberam aonde vai dar o projeto do governo Temer. Os protestos tendem a crescer
Rovena Rosa/Agência Brasil
Protestos contra as reformas

A insatisfação toma as ruas


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Acabou a responsabilidade solidária do Estado na contratação de empresas que descumprem obrigações trabalhistas. Agora terceirizados vítimas de calote empresarial "vão ter de reclamar para o bispo”.

O poder público não tem nada a ver com isso. Assim decretou Alexandre de Moraes em seu voto de estreia decisivo no Supremo Tribunal Federal. A lógica é a seguinte: em uma concorrência para contratação de mão-de-obra terceirizada, o poder público fixa como critério o menor preço. Quem pagar o pior salário e tirar mais direitos sociais dos terceirizados vence.

O mercado está infestado de golpistas que ganham concorrência na base do escalpo do trabalhador e “somem” após faturar algum. Antes os sindicatos traziam o poder público para o banco dos réus devido à contratação negligente. Agora o STF barrou.

Mais de 50 mil processos que aguardavam esse julgamento viraram pó. O mesmo facão que cortou o pé de maconha no Paraguai decepa direitos sociais dos pobres no Brasil. É o STF na precarização sem limites. A impunidade para quem sonega direitos (e tributos) explorando força de trabalho entre desesperados está assegurada. Já era tortuoso o caminho a ser percorrido até que a vítima do estelionato empresarial conseguisse ao menos receber o salário.

O estelionato empresarial faz parte. Servidores e trabalhadores da iniciativa privada começam a entender o significado do golpe. Em uma tacada, leis que suprimem direitos e precarizam o trabalho proliferam nas casas legislativas em nome de uma austeridade que parlamentares e executivos não praticam.

Eis, para quem trabalha, o sentido prático da “ponte para o futuro”. Uma ponte para o inferno. Nem tudo são flores para os golpistas. O fato é que o STF unge o corte de direitos sociais no momento em que a luta contra a despossessão entra em nova fase. A percepção da verdadeira natureza do golpe de Estado encenado por ladrões de galinha ganha as ruas.

A violência política dos reiterados ataques a direitos dos trabalhadores no Legislativo e no Executivo demonstra que o remédio oferecido na verdade é veneno. Mesmo com a cúpula das instituições de Estado totalmente contaminadas, como neste caso da decisão vergonhosa do STF, há a possibilidade de excretar o golpe. A carnavalização da política acabou, como comprova o ato pífio convocado pelas associações golpistas no último dia 26.

Acabou a fantasia. Sem o andador global, múmias midiotas não dão um passo. Cumpriram seu papel e precisam deixar seus chefes rapinar o País em paz. Para quem não sabe o que fazer com as panelas, recomenda-se o sábio conselho de Dona Marisa. Kim Kataguiri levou da Folha de S. Paulo um didático pé na bunda. Centrais sindicais e movimentos sociais convocam greve geral para 28 de abril. O trânsito vai parar na ponte do golpe.

* Advogado e “sócio” desde 2011

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