Literatura

A atualidade do Apanhador no Campo de Centeio

por Ricardo Stumpf Alves de Souza* — publicado 31/03/2017 20h50, última modificação 31/03/2017 10h18
J.D. Salinger, morto em 2010, captou o desencanto com uma sociedade de aparências e que se recusa a enfrentar a verdade
San Diego Historical Society/Today
J.D. Salinger

Salinger antecipou a contracultura


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O "Apanhador no Campo de Centeio", o famoso livro de J.D. Salinger lançado em 1951 e que praticamente fundou a contracultura, continua uma obra atual.

Seu personagem principal, Holden Caulfield, é um jovem de 17 anos que retorna para casa depois de ser reprovado no colégio interno no qual estudava e toda a história se passa num fim de semana, quando ele vaga por Nova Iorque sem destino, evitando antecipar aos pais a decepção de saber que tinha sido expulso de mais um colégio.

Durante esse tempo revela sua profunda decepção com o mundo no qual vivia, com a sociedade norte-americana do pós-guerra, seu formalismo, hipocrisias e a falta geral de sentido que ele percebe em tudo, como se a vida não passasse de uma grande farsa, da qual ele não quer participar.

Alguns críticos dizem que se trata da visão de um adolescente a enfrentar a típica crise da idade, mas creio que a história é muito mais do que isso e revela o desencanto com uma sociedade que vive de aparências e se recusa a enfrentar suas verdades, alimentando ilusões fúteis, que moldam um mundo cada vez mais árido e perigoso.

A sociedade de consumo, que surge com força no pós-guerra nos Estados Unidos, traz consigo a semente de sua própria crítica nos olhos de uma geração que não acredita nos valores consagrados pelos aparelhos ideológicos, igreja/escola/mídia, e investe na sua própria descrença dando lugar à geração beatnik dos anos 50, aos hippies dos anos 60 e a tantos outros movimentos da contracultura que surgiram ao longo do século XX, que antecipavam a decadência cultural de um ocidente hipnotizado pela manipulação consumista das grandes corporações.

A grande indústria, que deveria representar a esperança de uma vida melhor para a humanidade, torna-se um pesadelo ao pretender controlar a cultura e moldar a vida dos indivíduos segundo seus próprios interesses, transformando o discurso democrático numa farsa e criando guerras intermináveis, sem nenhum sentido que não seja enriquecer uma minoria que pretende governar o mundo. A importância do livro é justamente a antecipação dessa consciência num momento em que se acreditava que a democracia e o socialismo tinham vencido o nazismo para construir um mundo melhor, mais livre e mais justo, onde os direitos humanos consagrados na carta da ONU seriam uma espécie de Constituição universal que nos levaria ao futuro.

Caulfield não acredita em nada disso e vê o mundo com seu próprio olhar de espanto e decepção, navegando sem rumo no seu universo depressivo, embora ele tente se relacionar sinceramente com os indivíduos ao redor, buscando alguma coisa de verdadeiro no que eles dizem ou fazem.

O autor, que morreu em 2010, viveu recluso durante muitos anos após a publicação do livro, que vendeu até hoje 65 milhões de exemplares. Para se ter uma ideia da sua aversão à exposição pública, a edição da Editora do Autor, de 2016, não traz nenhuma informação sobre ele nas orelhas, nem os típicos comentários na contracapa.

O título, The cacher in the rye, ou “O Apanhador no Campo de Centeio”, na tradução, revela essa vocação para a solidão e o isolamento de quem se sente só, incompreendido, e não consegue se integrar à sociedade no qual vive. No texto, o personagem explica que gostaria de ser um "apanhador" em meio às crianças que brincavam num campo de centeio sem perceber que ele terminava à beira de um abismo. Sua função no mundo seria pegar (apanhar) as crianças que se aproximassem demasiadamente do abismo, impedindo que elas caíssem. Talvez o livro tenha sido escrito justamente para nos salvar desse abismo em que a sociedade humana se transformou nas últimas décadas, doente do egoísmo alimentado por um capitalismo sem escrúpulos.

* Sócio desde 2015