Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Obra com olhar negro e conhecedor do samba completa 90 anos e ganha nova edição

No livro ‘Na Roda do Samba’, de Francisco Guimarães, o Vagalume, o gênero é apresentado em sua origem de forma fidedigna

Foto: Reprodução/'Na Roda do Samba'
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Neste sábado 2, quando se comemora o Dia Nacional do Samba, vale exaltar o livro Na Roda do Samba (364 páginas), de Francisco Guimarães, o Vagalume, que apresenta um olhar de quem vivenciou muito de perto a consolidação do gênero nos anos 1930.

Seu autor faz um relato muito pessoal dos personagens e do universo do samba da época no Rio de Janeiro, já impulsionado pela indústria fonográfica, mas com suas origens vivas nos terreiros, nas rodas e na sua convergência com o carnaval.

A obra, de 1933, completa 90 anos de lançamento e ganhou nova edição da Editora Serra da Barriga, com comentários enriquecedores sobre o autor de Leonardo Affonso de Miranda Pereira, professor associado do Departamento de História da PUC-Rio, além de notas explicativas.

O livro já havia sido relançando pela Funarte em 1978, mas esta última reedição seguiu o padrão da primeira, como ordem e grafia do texto – e uso, por vezes, de palavras que soam politicamente incorretas hoje.

Francisco Guimarães, conhecido como Vagalume, foi cronista em jornais do Rio de Janeiro e tinha estreita relação com o carnaval, o samba e seus personagens. Ao contrário da maioria que à época escreveu sobre o tema, ele foi veemente em ressaltar o conjunto de influências afro-brasileiras na formação do gênero.

Negro, Vagalume frequentava os espaços de samba e mantinha contato com cidadãos comuns, inclusive dos morros – há diálogos com eles na segunda parte do livro, quando faz uma descrição de A Vida dos Morros. “No meio desta gente simples é que se encontram os amigos leais, incapazes de uma falseta, como hoje se diz na gíria”, escreveu.

Na primeira parte do livro, intitulada O Samba, Vagalume não se mostra um observador trivial, mas muito vivido no tema. Ele relata os talentos emergentes do samba e a introdução do mercado e da mídia no gênero, além dos infortúnios de fazer a arte.

O autor cita em vários trechos sobre plágios e “roubo” de trabalho alheio, algo conhecido da época, mas com personagens diferentes, como João da Gente.

Já com o cantor Francisco Alves, ele faz até troça: “O Chico surgiu ultimamente com um samba, uma novidade de sua lavra – e que… há dois anos nasceu no Morro de São Carlos e recebeu o batismo num botequim do Estácio. (…) O Chico Viola, que compra o que é dos outros e grava na Casa Edison (gravadora), é uma mina!”.

Fã de Sinhô, dedica longos elogios ao sambista. “É um trabalhador, um incansável batalhador e defensor extremado e talvez o único, nos dias que correm, que cultive o samba do partido alto e conserve o seu ritmo”.

Eduardo das Neves, cantor, compositor e palhaço, é tratado como “saudoso artista negro que tanto honrou a raça a que me orgulho de pertencer”.

O autor lembra das festas na casa das baianas, um marco do surgimento do samba. “Os sambas na casa de Ciata eram importantíssimos, porque, em geral, quando eles nasciam no alto do morro, na casa dela é que se tornavam conhecidos da roda.”

Aqui, ele aponta que o samba já se fazia nos morros. Mais à frente, realça os candomblés que se espalhavam nas comunidades, com seu irresistível toque de tambores e a dança – e sua proximidade com o samba.

O cronista vai descrevendo à sua maneira peculiar e pessoal outros personagens de sua época. Alguns acabaram se tornando ícones, como Pixinguinha (“é realmente um grande músico e musicista”), Lamartine Babo (“é incontestavelmente um moço de valor e um bom elemento que ingressou no meio dos sambistas, sem que, entretanto, pertença à roda do samba”) e Ary Barroso (“não se pode contestar que seja um grande musicista e principalmente para o nosso teatro de hoje”).

Cartola, do Morro da Mangueira, é tratado pelo cronista como “uma verdadeira revelação na roda do samba”. Diz o texto: “Não resta a menor dúvida que, se o jovem sambista estudar e melhorar, estará dentro em breve no apogeu”.

No livro Na Roda do Samba, ele faz críticas à vitrola, que tirou dos bailes músicos e inseriu música mecânica. “Para matar a vitrola surgiu o rádio…”, anuncia.

O cronista faz também uma análise do carnaval, em franco crescimento, com o surgimento das escolas de samba, mas já recebendo críticas: “O samba não precisa do carnaval, mesmo porque o carnaval está morrendo, precisando da esmola do governo para viver”.

Vagalume atribui aos compositores de samba a força do carnaval e sua própria existência, com os ranchos, blocos, escolas. “Vamos encontrar justamente a gente da roda do samba servindo de alicerce ou servindo de esteio a estas pequenas sociedades que fazem o carnaval das famílias, que é o carnaval do futuro, como não cansarei de repetir.”

O livro de Francisco Guimarães, o Vagalume, é a história do samba escrita a partir do olhar do morro. Um incrível relato.

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