Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

O exuberante álbum de Amaro Freitas a partir do contato com uma comunidade indígena

O pianista lança seu quarto disco, aprofunda a exploração de sons e atinge com maestria seu objetivo

Foto: Micael Hocherman
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O pianista pernambucano Amaro Freitas manteve contato com a comunidade indígena Sateré Mawé e participou de seus rituais, como de puro guaraná e tucandeira. Ali, teve uma visão diferente da Amazônia, onde escutou histórias e vivenciou experiências.

“Foi um período muito gratificante, de muito aprendizado, de um sentimento extremamente novo sobre o Brasil, que nos falta quando estamos estudando na escola e mesmo ao longo de nossa vida”, disse a CartaCapital.

Desse encontro surgiu o álbum solo instrumental de título Y’Y – palavra do dialeto Sateré Mawé que significa “água” ou “rio”. Nesse novo disco de nove faixas, que sai pelo selo americano Psychic Hotline, ele usa a técnica de piano preparado para chegar a um exuberante resultado, conseguindo, com maestria, fazer referências sonoras à Amazônia, estudadas a partir do encontro com a referida comunidade indígena.

O piano preparado é uma técnica desenvolvida pelo norte-americano John Cage por meio da qual são colocados diversos elementos dentro do piano – literalmente.

“Geralmente, ele usava elementos metálicos, como porca e parafuso, entre as cordas do piano e conseguia obter sons incríveis. Queria usar esse piano preparado, mas com outros elementos, que trouxessem uma identidade brasileira. Faz mais ou menos cinco anos que venho de uma forma muito intensa estudando sobre isso.”

Para o músico, era importante trazer no disco “a umidade do trópico, das danças e dos ritmos que há no Brasil”.

Os elementos que ele usou para obter o resultado incluem pregador de roupa, jogo de dominó, sementes amazônicas e fitas.

“Ia colocando objetos dentro do piano e nem tudo funcionou. Numa parte, no meio do piano, tem três cordas para um único som. Tive a ideia de colocar um pregador e ele abafou as três cordas. Continuei praticando, mas o pregador de varal pulava. Aí, coloquei uma fita crepe na ponta do prendedor e essa fita criou uma liga que permitia que o pregador ficasse fixo no piano. Teve uma hora que levei o prendedor no fim da corda e, daí, escutei um som de tambor. Foi uma sonoridade incrível.”

A partir dessa experiência, começou a usar vários prendedores de varal no piano, definindo-os entre as cordas livres e presas.”

“Ao mesmo tempo em que fui influenciado pelo John Cage, fui influenciado pelo Naná Vasconcelos, que é um grande e poderoso ancestral”, prossegue. “Então, queria que esse piano soasse como um berimbau, o chocalho que o Naná usava. Queria misturar isso com as entranhas do piano.”

Segundo Amaro, a música Dança dos Martelos é o grande ápice do piano preparado. “Tem uma hora em que estou com a mão esquerda segurando as sementes e batendo nas cordas do piano, e com a mão direita fazendo arpejos.”

Ele vê o novo álbum como um tributo à Amazônia e à necessidade de defendê-la: “É olhar de atenção que precisamos ter com a floresta, com o desmatamento, com o garimpo ilegal, com a poluição dos rios”.

O instrumentista vem de uma vivência do meio evangélico na periferia do Recife, onde se criou. Os álbuns Rasif (2018), Sankofa (2021) e Y’Y mostram uma narrativa de Brasil diferente da que estudou quando criança.

“São discos que trazem títulos fortes da colonização, tentando ressaltar esse outro Brasil que faz parte da nossa construção. Ao mesmo tempo, acho importante quando a gente faz esse autoconhecimento”, avalia. “Esse disco (Y’Y) surpreende porque traz um Amaro que ninguém imaginava quando escuta minha discografia.”

O álbum Y’Y tem sido bem recebido pela crítica no Brasil e no exterior.

“Às vezes, torna-se muito distante para um músico que vem da periferia imaginar que ele pode tocar numa casa como Blue Note e Lincoln Center, de Nova York, e continuar morando aqui (no Recife). Estou tendo a oportunidade de fazer isso. Para mim, isso é um posicionamento político e geográfico muito importante.”

Assista à entrevista de Amaro Freitas a CartaCapital:

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