Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Mahmundi: ‘Fui criada sem me reconhecer como mulher preta’

Cantora e compositora lança quarto álbum em abril, com consciência e maturidade para se aprofundar no amor

Foto:Divulgação
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Já no seu primeiro álbum de 2016, Mahmudi ganhou o prêmio Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O segundo disco, chamado Para Dias Ruins (2018), foi indicado ao Grammy Latino. O terceiro – Mundo Novo – foi lançado no começo da pandemia. Agora em abril, chega o quarto, Amor Fati (Universal).

“É inevitável [falar de amor] para gente que construiu tantas narrativas”, diz a carioca que nasceu em Marechal Hermes, Zona Norte do Rio, a CartaCapital. “Esse processo de Amor Fati está trazendo de novo a Mahmundi que começou em 2016 e está fazendo a remasterização de seu próprio trabalho. Está sendo impactante”. 

A artista lembra que começou a se aprofundar na narrativa do álbum no começo da pandemia.

“Tenho influência oitentista. Lá em casa a gente foi criada na igreja e não ouvia música que não era da igreja. Então, ouvia rádio na casa de amigos”, conta. Para ela, a história da ligação com o rádio é atualizada atualmente para a playlist das plataformas de música.

“O que mais aprendi na pandemia, a duras penas, foi o tempo e como a gente usa esse tempo”, diz. Segundo Mahmundi, a construção do novo álbum foi um longo processo que virou até brincadeira de sua gravadora, a Universal, porque levou um período maior de conclusão do que o esperado.

“Quero que as pessoas vejam outras imagens a partir da música. O amor é uma coisa que me pega muito e as angústias disso. Eu, que venho de uma família cristã, até hoje tenho alguns tabus de religiosidade e uma angústia que a gente não sabe de onde vem”, conta.  “É muito lindo quando se consegue levar [a música] para outro exercício. Agora, aos 36 anos, falar de amor por um dia, sem necessidade de fingir. O amor parece ter as mesmas artimanhas com 15 ou 60 anos. Tem o jogo, a paixão, tem quando vai embora”.

Para chegar onde está, Mahmundi enfrentou as dificuldades de uma mulher negra em um País de racismo velado. 

“Fui criada como a maioria dos brasileiros, das pessoas pretas, sem me reconhecer como uma mulher preta. Sempre achei que se alisasse meu cabelo ele ficaria um pouco mais cacheado. [Tem] que ser um padrão para os meninos gostarem de você”, prosseguiu. “Esse entendimento de mulher negra, de pessoa negra no mundo, me atravessou muito por conta das nossas heroínas, como Djamila Ribeiro, Katiúscia [Ribeiro], Miriam Alves, Carolina de Jesus. Algumas mulheres que mudaram o rumo disso. Lendo essas mulheres, me percebo negra agora”. 

A cantora e compositora quer “honrar minha mãe, que também demorou muito para se ver como uma mulher preta, faxineira do Rio de Janeiro, que veio do interior do Maranhão”. 

“Sou fruto de tudo isso. É muito emocionante ter essa consciência. A história das pessoas de periferia é sempre uma grande novela e eu vou lutar para que a minha história não seja uma grande novela. E vou fazer que a arte fale por ela”, afirma. 

Assista a íntegra da entrevista de Mahmundi:

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