Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Luiz Tatit: ‘Rap é uma evolução inquestionável na linguagem da canção’

Estudioso da música, cantor e compositor lança novo álbum de inéditas e questiona a existência do CD em época voltada ao single

Foto: Divulgação
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O cantor, compositor e professor de linguística da USP com vários livros publicados Luiz Tatit lança o álbum autoral Vai por Mim (Circus Produções), já disponível nas plataformas digitais, com 10 músicas inéditas.  

O novo trabalho abre com a faixa-título com participação de Ná Ozzetti. Logo depois, o samba Anja, que,segundo Tatit, é uma música otimista. “Algo raro na minha produção, tanto o samba quanto o otimismo”. 

Na sequência, Bônus que Virão, uma reflexão sobre o tempo. Já Esperando o quê? “propõe certa utopia” e tem a participação de Zélia Duncan.

Aplausos, composta em parceria com Zecarlos Ribeiro, tem novamente a participação de Ná Ozzetti – a cantora faz presença em todos os discos de Tatit.

Nas faixas seguintes, Tudo é Quase Nada e Tipo Nós (parceria com Emerson Leal) – “nova reflexão do amor”, de acordo com Tatit. Depois, Vem Comigo. A nona música do álbum, Poder Cantar, é uma homenagem ao projeto Guri voltado ao ensino de música.

O disco fecha com Embrião (parceria com Ricardo Breim) com tema de fundo ecológico. Produzido por Jonas Tatit (que toca guitarras na gravação) e Danilo Penteado (que faz também teclados, contrabaixo e sanfona), o trabalho conta ainda com Sérgio Reze (bateria) e a moçambicana radicada no Brasil Lenna Bahule (voz e vocais). 

Álbum ou single?

“O disco reflete, como sempre, a continuidade do meu trabalho com novas composições. A interrupção das atividades nesse período me deu tempo e concentração para terminar as canções e organizá-las numa sequência típica de CD”, conta Tatit. “Aliás, essa era a minha dúvida: fazer um CD numa época claramente voltada ao single, ao clipe, ao streaming, à canção isolada. Para que então fazer um CD?”, questiona. 

Nos seus estudos sobre a canção, o artista diz que, para ele, “a melodia tende a preceder a letra” no processo de composição. 

“Todas as canções desse disco foram compostas a partir da melodia pronta. Quando componho sozinho, vou chegando às frases melódicas acompanhadas pelo violão e, só depois, vou recortando as frases com expressões linguísticas (os versos), mesmo que no começo não tenham muito sentido”, diz sobre o seu trabalho de criação. 

Luiz Tatit é frequentemente citado por outros músicos como referência para explicar como compõem. “Aos poucos, vou dando coerência à letra e ‘enxergando’ o tema final da canção (última coisa que se define na composição).”

No caso de parceria, ele diz que recebe a melodia do parceiro e trabalha a letra da mesma maneira. “Raramente parto da letra nas parcerias, embora já tenha tido algumas experiências boas nesse sentido”, afirma. 

Para ele, a melodia é sempre uma ‘maneira de dizer’, assim como as entoações que acompanham a fala cotidiana. “As curvas que se elevam ou declinam sugerem ênfases, perguntas, afirmações, hesitações, ironias. Enfim, sugerem ‘coisas a serem ditas’ (a letra). Por isso, é mais fácil partir da melodia, na qual a maneira de dizer já está definida”, explica.

A fala e a música

Tatit diz ser impossível pensar a canção de modo consequente sem levar em conta suas relações com a fala “na qual já há melodia e letra”. Segundo o estudioso do tema, “todos os falantes podem compor canções porque todos entoam em suas conversas diárias”. 

O domínio intuitivo da fala, de acordo com Tatit, é muito mais determinante para a composição do que a formação musical do autor. “Nesse sentido, o rap é uma canção ‘radical’, uma canção ‘pura’ que mantém no produto final os traços inspiradores da entoação cotidiana”, afirma. 

De acordo com o músico, a fala já esteve mais explícita nas composições em vários períodos da nossa música, como no samba de breque, em Carmen Miranda e na Vanguarda Paulistana, movimento que participou com o grupo Rumo.

“Agora, com o rap, sua presença tornou-se estampada na linguagem da canção. É o estilo mais experimental da atualidade. Basta reparar que apenas os autores (com poucas exceções) conseguem interpretar suas músicas. Portanto, houve uma evolução inquestionável dentro da própria linguagem da canção e não ruptura com a canção, como às vezes se diz”, conclui. 

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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