Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Com violão e cavaquinho, Martinho da Vila lança disco de inéditas e regravações: ‘Sem perder o swing’

O artista relatou a CartaCapital o temor de que o álbum ficasse ‘frio’, mas aprovou o resultado

Foto: Leo Aversa
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Quando decidiu fazer um disco apenas com violão e cavaquinho, Martinho da Vila temia que ele ficasse “frio” devido à ausência de uma grande instrumentação. Era importante transmitir intensidade musical, ressaltando as letras.

“Falei para os músicos de fazer uma coisa miúda, sem perder o swing, a pulsação boa, que dê para dançar. E eles capricharam. Turma talentosa”, exaltou o sambista em entrevista a CartaCapital sobre o novo álbum Violões e Cavaquinhos (Sony Music), recém-lançado nas plataformas de música.

Martinho contou com um experiente time de instrumentistas para cumprir a tarefa – e deu certo. O álbum tem 12 faixas, com quatro inéditas e releituras de clássicos.

“Procurei também fazer um disco que não ficasse morno, mas para fora, alegre. E ele ficou”, avalia. “É muito difícil você conseguir uma coisa pulsante com pouco instrumento.”

No violão, em diferentes faixas, tocam Rafael dos Anjos, Carlinhos Sete Cordas, Gabriel de Aquino, Ana Costa, Cláudio Jorge e Wellington Monteiro. No cavaco, os instrumentistas são Pretinho da Serrinha, Fernando Brandão, Alaan Monteiro, Nilza Carvalho, Alceu Maia e Wanderson Martins.

Trata-se, de fato, de um timaço. Há uma leve percussão ao longo do disco, feita pelo próprio Martinho da Vila.

O sambista disse que a escolha de repertório foi difícil e que ele gravou “os primeiros que vierem à cabeça”.

Na lista de regravações, estão Canta Canta, Minha Gente, com participação do rapper L7nnon; um pot-pourri com Disritmia e Ex-amor, tendo como convidada Preta Gil; Mulheres; um novo pot-pourri de calangos: Calango Vascaíno, Calango Longo e Calango da Lua, com a presença da filha Alegria Ferreira; as clássicas Batuque na Cozinha, Patrão, Prenda seu Gado e Pelo Telefone (de Donga e Mauro de Almeida) em uma faixa só, com a participação de outra filha, Mart’nália; o samba-enredo Gbala — Viagem ao Templo da Criação; um medley com O Pequeno Burguês e Pra que Dinheiro e outro com Roda Ciranda e Madalena.

“São músicas conhecidas. É uma releitura, então elas têm que ficar diferentes. Fiquei pensando em uma forma de que as pessoas pensassem na letra, porque a música toma mais as pessoas, penetra por todos os sentidos”, diz. “Então, às vezes, a gente ouve uma música, ela é bonita, a gente canta, mas não presta bem a atenção na letra. Fazer letra é mais difícil do que fazer música.

A canção Mulheres, de autoria de Toninho Geraes, é um caso típico do que Martinho vê como desatenção ao que dizem os versos. O sambista, aliás, fez questão de regravá-la, mesmo com a polêmica que a música criou com as feministas e o fato de seu compositor acusar a cantora inglesa Adele de plágio.

“Muitos não a entendem, mas Mulheres conta de uma cara que teve muitos amores, mas no duro ele estava procurando a pessoa ideal. E a canção termina assim: ‘mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz’. Aí, quer dizer que ele encontrou a pessoa certa.”

Os calangos que Martinho apresenta no disco são os poucos que ele fez na carreira, mas bastantes significativos. Eles remetem à terra natal do sambista, Duas Barras (RJ), onde o ritmo se difundiu. “Gravei esses calangos separados no passado e aí resolvi juntar todos eles. Tenho também alguns sambas meio calangueados. Calango é um samba legal, mas ninguém grava mais isso.”

Entre as inéditas, Coisa de Preto, composta com Chico César; Sempre Bela; Mulher Sorriso, composta por Martinho a partir de letra do acadêmico Arnaldo Niskier; e Amante fiel, samba-enredo que fez para a Vila Isabel, mas não foi escolhido para o Carnaval de 2023.

Analimar, filha de Martinho, assina a direção de coro e Martinho Filho responde pela produção, ao lado de Celso Filho e Gabriel Lucchini.

“Gostaria que estivéssemos no tempo do LP. Tinha encarte com as letras. Gostaria que as pessoas ligassem o som e ficassem ouvindo e acompanhando as letras. Mas isso não é mais possível”, diz Martinho. “Eu lamento. Dá para ouvir o álbum, mas se tiver curiosidade, tem que descobrir as letras.”

Aos 86 anos, Martinho da Vila continua a dormir tarde por gostar de ver o nascer do sol. O sambista costuma aproveitar as altas horas para se dedicar à literatura, outra de suas facetas. Ele está, inclusive, em vias de finalizar um novo livro, de contos.

Sobre a escola de samba do coração, a Vila Isabel, diz que ela já se prepara para o Carnaval do ano que vem, mas ainda não divulgou o enredo.

“Escola de samba é uma coisa fantástica. É um teatro ambulante em que não tem ensaio geral. É tudo ensaiado separado. A comissão de frente sai aqui, a ala das baianas sai lá, a bateria em outro lugar. No dia, tudo se encaixa. É fantástico.”

Ele afirma ser “impressionante” uma escola contar com quase 4 mil componentes e raramente estourar o tempo de desfile. “Está todo mundo preocupado com que seja uma boa diversão, com que dê tudo certo.”

O sambista também aprova o fato de o Carnaval do grupo especial do Rio de Janeiro ter, a partir de 2025, três dias de desfiles, com quatro escolas em cada. “O dia de Carnaval é terça. Então, o desfile principal tinha que ser terça.”

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