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Golpe

Abertura do processo de impeachment: um ano depois

por Daniel Trevisan Samways — publicado 14/05/2017 07h00, última modificação 10/05/2017 10h00
Instalou-se no Palácio do Planalto uma verdadeira quadrilha, com direito a angorá, caju e suruba
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Deputados celebram voto "sim", a favor da abertura do processo de impeachment

Deputados celebram voto "sim", a favor da abertura do processo de impeachment

Era dia 17 de abril de 2016, votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Seria decidido naquela sessão extraordinária a aceitação da denúncia que culminaria na derrubada da presidenta Dilma Rousseff. Sabíamos que não seria fácil. Mas, ainda assim, nutríamos esperanças de que a votação pudesse ter um rumo diferente. Reunimos amigos em casa, colocamos nossas bandeiras e camisetas da campanha de 2014 ou alguma coisa que remetesse ao vermelho, cor do Partido dos Trabalhadores, mas também identificação da luta operária. Acreditávamos que conversas nos bastidores em defesa da legalidade poderiam surtir efeito em deputados indecisos. A bancada de apoio do governo falava que tinha os votos necessários para barrar o processo. Esperávamos, enfim, que seria possível parar tudo aquilo; que não haveria tanto desapreço com a democracia.

Nada aconteceu. Ou melhor, tudo de pior aconteceu. Aquela sessão será marcada na história brasileira como um verdadeiro show de horrores. Votos em defesa da família, do neto, do bisneto, da paz em Jerusalém, de torturadores, do golpe de 1964. Teve de tudo. Deputados a favor do impeachment portavam faixas com as cores verde e amarela e cartazes “Tchau, querida”. Não se pode esquecer que o presidente da sessão era ninguém menos que Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba. Como professor de História e pesquisador da ditadura civil-militar, cada voto em favor do processo doía fundo na alma, por perceber que, “sim após sim”, a situação tornava-se cada vez mais difícil, nos remetendo a outro golpe, o de 1964. Os paralelos são muitos entre um e outro, guardadas, óbvio, suas especificidades. Se pensarmos nas coalizações que articularam e impulsionaram ambos os processos, chegaremos aos mesmos atores.

Parte do empresariado, grande mídia, setores mais conservadores do judiciário e do poder legislativo e, assim como em 1964, poderemos descobrir a posteriori o papel de outros países na desestabilização do Executivo em prol do enfraquecimento nacional. Tudo contra os interesses populares, emergentes em 1964 e também durante os 13 anos dos governos petistas. Os golpes foram contra a democracia e, principalmente, os menos favorecidos.

Em 1964, o então presidente João Goulart articulava reformas de base que visavam diminuir a desigualdade e impulsionar o desenvolvimento e a soberania nacional. Tal projeto foi podado antes de ganhar força. Campanhas contra João Goulart tomaram as ruas, setores da classe média bradaram contra o que achavam ser um avanço comunista. O medo do povo, claro. A casa-grande nunca tolerou a ascensão dos menos favorecidos. Ela tem urticárias toda vez que a senzala resolve se rebelar. E assim foi feito, contra a democracia, contra o povo. Tivemos arrocho de salário, aumento da desigualdade, concentração de riquezas, promiscuidade entre empresários e poder público, muita violência e repressão. Os militares e civis que assaltaram o poder, contaram com o apoio e consentimento de parte da população que vibrava com um suposto milagre econômico e com o fim da tão temida “ameaça comunista”. Abriram mão de um projeto de nação soberana e democrática. O golpe de 2016 guarda, em partes, semelhanças com 1964. Ao que pesem todas as críticas necessárias aos governos petistas, como sua fraqueza em enfrentar, de fato, os interesses do grande capital, não se pode desconsiderar todos os avanços e a melhoria da condição de vida dos menos favorecidos. Tivemos uma expansão da educação pública federal, com a criação de novas universidades, a remodelagem do ensino técnico e o surgimento dos Institutos Federais; mais recursos para pesquisa e inovação; investimentos em áreas estratégicas, como petróleo e energia nuclear; crescimento dos setores de engenharia pesada; e, principalmente, a ascensão de grupos historicamente excluídos.

O Brasil ganhava destaque e se projetava no cenário internacional e vivíamos uma situação de pleno emprego. Após mais uma derrota em 2014, a oposição não se conteve e partiu para um processo de grande desestabilização do governo, que se estendeu por todo o ano de 2015 e influenciou na desaceleração da economia. Com 367 votos, a oposição conseguia dar início ao processo de impeachment naquele fatídico 17 de abril de 2016. O choro não contido e o aperto no peito deviam-se ao temor de que o pior ainda estava por vir. E veio com toda a força após 12 de maio, quando Dilma Rousseff foi afastada em definitivo. Tivemos inúmeros retrocessos, recessão, cortes de direitos, aumento do desemprego, repressão e violência.

Instalou-se no Palácio do Planalto uma verdadeira quadrilha, com direito a angorá, caju e suruba. Propinas, reuniões na calada da noite com ministros do STF e o apoio da grande mídia garantem a blindagem do atual governo que, mesmo contando com pouquíssimo apoio popular, se mantém firme. Entre mesóclises e gestos estranhos, o atual presidente vai cortando os sonhos dos menos favorecidos. O medo venceu a esperança.

*Sócio desde 2013