Artigo

Os limites dos recordes da Petrobras

As refinarias da Petrobras estão funcionando quase no limite. Mesmo assim, algumas refinarias privadas têm espaço para aumentar a produção e reduzir importações

Petrobras e Embraer, duas gigantes mundiais nascidas do planejamento, inovação e esforço concentrado - Imagem: Embraer e Agência Petrobras
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por Luis Fernando Ferreira

Nos meses de maio e junho, a Petrobras anunciou sucessivos recordes na produção de gasolina e diesel S-10. O aumento da disponibilidade desses derivados pelas refinarias brasileiras, em especial as da Petrobras que operaram “no limite da otimização operacional”, não diminuiu a pressão pelo crescimento de preços.

Os marcos existentes para a produção de derivados médios, tais como o óleo diesel, são pouco explorados no debate público, mas são fundamentais para compreender a oferta local e a dinâmica dos preços desses combustíveis no Brasil.

Neste artigo, exploraremos algumas razões que justificam estas condições e alternativas para ampliar a oferta de derivados.

A primeira razão do limite operacional é a capacidade de processamento de petróleo nas refinarias brasileiras. Segundo dados da ANP, em janeiro, o fator de utilização (FUT) das unidades de refino do país era de 78% e em julho foi de 82%.

As refinarias da Petrobras estão dando o máximo, mas isso ainda não é suficiente para equilibrar o jogo dos preços

Porém, a observação de dados agregados impede uma avaliação mais precisa. Considerando o mesmo período, as refinarias da Petrobras saíram de um FUT de 81,7% para 89,2%, ou seja, +7,5 pontos percentuais (p.p). Já nas refinarias privadas, que detêm 21,6% da capacidade de refino, o FUT em janeiro era de 78,0% e em julho foi de 58,8%.

Uma avaliação específica da refinaria Mataripe (BA), antiga Refinaria Landulpho Alves (RLAM), vendida pela Petrobras em 2021, e que tem a segunda maior capacidade de processamento do país, revela uma queda de 21,8 p.p no seu FUT, de 86,2% em janeiro para 64,4% em julho. É evidente que há um espaço para o aumento da produção derivados nas refinarias privadas e, por consequência, uma diminuição, ainda que marginal, na importação de diesel.

A segunda razão é o tipo de petróleo bruto que é processado nas refinarias. O aumento da utilização global das refinarias brasileiras se deu com o maior processamento de óleo nacional. Em janeiro, segundo a ANP, as unidades de refino operaram com 83,7% de óleo nacional e em junho esse número alcançou 88,9%, com a respectiva diminuição do óleo importado.

A mistura do petróleo bruto utilizado como carga é fundamental para que as frações que compõem o óleo diesel e o querosene de aviação possam ser obtidas. A maior parte dos petróleos importados pelo Brasil é, em média, mais leve do que o óleo nacional. Nesse sentido, um aumento no refino do petróleo brasileiro tenderia a diminuir os derivados médios e aumentaria as frações mais pesadas.

Essa tendência de aumento nas frações mais pesadas já pôde ser observada em dois produtos. No primeiro trimestre de 2023, foram produzidas 536 toneladas de cimento asfáltico de petróleo (CAP) e 1.915 toneladas de óleo combustível marítimo (bunker). Já no segundo trimestre, a produção de CAP foi de 669 toneladas e a do bunker foi de 2.568 toneladas, um aumento de 24% e 34%, respectivamente.

Por fim, a terceira razão está nos termos de troca entre os produtos processados. A produção de derivados médios (QAV, diesel e bunker) competem na mesma estrutura física e nas mesmas moléculas. Ou seja, quando há a opção por um determinado derivado médio, deixamos de produzir um outro derivado médio.

Observando a produção nacional no segundo trimestre, é possível verificar que houve uma troca do querosene de aviação por diesel S-10. A produção de S-10 passou de 2.143 mil m³ no mês de abril para 2.300 mil m³ no mês de maio, um aumento de 7%. Já a produção de QAV caiu de 494 mil m³ para 428 mil m³ no mesmo período, uma queda de 13%.

No mês de junho, onde o segundo recorde da Petrobras foi registrado, a produção de S-10 foi de 2.410 mil m³, um aumento de 4,3%, e a produção de QAV foi de 377 mil m³, uma queda de 11%. Importante destacar que no período apresentado, a produção de diesel S-500, derivado que poderia ter influência, se manteve praticamente constante.

Nesse cenário não há dúvidas de que há algum espaço para um aumento de disponibilidade de derivados por parte das refinarias privadas. Contudo, as refinarias da Petrobras, de fato, estão no limite da “otimização operacional”. A principal consequência da atual situação é uma maior pressão sobre os preços de derivados médios, o que já pode ser visto no caso do óleo diesel e o aumento no querosene de aviação só corrobora o argumento.

O período compreendido entre os anos de 2014 e 2020 focalizou no debate sobre preços de derivados e pouco se debateu sobre estrutura física do parque de refino que, no atual momento, vem mostrando os seus limites na oferta de derivados. O anúncio de investimentos do PAC na área de refino parece estar na direção de aumentar a capacidade de processamento e de conversão de produtos mais pesados.

* Engenheiro Mecânico, mestrando em Engenharia Mecânica e pesquisador do Ineep

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