O crescimento econômico e os números

É preciso analisar de forma correta e atenta os dados setoriais antes de celebrar a “retomada”

Foto: Marcos Corrêa/PR

Foto: Marcos Corrêa/PR

Artigo

Durante a semana, a pandemia seguiu sua trajetória. Os comentaristas das tevês repetem o mantra “não há dinheiro”. A repetição é proclamada com as sobrancelhas arriadas, em uma expressão caricatural que simula os memes, as carinhas das redes sociais. No início da semana, as carinhas arreganharam sorrisos, ao celebrar os dados do crescimento de 7% da indústria em maio. A cifra, aliada à expansão do e-commerce, suscitou suspiros de entusiasmo nas redações e na equipe econômica que preconiza uma recuperação em V.

Confesso que compartilhei, moderadamente, o otimismo de Paulo Guedes & Cia. Digo moderadamente, pois é indiscutível: nas economias de mercado capitalistas, a experiência secular assegura que crescer é mais saudável que encolher. Animado, tratei de recorrer às análises do Iedi, sempre equilibradas e cuidadosas. No relatório publicado em 7 de julho, os economistas do instituto confirmam que “o desempenho da produção industrial em maio de 2020 compensou parte de suas quedas anteriores, registrando alta de 7%, descontados os efeitos sazonais”.

Esse bom resultado, diz o relatório, “não significa que a recuperação já tenha se iniciado. Tanto é que o nível de produção permaneceu 21% abaixo daquele de fev/20, isto é, antes da pandemia de Covid-19, e 34,1% inferior ao pico histórico de mai/11. Para alguns setores, a sobreposição desta crise com a de 2014-2016 gerou perdas ainda mais pesadas, como em bens de consumo duráveis (77% abaixo do pico de jun/13) e bens de capital (57,9% menor que o pico de set/13). Outro sinal negativo, segundo os dados do IBGE, foi a queda de 21,9% na comparação com maio do ano passado, não muito distante do desempenho registrado em abr/20 (27,4%). Com isso, a utilização da capacidade instalada do setor permaneceu muito aquém de seu nível histórico (16%)”.

A citação é um tanto longa, porém necessária. A aceitação acrítica dos dados pode levar a conclusões inapropriadas. Para avaliar o que está em curso na economia é fundamental ajustar os dados a uma série histórica, como fizeram os economistas do Iedi. Isto significa ir além dos números, sem descurar deles. A compreensão de trajetórias exige a formulação de hipóteses a respeito dos movimentos cíclicos das chamadas economias de mercado. Esse é um momento crucial de toda e qualquer análise com pretensões de razoabilidade, uma vez que certezas só existem nos descerebrados que se manifestam contra o STF.

Enquanto arengam os sabidos, uma pulga intrometida desembarcou atrás de minha orelha. A Pulex irritans esmerou-se em insinuações: além do bloqueio do crescimento, a crise também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados – para não falar do meu, apenas mediano. O pânico dos mercados induziu à pane na razão. O ineditismo dos acontecimentos abalroa seus modelos e faz naufragar suas previsões.

A pane cerebral afeta com particular virulência o pensamento imune à experiência histórica. Percebo resmungos e muxoxos quando alguém menciona a necessidade de ações mais incisivas do Banco Central e do gasto público, não só no direcionamento do crédito para atender à busca angustiosa de liquidez das empresas, mas no atendimento à massa de desempregados e afastados da força de trabalho.

Nos momentos de “crise de liquidez”, os portfólios precipitam-se em massa para o ativo que encarna no imaginário social e na prática dos agentes privados, a forma geral da riqueza. Caso todos corressem, porém, para a liquidez, poucos conseguiriam. Na dança das cadeiras, muitos ficam sem assento. Só o provimento de liquidez pelo Banco Central salva.

Salva, mas acentua a “preferência pela liquidez” dos bancos, empresas e famílias, impulsionando as divergências entre a expansão da riqueza financeira e o gasto produtivo na formação da renda. Isto sugere que na saída da crise a política de expansão monetária vai necessitar do auxílio do gasto fiscal para aplacar o medo e ressuscitar a ganância dos bancos e empresas.

Entre tantos ensinamentos aos desavisados e nefelibatas, ressalta a paralisia do sistema de crédito no atendimento às pequenas e médias empresas. Sem a garantia do governo, os bancos não emprestam, as empresas reduzem a produção e o emprego, a atividade econômica afunda e, finalmente, os bancos não recebem o dinheiro que emprestaram antes da tormenta.

As tímidas respostas prestadas pelas instituições brasileiras a essa situação emergencial certamente vão oferecer uma “saída” menos vigorosa da crise. Isso deve acontecer porque a economia brasileira não vinha lá bem das pernas antes da pandemia.

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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