E 2022? Bolsonaro não terá vida fácil como em 2018, mas ainda não morreu

'Vou rezar para que, em 2022, não tenhamos um segundo turno entre Bolsonaro e a direita limpinha', escreve Esther Solano

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Artigo,Opinião

O ano nem acabou, nem acabamos de assimilar o gostinho ou “desgostinho” das eleições municipais, e todos nós, sociólogos e cientistas políticos, estamos empenhados em projetar a disputa presidencial de 2022. Pareceria um exercício obstinado de profecia e carente de sentido, mas a urgência tem um motivo, uma razão. Há tempos realizo pesquisas quantitativas com minha colega Camila Rocha e há tempos observamos dois fenômenos cada vez mais evidentes, preocupantes para o campo progressista, e alertando a respeito quem quiser escutar. Infelizmente, não são muitos.

 

 

O primeiro: Bolsonaro está vivo, ainda. Não cantem réquiem antes de tempo. Não chamem o coveiro antes da hora. Os mais de 180 mil mortos não lhe tiram a popularidade. Desejei que ele fosse um dos cadáveres políticos da eleição. Não sei se tenho força para desejar mais, pois meus anseios cada vez parecem mais impossíveis. Há várias razões para entender a fidelidade obstinada de parte do eleitorado bolsonarista mais moderado. A política da negação e da desinformação deixa muitos em um estado de confusão que os impede de identificar a total responsabilidade do ex-capitão neste caos necropolítico. Além disso, o fato de que o peso da culpa seja dividido com governadores e prefeitos também ajuda a tirá-la das costas dele. Responsabilidade dividida é mais leve. 

Para além das estratégias da desinformação e dos bodes expiatórios, a suposta autenticidade de Bolsonaro continua a ser o fator mais importante para entender a lealdade de sua base, inclusive aquela desiludida. Em nome da autenticidade se desculpa tudo. O jeito violento, bruto, instável, medíocre, incapaz, é reinterpretado como sinceridade. Bolsonaro seria o único político que não faz politicagem, e por isso se “equivoca”, “fala demais”, mas o importante é que ele é autêntico. 

Em um sistema viciado até as entranhas, o dom da autenticidade parece até coisa divina. Na guerra das vacinas, muitos identificam politicagem em João Doria, porque ele seria um político que fala bonitinho, mas é mentiroso e carreirista. Bolsonaro é, por outro lado, genuíno. É isso, meus amigos, esse é o tamanho do buraco em que nos enfiamos. O auxílio emergencial acaba, em 2022 teremos uma situação econômica difícil, Bolsonaro não conta com os aplausos do mercado, Paulo Guedes e Sergio Moro só causaram decepção. Por tudo isso, o ex-capitão não terá a vida fácil como em 2018, mas ainda não morreu.

A segunda conclusão da pesquisa é que boa parte do eleitorado bolsonarista moderado arrependido não está pronto para migrar a uma esquerda em que votou no passado. Lembrem: muitos dos hoje bolsonaristas foram petistas até recentemente. Um possível campo por construir de uma direita limpinha, “civilizada”, cheirosa, que se apresente como a verdadeira oposição a Bolsonaro, mantendo os valores meritocráticos, neoliberais e conservadores, próxima ao campo dos valores tradicionais, com um certo verniz de defesa dos serviços públicos e de políticas para os mais vulneráveis, talvez acenando a algumas pautas identitárias, terá o campo fértil. Uma direita ilustrada, como dizem alguns comentaristas. DEM, PSDB, MDB. Parece que até Ciro Gomes prefere se aliar a Rodrigo Maia do que a Lula ou Guilherme Boulos. A única fragilidade dessa direita limpinha é que há muito macho para pouco espaço. Quem será o líder da turma, o cabeça de chapa? Eles correm o risco de entrar em uma guerra fratricida antes de chegarem às urnas. Veremos. Vou rezar a todos os santos, deuses, semideuses, seres divinos e até infernais para que, em 2022, não tenhamos um segundo turno entre Bolsonaro e a direita limpinha, pois é possível, sim. Sejamos sinceros, o campo progressista precisa ser melhor, maior, mas presente, mais inteligente, mais forte, mais estratégico, mais comunicativo, mais ousado, mais inovador, mais corajoso, se quiser chegar forte a 2022 e convencer uma parte de votantes arrependidos de Bolsonaro e a outra enorme parte de eleitores que optarão pela abstenção ou pelo voto nulo de que ele representa a verdadeira alternativa. 

Caso a gente continue com os números das eleições municipais, as contas não fecham. Se não agirmos rápido, com sagacidade, com compromisso, com potência, estaremos fora das apostas. Eu não quero me ver torcendo por Doria contra Bolsonaro. Não merecemos, mas vamos ter de botar a mão na massa desde já, se não quisermos ficar atolados neste futuro fatídico. O próximo ano não será brincadeira. Temos a chance de construir um caminho para 2022 ou de construir a nossa derrota. A escolha não só está nas mãos das altas hierarquias partidárias. Também está nas nossas.

Publicado na edição n.º1137 de CartaCapital, de 23 de dezembro de 2020

 

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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