Artigo

A oportunidade ímpar do Brasil para definir a Ciência como uma política de Estado

É preciso criar políticas públicas integradas para aplicar a ciência e cumprir seu papel de motor de transformações sociais

Recurso é importante para a manutenção e expansão de laboratórios (Foto: Michal Jarmoluk/Pixabay)
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Em Manaus, uma indígena sobe ao palco e pede que sua população seja incluída em mais políticas da área científica. Pesquisadores, que haviam levado mais de 14 horas de viagem para chegar ao encontro, relatam as dificuldades de pesquisa causadas pelas longas distâncias dos centros de decisão. Exemplos como esses evidenciam as diferenças regionais num país continental como o Brasil.

Para definir uma política científica para os próximos dez anos é preciso ouvir, discutir e elencar prioridades reconhecendo nossas diferenças. Esse é o desafio da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI), que de 4 a 6 de junho vai reunir em Brasília representantes da academia, empresários, políticos e sociedade para debater políticas públicas para o setor. Após um hiato de 14 anos sem uma reunião desta magnitude, esta é uma oportunidade ímpar de se discutir o futuro da ciência – e do próprio País.

O Brasil tem algo que poucos países têm: um sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, com universidades, fundações, instituições de pesquisa, empresas inovadoras e, sobretudo, profissionais qualificados. Esse é um ponto que vale repetir: o “equipamento” mais importante que existe é o humano. Cientistas, no entanto, têm enfrentado uma série de desafios nos últimos anos.

O primeiro são os reflexos do baixo investimento na área. Depois de um período de obscurantismo, com frequentes discursos de descrédito na ciência, é comum dizermos, animados, que “a ciência voltou”.

De fato, voltou – mas é preciso reconhecer também que ainda não voltou ao patamar adequado. Temos muito a recuperar em termos de investimentos, ainda em percentuais muito baixos em relação ao PIB se comparados aos dos países desenvolvidos.

Há ainda outros desafios urgentes. Nas conferências preparatórias para a 5ª CNCTI, alguns dos termos mais frequentemente falados são inteligência artificial, mudanças climáticas, mulheres na ciência, economia solidária, desenvolvimento social, juventude, tecnologia social, transição energética e universidades.

A tecnologia vai retirar empregos? Como a IA pode ser incluída em políticas para que o Brasil não perca o bonde dessas inovações? Como as cidades podem se preparar para eventos climáticos extremos? Qual é o melhor caminho para a transição energética? Como garantir a sustentabilidade – ou seja, que novas ações não comprometam o futuro das novas gerações – nas políticas públicas? São questões que só a ciência, em diálogo com a sociedade, poderá responder.

Para isso, é preciso investimento e, também, decisão política. Sim, em muitos casos, vemos que falta muito mais vontade política do que tecnologia. É preciso criar políticas públicas integradas para aplicar a ciência e cumprir seu papel de motor de transformações sociais.

Em uma recente visita ao Brasil, Serge Haroche, prêmio Nobel de Física em 2012, destacou um paradoxo: “apesar do seu sucesso – ou talvez até por causa dele – , a ciência está ameaçada pela irracionalidade, fanatismo religioso e teorias de conspiração”.

Os desafios não são poucos. Para vencê-los, é preciso aumentar o diálogo com a sociedade. Nesse sentido, a 5ª CNCTI assume um papel fundamental. Desde setembro de 2023, mais de 70 mil pesquisadores, gestores, estudantes e outros integrantes do Sistema Nacional de CT&I, em mais de 200 eventos prévios em todos os pontos do Brasil, analisam recomendações e ações que poderão integrar a nova estratégia nacional da área nos próximos dez anos.

Isso representará um grande salto. Mas podemos buscar ainda mais. Só o reconhecimento da ciência como uma política de Estado vai garantir que ela seja permanente e tenha força necessária para transcender governos.

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