Número 944,

Política

Opinião

Caixinhas pioneiras

por Mauricio Dias publicado 18/03/2017 00h12, última modificação 17/03/2017 11h49
Toda eleição é contaminada pelo dinheiro do caixa 2. Juscelino Kubitschek e Adhemar de Barros estão no começo desta história
JK

JK sabia: é dando que se recebe

No depoimento feito ao juiz Sergio Moro, como testemunha de defesa do filho Marcelo, preso em Curitiba na Operação Lava Jato, o empresário Emilio Odebrecht disse que caixa 2 “sempre existiu”. E precisou: “Desde a época do meu pai, Norberto”. 

Sempre existiu, mas também sempre foi crime e sempre foi tolerado. 

As eleições aqui e além-mar são contaminadas pelo dinheiro. Embora não se trate de fruta genuinamente nacional, tem, entretanto, contribuição do jeitinho brasileiro. 

Hoje chamada caixa 2, é a fonte da origem de quase todos os pecados na política. Floresceu a partir dos anos 1950 e 1960.  

Nesse período ainda se falava em caixinha. Na eleição presidencial de 1950, havia a “caixinha” do mineiro Juscelino Kubitschek e a “caixinha” do paulista Adhemar de Barros. 

JK disputou e ganhou a Presidência da República em campanha cheia de novidades. Algumas inéditas. O candidato deslocava-se pelo País ora com um DC-3, ora em um Beechcraft. E comprava tempo na televisão. Foi preciso arrecadar muito dinheiro.

A coleta, chamada então de “donativo”, foi coordenada por Negrão de Lima, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas e, posteriormente, governador do estado da Guanabara. Os recursos, naquela época, eram praticamente restritos ao Sudeste.  

Os problemas de doações, nos dias de hoje, são os mesmos de ontem. É curiosa a comparação com o registro feito pelo americano Edward Riedinger em livro sobre o governo JK. 

 Ele anotou: “As contribuições geralmente implicavam retribuição (...) uma vez vitorioso o candidato, o doador seria recompensado com alguma nomeação para cargo público e/ou vantagem pessoal e ninguém dava recibo como prova de tal pagamento”.

Algo assim ocorreu com o mineiro Sebastião Paes de Almeida, um dos sustentáculos financeiros da campanha de JK. Foi recompensado com a presidência do Banco do Brasil e, posteriormente, com o Ministério da Fazenda.  

Havia desvio dos “donativos” para a campanha de JK. Muitas vezes o dinheiro não ia para a eleição. Ficava nas mãos do coletor.

Adhemar de Barros perdeu essa eleição que JK venceu em 1955. Ele sofria com o peso do slogan “Rouba mas faz”. 

Em julho de 1969, poucos meses após a morte de Adhemar de Barros, a organização armada Var-Palmares assaltou a casa de Ana Capriglione, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, levando um cofre com 2,5 milhões de dólares guardado por ela, ex-secretária e ex-amante do governador, que ao telefone, para esconder-lhe a identidade, chamava-a de doutor Ruy. 

Era o cofre de Adhemar. Impossível registrar na polícia o roubo daquele objeto pesado e valioso e onde estava guardado o dinheiro de caixa 2.