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O Google ganha ao perder o leilão dos 700 MHz

por Guilherme Felitti — publicado 31/03/2008 16h12, última modificação 20/09/2010 16h13
Sistema de busca, aplicativos dentro do navegador, gerenciamento de e-mails, mensageiro instantâneo, software geográfico e plataforma de publicidade.

Sistema de busca, aplicativos dentro do navegador, gerenciamento de e-mails, mensageiro instantâneo, software geográfico e plataforma de publicidade.

Se o acúmulo de campos em que atua (e tem um sucesso estrondoso) faz com que você faça parte do grupo daqueles que têm medo do Google, saiba que, apertando, ainda cabe mais um pra empresa de Sergey Brin e Larry Page.

O primeiro passo veio na semana passada, por meio de uma derrota. Ao invés de simplesmente se focar no “fim” (aonde usuários vão quando estão conectados à rede), o Google pretende apelar para o “meio” (provendo a própria estrutura para que o usuário acesse seus serviços).

Em 20 de março, a Comissão Federal de Comunicações (espécie de Anatel dos Estados Unidos) divulgou detalhes sobre o leilão do espectro a ser vago pela TV analógica, dando a vitória à Verizon e à AT&T, operadoras tradicionais no setor, nos dois principais dos cinco blocos em leilão. Interessado e na briga, o Google não levou nada.

Antes de tudo, o que leva o Google a se interessar por um setor onde não tem a mínima experiência? Em poucas palavras, a transição completa da TV analógica para a digital nos EUA, programada para fevereiro de 2009 (enquanto o Brasil planeja relançar seu combalido sistema de transmissão), vagará um bom espaço do espectro que ficará sem uso.

Um dos cinco blocos em que a FCC repartiu o espaço vago, o Bloco C, tem características técnicas que permitem uma rede de dados com velocidade e alcance suficientes para um serviço de banda larga nacional.

Já experimentando conceder acesso WiFi gratuito na região de Mountain View, o Google viu a chance de oferecer o acesso nacionalmente e realmente começar a agir como o “meio” para que mais pessoas chegassem ao “fim” –seus serviços ou sua plataforma de publicidade.

Não deu. Juntas, Verizon e AT&T gastaram 80% dos cerca de US$ 20 bilhões que a FCC arrecadou com o leilão, levando 336 licenças de exploração e, por parte da Verizon, o desejado Bloco C (uma tonelada de dados sobre o leilão está neste arquivo de texto do FCC ).

E porque o Google, que fechou 2007 com US$ 14,2 bilhões em caixa, não aumentou a oferta total de US$ 9,3 bilhões feita pela Verizon? Porque já tinha ganhado o que queria. Questão é que a FCC formulou uma cláusula no leilão exigindo que, após atingir o preço de reserva, o vencedor do Bloco C deveria abrir a rede que haveria de ser construída para softwares e produtos alheios.

Você deve conhecer alguém que já teve problemas com as altíssimas restrições que operadoras impõe a seus clientes. O Bluetooth travado em aparelhos, a internet difícil de ser navegada, o portal apenas com conteúdo próprio, as taxas abusivas para acessar sites convencionais - minha imprecisão deve ser facilmente compensada pela variedade de exemplos do tipo.

O modelo comercial das operadoras, alvo de reclamações freqüentes, sempre se baseou no conceito do “jardim murado”: você entra, mas existem diversas dificuldades para sair. Dados os investimentos milionários feitos por elas em estrutura, existe um medo comum de que as redes se tornem apenas um “meio” para outros conteúdos.

Por isto, você é obrigado a se deparar com um portal próprio da sua operadora com conteúdos sempre exageradamente caros e nem sempre variados – muito do dinheiro ganho com os clientes vem daí.

O primeiro passo para uma mudança neste modelo de negócios veio em 2007 por outro gigante de tecnologia em sua segunda investida no setor – a primeira foi, igualmente, uma derrota. Ao apresentar ao mercado o iPhone, a Apple também entortava as relações que fabricantes tinham com operadoras.

Ao invés de simplesmente se aliar à fabricante para custear aparelhos que prendessem o usuário à sua própria rede por longos planos pós-pagos, a AT&T cedeu poder à empresa de Steve Jobs confiando em outra idéia – a de que um aparelho novo, com liberdade de acesso a conteúdo, levaria a mais tráfego.

Deu certo. “Clientes gastarão mais tempo nos aparelhos (e, logo, nas redes), recebendo contas cada vez maiores e gerando maiores receitas para todos”, diz Fred Vogelstein, em uma excepcional matéria investigativa na Wired sobre como o iPhone foi concebido.

Mesmo sem ganhar a licença para montar a sua própria estrutura para banda larga sem fio nacional, o Google ganhou a certeza que poderá ver seus aplicativos (principalmente o Android, sua plataforma aberta de desenvolvimento para celulares ) rodando no Bloco C, independente do vencedor, numa espécie de simbiose boa apenas para um lado.

Além de levar seus produtos já populares no desktop para uma plataforma móvel cada vez mais confortável para navegação online, o Google tem a ótima oportunidade de transferir o sucesso da sua plataforma de publicidade AdSense do navegador para o celular, incentivado por números animadores.

Ainda incipiente, o mercado de publicidade móvel, estimado em US$ 24 bilhões em 2006, deverá movimentar US$ 55 bilhões até 2011, segundo a Mobile Marketing Association, um naco que a gigante de buscas e publicidade não poderia se dar ao luxo de perder.

Num post no seu blog de política pública no mesmo dia da divulgação dos resultados, o Google admite que “mesmo que não tenha ganho nenhuma licença do espectro, o leilão culminou em uma grande vitória para os consumidores norte-americanos”. “Teremos mais para falar sobre o leilão em um futuro próximo”, promete o buscador, num comentário carregado de cinismo.

Palavras não são necessárias – o barulho das moedinhas que cairão no cofrinho do Google compõe a mensagem.