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O brasileiro na internet pelos olhos de Isabella e Luminha

por Guilherme Felitti — publicado 05/05/2008 16h10, última modificação 20/09/2010 16h12
O caso Isabella Nardoni já deu e não sou eu que estou falando. É você. Quer dizer, é o Google Trends, usando as palavras que você e milhões de outros brasileiros consultaram no buscador nos últimos trinta dias.

O caso Isabella Nardoni já deu e não sou eu que estou falando. É você. Quer dizer, é o Google Trends, usando as palavras que você e milhões de outros brasileiros consultaram no buscador nos últimos trinta dias.

O gráfico traçado pelo Google com as procuras pelo nome de Isabella Nardoni é bem claro: há uma explosão de buscas na última semana de março (o crime aconteceu no dia 29), com uma curva que atinge seu ápice nos primeiros dias de abril, quando a divulgação dos detalhes sobre as primeiras investigações fez com que a opinião pública se voltar para o casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, preso preventivamente no dia 3 de abril.

O interesse vai diminuindo até os dias que antecipam a entrevista que o casal daria ao Fantástico, em 20 de abril, com o fim da perícia técnica sobre o caso e a convocação do casal para depoimento com o relatório final praticamente concluído nas mãos da Polícia Federal. Depois disto, uma queda com alguns soluços de interesse, que deixa a procura pelo nome de Isabella Nardoni um pouco acima do nível (praticamente zero) antes do crime.

Em seu seminal "A Busca", o jornalista e pesquisador John Battelle explica que os buscadores, como o próprio Google, Yahoo e MSN Live, da Microsoft, representam um registro sobre os principais desejos que os usuários têm, classificados por ele como "banco de dados das intenções".

Quer encontrar uma locadora de carros? Coloque "aluguel+carros" no buscador. Aprender a fazer uma bomba plástica? "bomba+plástica+caseira". Procurar obras de Herman Hesse? "bibliografia+herman+hesse". Relembrar a escalação do Santos campeão brasileiro de 2002? "santos+campeão+2002". Saber mais sobre Isabella Nardoni? "isabella+nardoni".

Em síntese, "esta informação representa, de maneira agregada, um lugar único para as intenções da humanidade - um banco de dados gigantesco de desejos, necessidades e gostos que podem ser descobertos, supostos, arquivados, rastreados e explorados para todos os tipos de fins", explica Battelle.

Um outro exemplo de infanticídio reflete um pouco (ainda que em menor grau) este interesse súbito da população por um determinado assunto. O caso do carioca João Hélio, arrastado no carro da mãe em fevereiro de 2007 após um assalto no Rio de Janeiro, viu uma comoção semelhante online - o mesmo Google Trends mostra a explosão de buscas pelo nome do garoto entre fevereiro e abril daquele ano. Depois, o silêncio.

As buscas são apenas uma porta de entrada para o poder de mobilização que a internet oferece em momentos de comoção popular. Você pode achá-la popular demais, mas a rede social Orkut, sucesso por terras brasileiras, indianas e paraguaias, é o melhor termômetro online que você pode encontrar sobre reações do brasileiro a polêmicas na internet.

A mobilização fervorosa está lá, representada tanto pelas mais de 900 comunidades que usam o nome "Isabella Nardoni" (muitas em categorias sem relação com um crime, como "Moda e Beleza" ou "Culinária, Bebidas e Vinhos"), como pelos mais de 100 mil comentários recebidos pelo perfil da mãe da menina, Ana Carolina de Oliveira, e pelas conseqüentes armadilhas virtuais, que usam assuntos em discussão para tentar roubar usuários distraídos ou sem instrução.

Próximo ao dia em que a procura pelo nome de Isabella atingiu seu ápice no Google Brasil, encontrei Luminha dentro do Orkut. Seu perfil estava linkado dentro de uma comunidade da própria rede social, chamada Piores Perfis do Orkut (PPO). A maneira apaixonada como os brasileiros abraçaram a rede criada pelo engenheiro turco do Google em suas horas vagas resulta em material de sobra para sites de escárnio alheio - o Pérolas do Orkut e o PPO são os dois principais.

Luminha não é exatamente sexy como se descreve em seu álbum de fotos. Ao segurar a câmera para um auto-retrato, enquanto mordisca a haste do óculos na tentativa (falha) de sensualidade, é possível ver pelas dobras em seu braço que Luminha está muito acima do peso do que um homem de gosto médio consideraria erótico. As fotos em que aparece com as mãos espalmadas em uma árvore ou vestindo um jeans apertado olhando maliciosamente para trás também passam longe do sentimento erógeno que suas legendas tentam transparecer.

Luminha, porém, está totalmente no seu direito. Não há qualquer menção nas regras de conduta do Orkut (quiçá na Constituição do Brasil) que se prestar ao ridículo seja ilegal, contra as regras. Ainda assim, o link que Luminha ganhou na comunidade PPO fez com que seu perfil se transformasse no epicentro da manifestação popular online, de maneira diametralmente oposta à solidarização por Ana Carolina de Oliveira.

Em seu álbum de recados, aberto para qualquer usuário da rede, acumulam-se mais de 900 mensagens, a maioria de tom agressivo e sarcástico, provavelmente de pessoas que não conheciam Luminha até que seu perfil caísse nas graças do PPO. Entre os recados, alternam-se cantadas irônicas com ofensas pessoais, muitas racistas (Luminha é negra).

De um lado, a comoção nacional nas comunidades dedicadas a Isabella Nardoni. De outro, a internet como praça para o linchamento público, potencializado pelo anonimato. Em ambos, um grupo na casa dos milhões que, mesmo sem qualquer envolvimento pessoal com nenhum dos lados, se dedica às questões sem uma explicação muito clara do porquê.

No grupo em homenagem à menina com mais participantes (além dos 165 mil), o moderador diz que seu objetivo é "não deixar que o caso seja esquecido". O histórico de João Hélio online deixa claro que o propósito tende a falhar. Há sempre uma nova Luminha para que voltemos nossas atenções - independente da nossa intenção.