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Desafio

Google “made in China”

por Felipe Marra Mendonça publicado 24/08/2010 11h17, última modificação 24/08/2010 11h17
Depois de muita briga com o gigante do mercado, Pequim resolve criar um mecanismo estatal de busca

Depois de muita briga com o gigante do mercado, Pequim resolve criar um mecanismo estatal de busca

Usar a internet na China não é algo muito fácil. Todos os usuários do país, exceções feitas aos escalões mais altos do Partido Comunista e eventuais favorecidos pelo regime, ficam confinados por trás do chamado “Grande Firewall”, uma brincadeira com a Grande Muralha. É possível burlar os controles e acessar sites proibidos, mas as ferramentas não são acessíveis a todos. Para complicar um pouco mais a vida das pessoas, o governo chinês anunciou, no dia 13, mais uma medida para cercear as já escassas liberdades de seus cidadãos na internet: a criação de uma ferramenta de buscas estatal.

O curioso disso é que, mesmo com a internet fortemente censurada, o governo ainda não havia imposto sua presença no setor de buscas de internet. As outras estatais chinesas, como a China National Tobacco ou a agência de notícias Xinhua, tinham sido criadas numa época muito anterior ao surgimento da rede, e desde então poucas empresas foram criadas pelo Estado chinês. A mais recente, de grande sucesso, é a China Mobile, a maior operadora de telefonia celular do mundo, com mais de 800 milhões de clientes.

A novidade a entrar no mercado de buscas terá o pomposo nome de Search Engine New Media International Communications Company e será uma joint venture entre as supracitadas Xinhua e China Mobile. A primeira tarefa da nova empresa será tentar alcançar o domínio da Baidu, ferramenta de buscas estabelecida há mais de uma década e que nem mesmo o Google conseguiu ameaçar em território chinês.

Embora o criador da Baidu, Robin Li, seja um dos novos bilionários da China, a motivação do governo tem pouco a ver com o lucro. Segundo Zhou Xisheng, vice-presidente da Xinhua entrevistado pelo The New York Times, a criação da nova ferramenta de buscas é “parte dos esforços mais amplos do país em defender a segurança de suas informações e promover o desenvolvimento da indústria da nova mídia chinesa de maneira robusta, saudável e ordeira”. Ou seja, o governo quer ter a certeza de poder controlar um dos poucos setores da internet que ainda tinha alguma “liberdade” de ação, mesmo que entre aspas.

Outra medida de controle, mas agora menos virtual e mais física, foi anunciada no dia 18 pela companhia americana Global Rainmakers.
Especializada em biometria, a empresa assinou um convênio com a cidade mexicana de León e vai distribuir pela cidade aparelhos que escaneiam as íris dos cidadãos que passam por suas ruas. A ideia é criar “a cidade mais segura” do mundo, segundo Jeff Carter, vice-presidente de desenvolvimento da empresa citado pela revista Fast Company.

A base de dados do sistema vai ser preenchida em primeiro lugar pelas íris de toda a população carcerária da cidade, e os cidadãos de bem podem optar ou não por se registrarem no sistema. Dessa forma, os que estiverem registrados poderão pegar ônibus ou tirar dinheiro de caixa eletrônico sem precisar usar bilhetes ou cartões. A polícia da cidade vai monitorar o uso do sistema para acompanhar indivíduos de seu interesse. “Se você tiver cometido algum crime, o sistema vai agir como uma ‘letra escarlate’. Caso tenha roubado alguma loja, você não vai poder entrar em outra sem ser identificado. Para outras pessoas o ato de tentar embarcar em um avião vai se tornar impossível.” Bem-vindos a 1984.