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Falha na China mantém Brasil dependente de satélites estrangeiros

por Deutsche Welle publicado 11/12/2013 06h43, última modificação 11/12/2013 08h02
Perda do Cbers-3, lançado com três anos de atraso, fará com que Brasil espere pelo menos até 2015 para poder monitorar seu território sem depender de outros países
AFP
China foguete

O foguete Chang'e-3, lançado pela China em 2 de dezembro a partir de visto em Xichang

A falha no lançamento do satélite Cbers-3, na última segunda-feira (09/12), não deve abalar a cooperação de mais de 25 anos com a China, mas é mais um revés para o programa espacial brasileiro, que tenta se reerguer após décadas de resultados questionáveis. Além do prejuízo econômico, o novo percalço manterá o país, pelo menos até 2015, dependente de imagens feitas por satélites estrangeiros para monitorar seu território.

Um dos principais prejuízos causados pela falha é a perda dos dados que seriam enviados do espaço. Há três anos e meio o país depende de satélites estrangeiros, e o Cbers-3 iria gerar imagens da superfície do território brasileiro que poderiam ser utilizadas, por exemplo, no controle do desmatamento, no monitoramento de desastres naturais e no zoneamento agrícola e das cidades.

"Além do próprio satélite e do seu valor como produto, deve-se somar os anos de operação que teria pela frente e a quantidade de dados que seriam coletados e utilizados por pesquisadores, empresas e pelo próprio governo brasileiro", diz Artur Elias de Morais Bertoldi, especialista em engenharia aeroespacial da UnB.

Lacuna no espaço brasileiro

A lacuna no monitoramento espacial brasileiro surgiu em 2010, quando o Cbers-2B parou de funcionar antes do tempo previsto, e com o atraso de três anos para o lançamento do Cbers-3, cuja construção foi dividida entre Brasil e China.

O Cbers-3 foi o quarto satélite desenvolvido pelo programa China-Brazil Earth Resources Satellite (Cbers) e custou cerca de 300 milhões de reais ao lado brasileiro. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ocorreu uma falha na última etapa do processo para colocar em órbita o equipamento, que partiu de Taiyuan, na China.

O motor de propulsão do lançador chinês foi desligado 11 segundo antes do previsto, impossibilitando que o equipamento atingisse a velocidade necessária para se manter em órbita. Os pesquisadores do Inpe acreditam que o equipamento tenha se desintegrado na atmosfera.

"O prejuízo direto é que ficaremos mais um tempo sem esse tipo de informação que é muito importante, não só para o Brasil, mas o Brasil distribui para outros países essas imagens", opina Othon Winter, professor da faculdade de engenharia da Unesp.

O Brasil era responsável por 50% da construção do satélite que se perdeu na segunda-feira. E, segundo Winter, o país estava preparado para cumprir sua parte, mas questões externas levaram ao atraso. O Brasil dependia da importação de materiais e, de acordo o especialista, um boicote dos Estados Unidos acabou atrasando a construção do equipamento. Além disso, quando o material chegou, falhas foram detectadas.

"Tanto do ponto de vista econômico quanto político há interesse de outras nações para que o Brasil não cresça nesse campo, porque se tivermos uma indústria produtiva na área espacial certamente seremos concorrentes de outros países", afirma Winter.

Parceria inabalada

A falha colocou em questão a parceria com a China. Mas segundo Winter, essa cooperação é positiva e não deve ser abalada, pois dá ao Brasil a possibilidade de desenvolver tecnologias no setor. O físico reforça que outras propostas de colaboração já foram feitas por diversos países, mas poucas delas eram vantajosas para o Brasil, principalmente as feitas pelos EUA.

"A política espacial americana, pelo menos com o Brasil, nunca foi a de auxiliar em termos de crescimento e desenvolvimento de tecnologia. São políticas internacionais que realmente não interessam para um país que quer ter autonomia e liderança", afirma Winter.

Bertoldi também avalia positivamente a cooperação. E lembra que, além de possibilitar o desenvolvimento industrial do país, a parceria facilita a aquisição de peças para a produção de satélites e veículos lançadores.

"Soma-se o fato de o lançamento ocorrer com veículos lançadores chineses, uma vez que o programa de lançadores brasileiro tem sofrido com sucessivos atrasos e orçamento limitado", acrescenta Bertoldi.

Falhas de lançamentos são problemas comuns em programas espaciais. Em 2009, por exemplo, a Nasa perdeu um satélite para medir presença de carbono na atmosfera, após um problema com o foguete de lançamento Taurus XL. O projeto custou mais de 400 milhões de dólares.

Segundo especialistas, esses imprevistos podem ser um boa oportunidade para aprimoramentos no setor. "O programa espacial evolui, dessa forma, com altos e baixos. Os pontos negativos são, às vezes, aqueles que possibilitam um crescimento maior do que se tudo estivesse dando certo, sem maiores contratempos", afirma Winter.

Para amenizar os impactos da perda do Cbers-3, os governos brasileiro e chinês estudam antecipar para o próximo ano o lançamento do Cbers-4, previsto inicialmente para 2015.

Autoria Clarissa Neher
Edição Rafael Plaisant

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