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Tecnologia

Sequestro de CartaCapital

Em tempos de internet, censura nas ruas é inócua

por Gabriel Bonis publicado 06/04/2012 15h16, última modificação 06/06/2015 18h22
Analistas afirmam que democracias modernas se abastecem das redes sociais, capazes de furar bloqueio de qualquer informação relevante à sociedade
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A blogosfera e as redes sociais são o calcanhar de Aquiles de José Serra, e não é de agora. Foto:Istockphoto

De Goiânia

 

A popularização do acesso à internet e o uso de sites de compartilhamento de informações, como Twitter e Facebook, transformaram a rede mundial de computadores em uma importante ferramenta de debates, luta por democracia e espaço livre de circulação de informações. Características somadas ao poder de organização de manifestações diversas, como os protestos contra supostas fraudes na eleição presidencial iraniana de 2009, acompanhados pelo Ocidente por meio de vídeos postados no Youtube, ou da Primavera Árabe, que varreu regimes ditatoriais de Tunísia, Egito e Líbia no inicio de 2011, com levantes populares acionados nas redes sociais.

Nestes casos, a internet funcionou como uma trincheira para circular a informação e organizar movimentos democráticos. Na última semana, as redes sociais brasileiras também deram um exemplo de  força. Leitores de CartaCapital em Goiás denunciaram o sequestro da edição 691 da revista, comprada misteriosamente em lotes por cliente nas bancas da cidade.

A "operação" ocorreu n o domingo 1º, logo após a abertura das lojas por volta de 8h da manhã. Na capa, havia reportagem sobre a relação comprometedora do bicheiro Carlinhos Cachoeira com o governo do tucano Marconi Perillo (leia a reportagem completa clicando ).

Devido ao elevado número de avisos dos internautas, a reportagem percorreu, na terça-feira 3, cerca de 100 quilômetros em Goiânia para averiguar a situação nas principais bancas da cidade. Não encontramos a revista e confirmamos as informações dos leitores. (Leia mais )

Em meio à tática denunciada pelos internautas, Pedro Celio Alves Borges, doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal de Goiás, defende que a atitude é “completamente inócua”, devido à circulação livre de informações pela internet.

“A comunicação dos textos e também das imagens não se dá mais principalmente pelos exemplares nas bancas. A web é um território livre com diferentes redes, listas e circuitos de comunicação informal. Isso tem muito mais efetividade.”

Silvio Costa, cientista social, professor da PUC de Goiânia e filósofo, vai além e defende que a ação não tem o mesmo efeito da censura prévia na ditadura. "Hoje, dificilmente se impede uma informação de circular e tentativas neste sentido não produzem resultados.”

Tudo isso, devido às redes sociais, que mobilizaram um público jovem contra a atitude, antes diretamente fora deste círculo, diz o professor da UFG. “O poder de irradiação de uma atitude fora de contexto como esta cresce em tempos e internet.”

Caso exemplificado por Costa, ao relatar que um estudante universitário, indignado com o sequestro das revistas, se juntou a um grupo de colegas e tirou 230 fotocópias da reportagem sobre Goiás. "Eles a distribuíram gratuitamente em praça pública para denunciar.”

“A internet é um instrumento recente importantíssimo e precisa ser aperfeiçoado, pois contribui para uma visão mais crítica da população”, completa e deixa a mensagem: "esses instrumentos não agem sozinhos, é preciso indivíduos a fim de propagar as informações.”

Segundo Borges, o sequestro das revistas denunciado pelos leitores indica que opinião pública moderna não convive com esse tipo de atitude em plena democracia.

“O meio tecnológico da informação é cada vez mais predominante e hegemônico, e as novas democracias se abastecem também nos ambientes virtuais.”

É por isso, aponta Costa, que há uma tentativa dos setores conservadores em tentar estabelecer mecanismos de controle sobre a internet.

O filósofo se refere ao projeto de Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O projeto, tido como o AI-5 digital (leia mais ), prevê a punição para diversos crimes digitais.

Neste cenário, a internet, diz Borges, se transformou em um ambiente adicional da manifestação e formação de opinião, com correntes diversas de ideias.

“Isso implica em um tipo de militância virtual sem os riscos da militância tradicional dos movimentos sociais", finaliza.

 

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