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Ainda usando Windows XP? Bill Gates quis assim

por The Observer — publicado 30/05/2014 04h32, última modificação 30/05/2014 05h07
A visão de Bill Gates era de "um computador em cada mesa, todos rodando software da Microsoft". Agora o verdadeiro custo está surgindo. Por The Observer
Stan Honda / AFP
Windows 8

O Windows 8 funcionando em um tablet da Microsoft. Lançado em 2012, ele é o terceiro sistema operacional mais usado no mundo, atrás do Windows 7 e do "vovô" Windows XP

Por John Naughton

Certa noite, alguns anos atrás, eu estava em uma festa de Natal em Londres. O evento ocorria no oitavo andar de um edifício no centro da City, e em certo momento, tentando escapar da balbúrdia, peguei minha bebida e me aventurei até a sacada.

Era uma noite clara e sem vento. Ao redor havia um panorama maravilhoso, coroado pela cúpula gloriosa de St. Paul's, à distância. Então comecei a olhar para os grandes edifícios de escritórios, com fachadas de vidro, na minha vizinhança. Apesar de ser mais de 10 da noite, as luzes estavam acesas em todos os prédios, permitindo-me enxergar o interior de centenas de escritórios. Estes variavam em tamanho e decoração, mas todos tinham uma coisa em comum. Em cada um deles, havia em algum lugar uma mesa sobre a qual se encontrava um PC.

O que veio à minha mente então foi a lembrança de um jovem empresário de cabelos revoltos chamado Bill Gates, que certa vez articulou a visão de "um computador em cada mesa, todos rodando software da Microsoft". O que eu vi naquela noite de dezembro foi a realização dessa visão. Todas as máquinas que eu divisava rodavam software Microsoft: uma monocultura de software, se você quiser.

A predominância da Microsoft era um testemunho do poder dos efeitos da rede e da exclusividade tecnológica. Isso levou a um mundo em que ninguém jamais foi demitido por comprar produtos Microsoft e nenhuma inovação em software ganhava impulso a menos que se destinasse a rodar em Windows.

Durante algum tempo a Microsoft foi a vencedora que levou tudo. Seria tolo fingir que essa era uma notícia totalmente ruim, porque a padronização de fato que a Microsoft trouxe à tecnologia de computadores pessoais permitiu a vasta expansão da indústria do PC e acelerou a adoção dos computadores em escritórios e residências.

Mas, ao lado desses benefícios substanciais, havia alguns problemas significativos. A monocultura da Microsoft apresentou aos hackers e outros malfeitores um alvo colossal e lucrativo. Eles o exploraram com uma torrente de "malware" – vermes, vírus, trojans, etc. – que continua nos assolando, ou àqueles que ainda usam coisas da Microsoft. De maneira mais insidiosa – e talvez mais significativa –, o predomínio da Microsoft nos deixou um legado extremamente problemático.

O artigo que mais se destaca nesse legado é o Windows XP, hoje com 13 anos de idade e ainda o segundo sistema operacional mais popular do mundo. Atualmente ele roda quase 28% dos PCs do mundo. A firma de pesquisas de mercado Gartner reconhece que até um quarto dos sistemas empresariais e 10% das grandes organizações ainda usam o XP.

Isso significa que pequenas e médias empresas, corporações, multinacionais, companhias de serviços públicos, varejistas, governos locais e nacionais e hospitais – todos são dependentes do XP. Ah, e a maioria dos caixas automáticos ATM ainda roda XP.

Por que isso é importante? Bem, primeiro há o problema da monocultura acima citado: uma porcentagem significativa dos computadores do mundo – tanto em empresas como em residências – roda um sistema operacional idoso, vulnerável a invasões de piratas.

Ainda mais significativo, porém, é o fato de que em 8 de abril deste ano a Microsoft lançou sua última atualização de segurança gratuita para o XP. A partir de agora, qualquer pessoa que deseje obter atualizações de segurança para o sistema terá de entrar em um acordo caro (200 dólares por computador) com a Microsoft. E os clientes que aderirem terão de assinar um chamado "plano de migração" com a Microsoft, que é basicamente um agendamento para atualizarem suas máquinas para o Windows 8, com todos os custos relacionados. É como comprar o seguro de um ano contra enchentes para sua casa enquanto assina um acordo de que no prazo de dois anos você colocará o prédio sobre palafitas.

Isso não tem a ver só com as empresas, aliás. O governo britânico tem centenas de milhares de PCs que rodam XP. E dos 800 mil computadores do Sistema Nacional de Saúde cerca de três quartos funcionam com o programa. Nessas circunstâncias, a notícia de que o governo de Sua Majestade destinou 5,5 milhões de libras para a cobertura de um ano parece um raro exemplo de um governo que faz algo prudente. Mas na realidade ele apenas comprou tempo: o terrível momento em que o setor público terá de atualizar seus computadores se aproxima de modo inexorável. Pense nisso como o equivalente tecnológico ao referendo na Escócia.

Tudo isso coloca em perspectiva o atual comentário da mídia sobre a Microsoft. A companhia é amplamente ridicularizada pela maneira como foi superada pela Apple e a revolução dos celulares. E é tudo verdade. Mas, adivinhe? A Microsoft ainda é fabulosamente rentável e a história do XP explica por que continuará sendo.

As pessoas que não foram demitidas por comprar da Microsoft terão se aposentado há muito tempo enquanto seus sucessores continuarão pagando por isso.

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