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A encruzilhada tecnológica em 2008

por Guilherme Felitti — publicado 25/01/2009 16h06, última modificação 20/09/2010 16h07
Dois mil e oito será marcado, dentro da tecnologia, como um ano que determinou rumos que poucos gigantes e uma nação de pequenos deverão seguir nos próximos anos. Um ano que marcou a saída de alguns grandes de cena, seja imediata ou apenas iminente, fruto de decisões erradas.

Dois mil e oito será marcado, dentro da tecnologia, como um ano que determinou rumos que poucos gigantes e uma nação de pequenos deverão seguir nos próximos anos. Um ano que marcou a saída de alguns grandes de cena, seja imediata ou apenas iminente, fruto de decisões erradas.

Não houve maiores impactados durante 2008 que o mercado de internet. De um lado, a gigante do mercado de softwares para PCs, a Microsoft, concretiza uma oferta até então renegada aos boatos de mercado para se fundir ao Yahoo, outrora símbolo dourado das buscas online.

Se tinha como objetivo fazer frente à dominação do Google tanto em buscas como no dinheiro da publicidade online, a verdadeira razão por trás dos 44,6 bilhões oferecidos pela Microsoft, a negociação, mal conduzida pelos executivos de ambos os lados, deixou os potenciais parceiros com as mãos abanando que ambos tinham no começo de 2008.

A trapalhada vem em conjunto. De um lado, o co-fundador e presidente do Yahoo alegava que os 31 dólares oferecidos pela Microsoft por ação da empresa que já foi sinônimo de internet na década de 90 era pouco. A falta de visão de Yang custou-lhe o cargo já no final do ano, quando cada papel do Yahoo, veja só, custava 10,63 dólares.

Do outro, a história dificuldade da Microsoft em adentrar um setor pouco acostumado a um controle centralizado ou por seus usuários aceitarem em limitações que lhes são impostas.

O naufrágio da compra do Yahoo teve como conseqüência imediata a compra do PowerSet, buscador que tenta ver significado nos termos digitados pelo usuário com um altíssimo potencial, mas que, ainda em fase embrionária, não dará à companhia a participação imediata que almejava.

Não foi, definitivamente, um bom começo para Steve Ballmer substituindo Bill Gates como líder máximo da Microsoft. Gates, o multibilionário responsável pela base teórica do sistema operacional usado por 9 entre 10 pessoas no mundo, saiu em 2008 do cotidiano da empresa que ajudou a fundar para cuidar da sua fundação filantrópica, a Bill & Melinda Gates Foundation. Aposentou-se para cuidar da caridade.

Com ambos batendo cabeça, o Google teve um ano para se lembrar, não? Errado. Dois e mil e oito marcará também o ano em que o mercado viu que a exuberância do buscador, tem sim, limite. As ações do Google abriram o ano avaliadas em 685 dólares cada. A dias de 2009, os papéis ameaçam passar da faixa dos 300 dólares, em perda de mais da metade do seu valor em apenas 12 meses.

Não entenda que o buscador não tem o que comemorar no ano. Dois mil e oito vai embora com um Google cada vez mais líder em buscas: 63,5% das buscas em novembro foram no serviço, contra 58,4%no final de 2007, em dados da comScore. Em 2008, o Google manteve a escrita dos grandes anúncios inesperados (como foi com OpenSocial e Android em 2007) e peitou a Microsoft em outra área de sua dominação: os browsers.

Chrome chegou de susto em setembro não apenas para roubar mercado do Internet Explorer, que tem pouco menos de 80% do setor, mas também do Office - com sua função que permite que serviços online sejam acessados a partir do desktop, o Chrome transforma o Google Docs em rival direto do dominante pacote corporativo da Microsoft.

Quem pode, em 2009, tomar o mesmo rumo que Bill Gates é seu eterno antagonista (e vice-versa) Steve Jobs. Boatos sobre a saúde do fundador e presidente da Apple aumentavam a cada aparição pública de Jobs - alimentava-se a idéia de que, talvez, o câncer pancreático que o acometeu em 2004 tivesse voltado.

O anúncio de que Jobs não fará a tradicional apresentação de abertura da MacWorld Expo, evento anual centrado nos produtos da Apple em São Francisco, atingiu a saúde financeira da empresa - a Oppenheimer & Co passou a desaconselhar a compra de ações da Apple em médio prazo.

Não fosse o lançamento (e posterior sucesso) do iPhone 3G em dezenas de mercados pelo mundo, replicando a estratégia (arriscada para operadoras) adotada pela AT&T nos Estados Unidos, perigava Jobs ser a principal notícia do ano dentro da sua empresa.

No Brasil, o iPhone 3G chegou por três operadoras com preços que atingem até os 2,6 mil reais, em uma movimentação cercada mais de glamour no lançamento do que da prometida democratização da internet móvel e que dá ao Brasil o desconfortável prêmio de iPhone mais caro da América do Sul.

Houve também as rebarbas da crise econômica norte-americana em um setor historicamente dominado por tecnologias e investimentos norte-americanos. As demissões pegaram todos os níveis - da gigante Sony mandando 8 mil embora a startups que, com suas poucos demissões, levaram às ruas grande parte de suas mão de obra.

No Brasil, a histórica dependência de mercados internacionais para a fabricação dos semicondutores, o material básico para qualquer produto eletrônico, terá como principal impacto da crise o aumento nos preços de TVs, computadores, laptops, monitores, câmeras digitais e afins.

Os grandes prejudicados, acredite, não são aqueles que terão de economizar mais dois meses até pagar a vista um LCD de 42 polegadas, mas a massa de novos internautas que ainda migra de LAN house em LAN house atrás de uma conexão decente para ver vídeos no YouTube ou amigos no Orkut.

O forte ritmo de inclusão digital () registrado nos últimos 3 anosdeve ser freado em 2009 tanto pelo encarecimento dos computadores nas prateleiras como pelo encolhimento do crédito às classes mais baixas. Quanto mais o dólar sobe, menos os excluídos digitais têm chances de mudarem este estado.

Dois mil e oito ainda foi o ano dos netbooks, os computadores de bolsa menores que laptops; da consolidação das redes sociais (Orkut por aqui, MySpace nos EUA e Facebook no mundo); do Twitter como novo meio de comunicação em seus 140 caracteres; da contínua maturidade dos blogs; da TV Digital amargando baixíssima audiência em seu primeiro ano e de tantos outros assuntos tecnológicos.

As decisões tomadas durante o ano colocam 2008 como uma encruzilhada tecnológica - os próximos anos serão desdobramentos diretos de muitas escolhas feitas nos últimos dose meses.