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Dia Mundial da Água

Vidas secas. Até quando?

por Redação Carta Capital — publicado 22/03/2012 16h00, última modificação 22/03/2012 16h00
Livro dá exemplos de tecnologias bem-sucedidas pelo País para superar o problema de escassez de água
barraginha

As "barraginhas" construídas em Sete Lagoas, Minas Gerais, são contentoras de enxurradas e proporcionam melhores condições para as famílias e ainda diminuem impactos ambientais

Os problemas relacionados à seca sempre fizeram parte da realidade do brasileiro. A imagem clássica de uma vasta extensão de terra amarelada, recortada pela falta de chuvas e com vegetação escassa já serviu de mote para as mais variadas manifestações artísticas de nossa cultura. As mazelas causadas pela seca são um dos principais empecilhos enfrentados pela população na luta pela cidadania. A situação se agrava na medida em que as mudanças climáticas se tornam realidade - e também tema de políticas públicas.

Desde fevereiro, quem acompanha o assunto pode acessar na internet uma espécie de guia sobre iniciativas para minimizar o problema. O livro Água e mudanças climáticas: tecnologias sociais e ação comunitária - disponível para download em Creative Commons no site da Fundação Banco do Brasil, parceria do projeto junto com o Cedefes, o Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva, apresenta um conjunto de ações que ajudaram na diminuição dos problemas gerados pela falta d’água.

A obra foi coordenada por Milton Nogueira, consultor internacional para mudanças climáticas, energia e negociações multilaterais, e sugere caminhos de como adotar tecnologias sustentáveis para promover melhorias nas comunidades mais atingidas pela seca. “O livro possibilitará que os agentes públicos promovam estratégias de geração de trabalho e renda e desenvolvimento econômico local sem impactos e destruições ao meio ambiente”, explica Nogueira.

A ideia é ensinar as comunidades a enfrentar e resolver seus problemas, amenizando as mudanças climáticas, sempre em sintonia com governos e mercados. E mostrar como é possível superar a falta de água e evitar desperdícios, através de empreendimentos que já deram certo em outras regiões. O levantamento dos obstáculos a ser enfrentados por cada comunidade, de seus pontos positivos e das ações que melhor se adequariam àquela situação são os primeiros passos sugeridos para a superação.

O livro dá exemplos de tecnologias bem-sucedidas pelo País. Um deles, o Programa Água Brasil - resultado da parceria entre Banco do Brasil, Fundação BB, WWF Brasil e Agência Nacional das Águas (ANA) - é um dos destaques. Ele pretende recuperar catorze bacias hidrográficas e realizar ações de mobilização social em cinco cidades: Rio Branco, Pirenópolis, Natal, Belo Horizonte e Caixas do Sul, com foco na coleta seletiva e na reciclagem de resíduos sólidos.

Iniciativas em cidades como Sete Lagoas, em Minas Gerais, também deram certo. Lá, onde é cerrado e existem duas estações bem definidas - uma de cheias e outra de secas - a agricultura e a pecuária eram prejudicadas  durante os períodos de poucas chuvas.

Os fazendeiros acabavam dependentes do suprimento de caminhão-pipa e burrinho de carga e geralmente eram explorados com preços exorbitantes.  A solução encontrada foi a construção de "barraginhas", pequenos açudes que servem como uma espécie de depósito de água. Elas proporcionam melhores condições para as famílias do meio rural e ainda ajudam a reduzir danos ambientais, principalmente a erosão e o assoreamento, já que forçam a recarga das reservas subterrâneas pela elevação de lençóis freáticos e armazenam água de boa qualidade na esponja porosa do solo, revitalizando mananciais e rios.

Em Quixeramobim, no sertão cearense, a perda da produção agrícola e pecuária era uma rotina provocada pelas secas periódicas. A falta de alimentos e de água potável provocava fome, doenças e êxodo rural. Para reverter o quadro, o trado, uma ferramenta para furar buracos no solo, foi redesenhado: eles apresentavam apenas formato helicoidal, mas ganharam designs específicos para cada tipo de terra. Dessa maneira, tornou-se possível o manuseio de aluviões próximos a rios e riachos temporários do semiárido, que ficam mais de oito meses secos, possibilitando a reconstrução de sistemas de abastecimento de água com ligações residenciais nas comunidades rurais.

E não é só nas regiões do interior do País que existem obstáculos para o abastecimento de água. De acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo, na região metropolitana de São  Paulo o acesso à água de qualidade está a cada dia mais caro e complicado. Hoje em dia quase metade do fornecimento tem de ser "importada" de bacias vizinhas e a distância eleva o preço do produto.

Gestores da Sabesp concordam com a tese de que a partir de 2020 o sistema Cantareira, responsável por sustentar a atual demanda já não será o bastante. A solução que a empresa pretende adotar é buscar água no Vale do Ribeira, a 80 quilômetros da capital. Um projeto  que deve custar cerca deum bilhão de reais.