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Titica de galinha: o combustível improvável

por Reinaldo Canto publicado 13/04/2016 17h43, última modificação 14/04/2016 12h01
Excrementos de galinhas e também de suínos e bovinos se transformam em biometano para gerar energia em Itaipu
Reprodução
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Hoje, já são 43 carros a disposição da Itaipu movidos à titica de galinha

Segundo o Dicionário Aurélio, a expressão titica de galinha tem provável origem africana, mas não se sabe ao certo. Já o seu significado é de fácil compreensão: simplesmente excrementos de aves. Por outro lado, a cultura popular denominou a expressão “titica de galinha na cabeça” para exprimir rejeição a alguma bobagem dita por alguém.

Quem já não ouviu ou disse: O que é isso? Por acaso você tem titica de galinha na cabeça? Pois é! Portanto, a tal da titica sempre esteve associada ao que não presta em sua forma literal ou mesmo simbólica.

Mas além de porcaria ou bobagem essa titica é, há muitos anos, motivo de grande preocupação para as pequenas e médias propriedades rurais localizadas no Oeste do Paraná, estado que é o maior produtor de carne de frango do país (quase 33%) e importante produtor de ovos do Brasil (em torno de 6%).

Nessa região, uma pequena parcela dessa verdadeira montanha de excrementos tradicionalmente se transforma em biofertilizante a ser usado nas lavouras. O restante sempre foi descartado e na maioria das vezes, da pior maneira possível, ou seja, despejado em rios e no solo com seu nada benéfico potencial contaminante.

Mas de lixo e problema ambiental, uma solução tem tomado forma graças a um projeto desenvolvido pela Cibiogás - Centro Internacional de Energias Renováveis–Biogás que é uma instituição científica, tecnológica e de inovação localizada no Parque Tecnológico Itaipu e tem como a sua principal financiadora, a gigante Itaipu Binacional (leia-se Usina Hidrelétrica de Itaipu).

Excrementos de galinhas e também de suínos e bovinos se transformam em biogás para gerar energia e o que é mais interessante também acaba virando biometano, um combustível para veículos. Hoje, já são 43 carros a disposição da Itaipu movidos à titica de galinha.

A utilização desse material para os veículos ainda se dá numa quantidade ínfima em relação ao que é produzido diariamente nas granjas paranaenses, mas pode começar a mudar a realidade da região.

O projeto já deixou a sua fase experimental e pretende ser ampliado em breve, mas no momento apenas uma granja de médio porte é a responsável por manter os carros em movimento.

Rodrigo Regis de Almeida Galvão, diretor-presidente da Cibiogás conta que o projeto começou há 10 anos e foi se aprimorando ao longo do tempo, “vamos aprendendo com os erros e melhorando o rendimento e agora estamos na fase de consolidação e acreditamos no potencial, pois é uma tecnologia barata com um bom custo-benefício para o produtor”.

Granja Haacke

Nada mais natural do que percorrer os 120 kms que separam a gigante Itaipu e a Granja Haacke localizada no município de Santa Helena num carro movido a coco de galinha. Na verdade para chegar até lá fizemos o caminho de volta percorrido pelos cilindros que desde 2013, são transportados para a estação de abastecimento localizada no interior da Usina de Itaipu.

O desempenho do Siena Tetrafuel (carro movido a quatro tipos de combustíveis diferentes) é o mesmo de um veículo abastecido com os combustíveis tradicionais e, claro, sem qualquer odor.

O orgulhoso proprietário da granja, Nilson Haacke possui no local 84 mil galinhas poedeiras (as que produzem ovos) e 750 bovinos de corte. Além de fornecer o biocombustível, mantêm a energia estável e ainda produz o biofertilizante que vai servir de adubo natural para plantações e pastos. Quando perguntado se o investimento de R$ 700 mil (R$ 400 mil desse total veio da Cibiogás) valeu a pena, seo Nilson demonstra irritação, “não pode fazer só pra recuperar dinheiro, afinal que planeta nós vamos deixar para os nossos filhos?”.

O certo é que mais do que o retorno financeiro é fundamental para o negócio garantir o fornecimento de energia estável, coisa que nem sempre a Copel, concessionária de energia do Paraná consegue fazer. Há três anos a granja perdeu 1.400 galinhas por uma queda de energia. Sem a refrigeração necessária, as penosas não resistiram ao calor e morreram.

Mas o orgulho mesmo é transformar essa titica em combustível. “O projeto do biometano me fez conhecido até no Paraguai”, ele conta sorridente, pois vende também no país vizinho, os agora famosos, ovos Santa Helena.

Outro problema resolvido com o tratamento dos excrementos foi o do o mau cheiro, situação comum a todas as granjas da região e uma vergonha para os proprietários na hora de receber visitas. 

Fornecimento energético estável, solução para o odor ruim e até a transformação dos excrementos em lucro não seriam razões suficientes para convencer os vizinhos de seo Haacke a aderir ao projeto? Parece que, por enquanto, a resposta é não! “Os outros só querem ganhar dinheiro fácil, mas a gente precisa antes ter saúde e qualidade de vida”, responde o granjeiro. 

Ele acredita que é importante aumentar a escala e convencer os vizinhos a fazer o mesmo, “quanto mais gente fizer, mais viável vai ficar”. Hoje os 100 m³ produzidos por dia de efluente líquido na Granja Haacke vão para um biodigestor, que realiza a digestão anaeróbia dos resíduos, que resultam em mil m³ de biogás.

O combustível é todo preparado na propriedade rural passando por filtros para ficar apto a se transformar em biometano. Depois esse gás é comprimido em cilindros e transportado para abastecimento dos veículos.

A granja também tem um sistema de stand by que garante a constância no fornecimento da energia elétrica, principalmente para garantir a refrigeração das aves, evitando quedas repentinas e a consequente morte dos animais.

Mesmo com a difícil tarefa de convencer outros proprietários a entrar para o projeto, o que anima os técnicos da Cibiogás para continuar a investir na ideia é o também constante aumento no custo da energia. Marcelo Alves de Sousa, gerente de relações institucionais da Cibiogás diz que os valores da energia passaram em um ano e meio de R$ 0,19 para R$ 0,36.

“Energia significa 30% de todo o custo de uma propriedade rural no Oeste paranaense”, enfatiza Marcelo. Seja para aquecimento, iluminação e transporte, Rodrigo Galvão acredita que chegou a hora de “estimular a criação de uma cadeia de fornecedores nacionais” com potencial capaz de criar um círculo virtuoso que englobe tecnologia e sustentabilidade na mesma equação.

O futuro irá dizer se o projeto poderá se expandir no Paraná e quem sabe para outras regiões do país. Afinal, algo que o agronegócio brasileiro precisa é de boas ideias, tecnologia e muita energia. No oeste do Paraná as galináceas estão prontas para ajudar nessa tarefa.

* O jornalista viajou a convite da Itaipu Binacional.