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Clima

Tempo quente no polo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/09/2012 09h59, última modificação 06/06/2015 18h28
O derretimento acelerado do Ártico se une às evidências cada vez mais impressionantes e convincentes do aquecimento global
GELO

Groenlândia. Fim de geleiras milenares, um dos sintomas de um processo que matará milhões

Apesar da onda de calor e secas que devastam colheitas em várias partes do mundo, apesar do furacão que mais uma vez atrapalha os republicanos e suas convenções, aquecimento global e a mudança climática estão praticamente ausentes do debate político. Há os que citam a Bíblia (como o senador republicano James Inhofe, do Oklahoma) para argumentar que o clima é assunto divino no qual os homens não devem interferir e mesmo políticos mais racionais, como Barack Obama, David Cameron e Angela Merkel, evitam o assunto, impopular com eleitores mais preocupados com emprego e consumo, razão pela qual ignoraram a Rio+20.

No campo científico,
os alarmes não param, porém, de disparar. O último foi o anúncio pela Nasa de que a camada de gelo do Oceano Ártico, em 26 de agosto, derreteu para 4,1 milhões de quilômetros quadrados, o menor tamanho já visto desde que ela começou a ser monitorada por satélite e tinha 7 milhões, em 1979, e deve encolher mais ainda, pois o auge sazonal do derretimento é em meados de setembro. O menor tamanho antes medido tinha sido de 4,17 milhões, em 18 de setembro de 2007. Medições de submarinos mostram que o gelo também perdeu ao menos 40% da espessura e 70% do volume desde os anos 1980. O Ártico pode ficar totalmente livre de gelo no verão a partir de 2050. O processo se realimenta e agrava o aquecimento regional e global, pois enquanto o gelo reflete 80% da luz do sol, o mar escuro reflete só 10%, permitindo mais absorção da luz e ainda mais degelo.

Os poucos especialistas competentes e honestos que ainda duvidavam se dobram às evidências, entre eles o físico Richard Muller, da Universidade da Califórnia. Cético em relação a estudos anteriores, ele criou em 2011 o projeto Berkeley Earth Surface Temperature (Best), financiado em parte pelo magnata do carvão Charles Koch, ambos esperando desmentir o aquecimento global. Depois de reunir 1,6 bilhão de medições de temperatura de 44 mil localidades diferentes desde 1753, sua equipe teve de concluir que estavam errados: a Terra de fato se aqueceu 1,5ºC nos últimos 250 anos, 0,9ºC desde 1960 e a atividade solar nada tem a ver com isso. Essencialmente, todo o efeito se deve à emissão de gases de efeito estufa pela atividade humana, como admitiu o próprio Muller em artigo no New York Times de 28 de julho, no qual previu também que o planeta se aqueceria mais 1,5ºC em apenas 50 anos – ou mesmo 20, se a China continuar sua tendência de crescimento acelerado com uso intensivo de carvão. A maioria dos especialistas considera crítico um aumento de 2ºC, a partir do qual as mudanças climáticas seriam irreversíveis, com o derretimento do permafrost (solo congelado) do Hemisfério Norte e Antártida e a liberação de gases de efeito estufa ali retidos.

Entretanto, o lobby dos combustíveis fósseis não se impressiona com evidências. Gerald Koch, juntamente com empresas como Microsoft, GM, Diageo, Pfizer, Comcast, Philip Morris e R. J. Reynolds, continua a financiar o Heartland Institute, que também defende causas “libertárias” contra as restrições ao fumo, sistemas de saúde pública e gastos governamentais, mas tem como prioridade desacreditar a climatologia ante a mídia e a opinião pública, pagando publicidade, blogueiros, pessoas influentes, especialistas e projetos que estejam dispostos a contestar o aquecimento global. Discurso similar, com menos repercussão, foi ouvido no Brasil nas semanas anteriores à Rio+20, tendo como principal veículo o Jornal da Band.

Mensagens internas do Heartland vazadas em fevereiro mostraram que isso incluiu um projeto de 100 mil dólares para criar material “anticlima”, como dizem seus próprios memorandos, para escolas fundamentais nos Estados Unidos e 300 mil para uma equipe de peritos encarregados de achar falhas nos estudos da ONU. E também um painel instalado em Illinois, EUA, no qual fotos de Bin Laden, Unabomber, Charles Manson e Fidel Castro apareciam junto à frase: “Eu ainda acredito no aquecimento global. E você?”, enquanto um comunicado no seu site afirmava que “os defensores mais proeminentes do aquecimento global não são cientistas. São assassinos, tiranos e loucos”. Sob pressão de alguns dos patrocinadores do instituto, assustados com a repercussão negativa, o anúncio foi retirado depois de 24 horas.

Quem serão os verdadeiros assassinos? Segundo o relatório Monitor da Vulnerabilidade Climática 2010, da ONU, não há muita dúvida: o aquecimento global já mata 350 mil por ano e o número deve dobrar até 2020 e triplicar até 2030. As perdas financeiras são hoje de 130 bilhões anuais, devendo chegar a 200 bilhões em 2020 e 275 bilhões em 2030. E as maiores perdas em vidas, hábitat e recursos serão dos países que menos contribuíram para a catástrofe: serão 5 milhões de mortos até 2020, 80% dos quais crianças do sul da Ásia e África Subsaariana.

Também há os que lucrarão com isso. As empresas de carvão, petróleo, energia, mineração e transportes são beneficiárias óbvias e imediatas, não só pelo afastamento de possíveis restrições às suas atividades, como pelo acesso mais fácil às reservas minerais e energéticas do Ártico (32% das reservas de petróleo inexploradas do mundo) e pelo transporte marítimo desimpedido pelo Polo Norte, como lembrou reportagem recente de The Economist.

Embora se pudesse pensar que a crise internacional reduzisse o ritmo do aquecimento global, seu efeito sobre o problema é mais negativo do que positivo, ao jogar a questão para o fim das agendas nacionais e internacionais e adiar ou cancelar investimentos em energias alternativas sem retorno imediato. Isso no momento em que a China não só se torna o maior emissor de gases-estufa por queima de combustíveis fósseis (29% do total mundial, seguida por EUA 16%, União Europeia 11%, Índia 6%, Rússia 5% e Japão 4%), como sua emissão per capita (7,2 toneladas/ano) se equipara à da muito mais desenvolvida Europa (7,5), embora ainda esteja bem aquém dos EUA (17,3), o que indica que um uso mais racional e eficiente da energia poderia reduzir substancialmente essas emissões com tecnologias disponíveis.