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Sacolas Plásticas: O fim de um tormento ambiental

por Dal Marcondes publicado 25/01/2012 16h05, última modificação 06/06/2015 18h56
As sacolas plásticas são apenas um elo de uma cadeia mais complexa do consumo e do descarte. Para seu fim dar certo será preciso repensar toda a cadeia de coleta de resíduos domésticos
SACOLAS

Foto: AE

Nas cidades brasileiras a população tem uma relação mágica com o lixo e com seus resíduos em geral. Basta colocar o lixo em um saquinho plástico e levar a té a calçada. De lá, como em um passe de mágica, ele desaparece e a maior parte das pessoas não tem nenhuma ideia de para onde vai. O mesmo acontece com o esgoto, a água que desce pelos ralos de que desaparece quando apertamos um botão de descarga. Para onde vai? Poucos se interessam em saber. Prefeitura da Capital e governo do estado de São Paulo decidiram acabar com as sacolas plásticas no comércio a partir de 25 de janeiro, o que certamente terá impactos positivos no meio ambiente. Afinal, muitas dessas sacolas acabam descartadas de forma irresponsável, entupindo redes pluviais nas cidades e provocando enchentes, ou sendo carregadas para rios e oceanos onde colocam e risco a via aquática. Golfinhos e tartarugas  são grandes vítimas pois morrem após engolir essas sacolas.

Certamente não haverá ambientalista que se preze que seja a favor das sacolas plásticas. Porém esse pode se mais um tijolinho de boa intenção a pavimentar o caminho do inferno. As sacolas plásticas são apenas um elo na cadeia de produção, consumo e descarte. Certamente as pessoas podem dar um jeito para levar suas compras para casa sem sacolas plásticas. O problema não reside nesse elo. A questão é em relação ao descarte de resíduos. A eliminação das sacolas plásticas no comércio terá como impacto a falta de recipientes para descarte de lixo, principalmente orgânicos, nas casas de famílias de baixa renda. Elas terão de comprar sacos de lixo e, possivelmente, muitas delas não terão recursos para isso. O risco é temos lixo descartado de forma indevida em terrenos baldios, córregos e áreas públicas das cidades por pessoas irresponsáveis ou sem alternativas.

Para que uma medida de proibição total do usos de sacolas plásticas pelo comércio possa efetivamente funcionar e ser benéfica ao meio ambiente de forma abrangente é preciso repensar todo o sistema de coleta de lixo nas cidades. Mudar a relação cultural que o cidadão tem com seus resíduos, fazendo com que cada um se responsabilize de forma ativa com o descarte adequado dos resíduos. Na maior parte das cidades europeias cada um carrega seu lixo até contêineres colocados em pontos estratégicos e lá depositam de acordo com o tipo de lixo. Plásticos, papel, vidros, metais e orgânicos. Em alguns países, como a Alemanha, há dezenas contêineres diferentes, para materiais ainda mais específicos. Cada cidadão sai de casa com seu lixo e caminha até um ponto de coleta, onde cumpre seu papel na cadeia da coleta seletiva.

No Brasil, mesmo com a regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a última leia assinada pelo então presidente Lula no final de 2010, ainda se patina na implantação de sistema de coleta seletiva que distingue apenas “lixo seco” e “lixo molhado”. Uma parte ínfima da coleta deixa de misturar tudo e entupir aterros sanitários. Mudar uma parte sensível da cadeia de coleta sem oferecer uma contrapartida ou um subsídio para a compra de sacos de lixo pode gerar ainda mais problemas do que solução.

O Brasil e o mundo devem trabalhar para reduzir a utilização de plásticos que são rapidamente descartados, principalmente porque esse é um produto de extensa vida na natureza e seu descarte irresponsável vem criando inúmeros problemas. Já foram identificadas “ilhas” de resíduos em meio aos oceanos Pacífico e Atlântico, além de praticamente não haver mais áreas naturais no mundo que não contenham resíduos de plásticos. São pedaços de garrafas PET, brinquedos e produtos de consumo em geral e que não deveriam ter seu descarte na natureza. Mas estão lá.

A proibição do uso de sacolas plásticas deveria ser parte de um plano mais amplo e ambicioso de eliminação de resíduos de longa duração da natureza, mas, também, de um projeto de reestruturação da coleta e descarte de resíduos. É preciso que a sociedade se comprometa com um ambiente livre de resíduos plásticos e que cada cidadão tenha um papel ativo na separação e descarte de seu lixo.

Uma pesquisa realizada em 2010 pelo Ministério do Meio Ambiente, da série “O que o Brasileiro Pensa sobre Sustentabilidade”, coordenada por Samyra Crespo, secretária de Ação Institucional e Cidadania Ambiental do MMA, mostra que 60% das pessoas apoiam a eliminação das sacolas plásticas do comércio, enquanto 23% são contra e 17% são indiferentes, na média nacional. A mesma pesquisa, no entanto, mostra que as pessoas estão ainda muito desinformada sobre meio ambiente ou ecologia, com apenas 26% de respostas no item “Bem Informados”, quando a perguta foi: Você se considera informado sobre meio ambiente ou ecologia?”.

Essa pesquisa, condizida de forma profissional pela consultoria Synovate, mostrou a necessidade de se ampliar os canais de informação sobre questões ambiental, pois além de pouca informação específica sobre conhecimentos ambientais, a maior parte das pessoas admitiu que não conhece organizações que protegem o meio ambiente, seja no âmbito do poder público ou de organizações não governamentais. 71% dos entrevistados responderam “Nenhum” ao ser perguntado “Qual órgão de defesa do meio ambienta conhece?”.  Um resumo dos resultados dessa pesquisa, feito pela Envolverde e com a publicação apoiada pelo Walmart Brasil pode ser lido em:

http://www.walmartbrasil.com.br/sustentabilidade/_pdf/relatorios/sustentabilidade_aqui_e_agora.pdf

É importante que o debate sobre o fim das sacolinhas plásticas não se limite ao seu banimento do comércio, mas que seja o início de uma mudança cultural e estrutural na relação da sociedade e do poder público com os resíduos de uma maneira geral.

 

*Matéria originalmente publicada em Envolverde