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Relatórios de Insustentabilidade

por Dal Marcondes publicado 27/03/2012 14h09, última modificação 06/06/2015 18h27
Muitas empresas utilizam textos sobre sustentabilidade como peças de marketing, que pouco contribuem para a sociedade ter uma visão transparente da atuação corporativa

Dal Marcondes, da Envolverde*

Nos últimos anos tornou-se mais corriqueiro as empresas publicarem a cada ano seus relatórios de sustentabilidade, uma ação que deveria contribuir para dar transparência não apenas às ações que uma organização faz em direção a uma gestão mais sustentável, mas também para expor os dilemas que enfrenta, seja por conta do setor em que atua, seja por conta do tipo de matérias primas que utiliza ou produtos que desenvolve, além de tornar explícita sua política de relacionamento com os diversos públicos que impacta com suas operações, principalmente comunidades. Os relatórios deveriam ser instrumentos de gestão para as empresas, uma forma de se conhecerem melhor através do esforço em esmiuçar suas atividades de acordo com padrões internacionalmente reconhecidos, como o Global Reporting Iniciative (GRI). No entanto, em boa parte das vezes, o que acontece não é isso. Os relatórios são preparados por equipes mais preocupadas em preservar a imagem da empresa e valorizar iniciativas que considerem adequadas do que para oferecer uma visão de conjunto sobre as políticas de sustentabilidade corporativa. Mesmo assim, vale registrar, ruim com eles, pior sem eles.

Foi nessa linha que a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBOVESPA) lançou para as empresas listadas em seus pregões o desafio de universalizar a prática de produzir relatórios de sustentabilidade. A normativa da bolsa é explícita: “as empresas devem apresentar seus relatórios ou explicar porque não fazem esse relato”. Uma orientação que certamente causa alvoroço entre os profissionais das empresas, que agora terão de pensar em como agir e dar materialidade a essa orientação, e para as empresas e profissionais que hoje vivem de produzir relatórios para empresas, um mercado certamente em expansão. Estima-se que no Brasil cerca de 200 empresas façam seus relatórios dentro dos padrões GRI, mas a estatística é falha, porque não há uma regra que obrigue a empresa a registrar seu relatório junto ao escritório do GRI. Um dado relevante é que as empresas listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA, este ano quase 40 empresas participam, e todas publicam relatórios.

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Mas uma pergunta recorrente é: “para que serve um relatório de sustentabilidade?” Os atuais, para muito pouco. Uma enquete informal feita com profissionais que atuam na área de sustentabilidade e especialistas no tema em todo o Brasil mostra que poucos são aqueles que abrem e dedicam tempo à leitura do relatório. A maioria apenas olha de relance e guarda até que o exemplar do ano seguinte lhe chegue às mãos. Mesmo analistas de investimentos e potenciais investidores pouca atenção dão aos relatórios, porque sabem que, em sua maior parte, são peças de marketing e não oferecem uma visão credível dos processos de gestão das empresas. Ou, marketing e informações relevantes estão de tal forma entrelaçados que não é possível ao leitor fazer uma seleção das informações efetivamente relevantes daquelas que simplesmente tentam mostrar uma foto mais palatável da empresa.

Em tempos de mudanças, onde antigos paradigmas econômicos são cotidianamente contestados, conhecer as empresas de fato, o que pensam e como enfrentam seus dilemas torna-se fundamental para a criação de um mercado mais equilibrado e eticamente sustentável. Os relatos empresariais deveriam oferecer aos leitores uma visão da complexidade da gestão e de seus dilemas, o que pensam os executivos e como é a percepção, de fato, que os seus principais públicos (stakeholders) tem da corporação. De fato, o ideal é que as empresas se ofereçam para uma reportagem, algo mais próximo do jornalismo do que do marketing, pois assim poderiam dar credibilidade às informações publicadas.

A própria empresa e seus executivos e colaboradores deveriam ser tratados, também, como stakeholders, uma vez que o quadro geral apenas se forma com a junção de todos os componentes desse quebra-cabeças que é uma organização complexa. Nos próximos anos um número enorme de novas empresas irá incorporar em suas práticas o relatório anual de sustentabilidade. É importante que essas peças de informação tenham alguma utilidade para a própria empresa e para a sociedade e comunidades onde suas unidades estão inseridas. Outro ponto fundamental é que o relatório de sustentabilidade ganhe a mesma relevância dos balanços, onde os números das empresas são esmiuçados por investidores e nunca pode haver qualquer tipo de maquiagem.

Ser sustentável tem uma relação direta com a redução de riscos para a empresa, com a manutenção de sua “licença para operar”, não pelas leis, mas pela própria sociedade, e com a perenidade dos negócios. Relatar, mais do que a montagem de um cenário idealizado, deve significar cada vez mais buscar, através da transparência, compartilhar dilemas com a sociedade e com outros atores do mercado. Também, é claro, mostrar suas boas práticas.