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Petroquímica

Por ora, sem substituto

por Manuel Lume — publicado 05/05/2011 10h01, última modificação 06/05/2011 12h36
Medicamentos e materiais especiais para a indústria de informática, aeronáutica e de alta precisão não dispensam o petróleo. Por Manuel Lume. Foto: Luciano Andrade/AE
Por ora, sem substituto

Medicamentos e materiais especiais para a indústria de informática, aeronáutica e de alta precisão não dispensam o petróleo. Por Manuel Lume. Foto: Luciano Andrade/AE

No início, o uso em larga escala do petróleo teve um impacto ambiental positivo. Quando o querosene se mostrou mais eficiente e barato para a iluminação, a matança de baleias, que forneciam o óleo dos lampiões e lamparinas, caiu drasticamente. Desde então, descobriram-se mil e uma utilidades para o petróleo. Um site dos EUA chegou a listar quase 2 mil produtos de uso cotidiano que não poderiam ser feitos ou teriam custos proibitivos sem o petróleo. Entre eles a aspirina, o capacete de motociclista e o paraquedas.

Portanto, a era do Petróleo está ainda muito longe de ser completamente substituída por aquilo que se convencionou chamar de Era do Verde. Assim pensam os estudiosos ouvidos por Carta Verde, entre eles Carlos Alberto Lopes, diretor da GasEnergy. Por 32 anos, Lopes foi funcionário graduado da Petroquisa, a subsidiária da Petrobras da área de petroquímica. “Será impossível viver sem petróleo ainda por muito tempo”, diz.

Em vez de acabar, a cada dia se descobrem novos usos para as fibras sintéticas oriundas do petróleo, novos usos para seus múltiplos elementos químicos, que têm as moléculas quebradas pelo calor para dar origem a outro elemento, outro produto, milhares deles. A maioria desses usos é nobre, pois eles aumentam o nosso conforto, o nosso bem estar, a nossa saúde.

Na medicina, por exemplo. O Instituto de Química e de Bioquímica da USP, por exemplo, pesquisa o uso de polímeros (sintéticos) do petróleo no desenvolvimento de remédios contra o câncer e antibióticos de quinta- -geração, de altíssimo valor agregado. “Com isso, consigo direcionar melhor a terapêutica para a célula e diminuir a dose do medicamento, com uma liberação melhor, para atingir somente a célula afetada”, explica Marco Antonio Stephano, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Suely Galdino, do Laboratório de Planejamento e Síntese de Fármacos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tem outro exemplo: o famoso analgésico AAS (ácido acetilsalicílico), o primeiro remédio produzido em escala industrial (pela Bayer, na Alemanha), contém o Fenol, elemento químico que sai do Cumeno, derivado do Benzeno, que saiu da Nafta, que saiu do óleo original, o petróleo.

Há muitos outros exemplos da importância do petróleo na sociedade moderna. Basta olhar para dentro de casa, nos objetos, nas paredes, no assoalho, no teto, nos fios, nas tintas, nos canos, nos detergentes, nos armários, eletrodomésticos, nos objetos mais simples, como um saco plástico (que, no entanto, acondiciona alimentos, sangue de doadores e isola o lixo) ou nas coisas bonitas, como um daqueles vestidos dos desfiles de alta moda. Tudo tem PET, PVC, poliéster, polipropileno, polietileno, náilon, solvente, resina.

Popularmente, todos esses nomes se resumem ao plástico. Os plásticos, como os demais produtos extraídos dos hidrocarbonetos (átomos de hidrogênio e carbono), são constituídos de longas cadeias de moléculas chamadas polímeros, que, por sua vez, são formadas por moléculas menores, chamadas monômeros. Os polímeros podem ser naturais ou sintéticos. Os naturais, como algodão, madeira, cabelo e látex, entre outros, são comuns em plantas e animais. Os sintéticos, como os plásticos, são obtidos por meio de reações químicas. O tamanho e a estrutura da molécula do polímero determinam as propriedades do plástico.

Os polímeros são conhecidos do homem há pelo menos 3 mil anos. Em 1000 a.C., os chineses aprenderam a extrair um verniz de uma árvore que serviu de revestimento impermeável e durável, criando o lustra-móveis que -conhecemos até hoje. Nos 3.011 anos desde a descoberta chinesa, o homem moldou a madeira, a borracha, o aço, o vidro e descobriu a possibilidade de substituir tudo pelo plástico, com inúmeras vantagens. Hoje em dia, se produzem plásticos tão duros quanto o aço e tão transparentes quanto o vidro, e com grande economia de energia de produção na comparação. “O farol dos automóveis hoje é feito de policarbonato, não de vidro”, conta o pesquisador Luiz Pontes, doutor em engenharia química, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de Salvador (Unifacs), que trabalhou 13 anos no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia.

A indústria petroquímica, em consequência, perpassa quase todas as demais indústrias com seus insumos: de fertilizantes, plásticos, fibras químicas, tintas, corantes, elastômeros, adesivos, solventes, tensoativos, gases industriais, detergentes, inseticidas, vacinas animais (que são pesquisadas para aplicar também em homens), explosivos, na construção civil, nas telecomunicações, médico-hospitalar, distribuição de energia e outras centenas de segmentos. Os chamados plásticos geossintéticos são usados até para drenagem, controle de erosão e reforço do solo de aterros sanitários e em tanques industriais.

No Brasil, o fim da Era do Petróleo parece ter ficado mais longe depois da sua descoberta em áreas até 7 mil metros abaixo da linha da água do oceano, que multiplicou muitas vezes as reservas brasileiras. Somente as reservas provadas da Petrobras chegaram a 16 bilhões de barris de petróleo equivalente (somado ao gás) em 2010, segundo dados da própria estatal.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a produção de químicos (não há dados isolados da petroquímica) foi responsável por 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2010. São quase 5 mil empresas com mais de 300 mil empregados. Essa indústria faturou 228,8 bilhões de reais em 2010.

O grande problema da indústria petroquímica é ter como insumo básico um bem finito, o petróleo, fato que a torna insustentável no tempo. Além disso, é altamente poluente. Apesar dos avanços e das pesquisas, considerando apenas os plásticos, somente 15% do total produzido é reciclado. O resto vai para o lixo. Pratos, canetas, bijuterias, espuma, embalagens a vácuo e fraldas descartáveis, entre outros, ainda não são reciclados.

Segundo os especialistas ouvidos por Carta Verde, a reciclagem do plástico exige cerca de 10% da energia utilizada no processo primário. Uma série de produtos pode ser fabricada com resíduos plásticos, como cabides, pentes, garrafas, frascos, baldes, cerdas de escovas de dente, vassouras e painéis para a construção civil, entre outros.

Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, existem equipamentos para a utilização de plásticos como fonte energética, com controles de emissão seguros, sem riscos para a saúde e o meio ambiente. A energia contida em 1 quilo de plástico equivale à de 1 quilo de óleo combustível. Além da economia e da recuperação de energia, com a reciclagem ocorre ainda uma redução de 70% a 90% da massa do material, restando apenas um resíduo inerte esterilizado. “Tudo deveria ser reciclado, mas falta dinheiro, falta cultura”, diz o pesquisador Luiz Pontes.