Você está aqui: Página Inicial / Sustentabilidade / Por ora, a melhor opção

sustentabilidade

Infraestrutura

Por ora, a melhor opção

por Celso Dobes Bacarji — publicado 21/07/2010 18h02, última modificação 22/07/2010 11h41
O novo plano decenal de energia volta a valorizar as hidrelétricas

O novo plano decenal de energia volta a valorizar as hidrelétricas

O governo federal planeja investimentos em hidrelétricas nos próximos anos, o que deverá ajudar a manter a matriz brasileira mais limpa do que a média mundial. Sob o ponto de vista da mobilidade, os planos apontam, porém, para um grande reforço na exploração e oferta de petróleo. Nos próximos dez anos, quase metade (48%) da energia produzida no Brasil virá de fontes renováveis. O Plano Decenal de Energia (PDE-2019), mostra que a geração de eletricidade será majoritariamente (69,85%) oriunda de hidrelétricas, com uma expansão tímida de outras fontes renováveis como biomassa e eólica, ou de térmicas a gás natural, consideradas mais limpas do que a geração a carvão ou a óleo combustível.

Na área do petróleo, com os investimentos no pré-sal, o PDE-2019 estima um excedente da produção brasileira de mais de 2 milhões de barris diários, o que significa dizer que, nos próximos dez anos, seremos movidos basicamente por dois combustíveis que ainda não se misturam muito bem: água e petróleo.

Para o professor Adilson de Oliveira, titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não há nenhuma surpresa: “O governo está dizendo claramente que vai investir em hidrelétricas para a geração de eletricidade, e na parte de combustíveis vai investir em petróleo”. Traduzidos em reais, os planos do governo representarão investimentos de quase 1 trilhão de reais no setor energético, dos quais 70,6% na área de petróleo e gás natural, 22,5% em energia elétrica e pouco menos de 7% em biocombustíveis líquidos (etanol e biodiesel).

O planejamento de investimentos no setor “está adequado aos desafios de um crescimento anual médio no PIB de 5,1% e uma expansão do consumo energético da ordem de 5,9%”, diz Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia, responsável pelo plano decenal. “Acho que está de bom tamanho. É preciso lembrar que estamos falando de uma projeção de longo prazo.” Na última década, o crescimento médio anual foi de 3,5%.

“É um desafio muito grande manter um crescimento de 5,1% durante os próximos dez anos”, diz Tolmasquim. A soma dos investimentos em geração de energia limpa (hidrelétrica, biomassa, eólica e biocombustíveis líquidos), que chega próximo de 30% do total, representa o equilíbrio possível, segundo o presidente da EPE. “Se o Brasil conseguir manter um crescimento elevado nesse perío-do sem sujar a sua matriz energética, será uma grande vitória.”

O raciocínio é endossado em parte pelo professor José Goldemberg, físico e especialista em energia do Instituto de Eletrotécnica- e Energia (IEE) da USP. Goldemberg vê avanço no fato de a matriz não piorar, principalmente por conta do salto de crescimento previsto na exploração de petróleo. Mas, segundo ele, “o PDE não é um plano de energia, mas um plano de hidrelétricas”.
As hidrelétricas, como carro-chefe da geração de energia elétrica, preparam uma arrancada nos próximos dez anos capaz de aumentar em 40% a sua capacidade instalada, de 83 GW para 117 gigawatts em 2019, aproximadamente. Efetivamente, o governo espera viabilizar a geração de 13 gigawatts somente de fontes hidrelétricas, baseado no grande potencial dos rios da Região Norte. A participação do Norte na capacidade instalada deve passar de 10%, em 2010, para 24%, no fim da década. As regiões Sudeste e Centro-Oeste, hoje responsáveis por 60% do total, verão sua participação cair para 46%.

Com a ampliação da geração de eletricidade, outro gargalo aparece no sistema, o da transmissão. Para fazer chegar aos consumidores a energia nova, o País vai precisar reforçar as linhas de transmissão em 38,5%, de 95,5 mil quilômetros para 132,3 mil até 2019. As principais metas são atingir a integração total da Região Norte ao sistema de transmissão, aumentar as interligações regionais e viabilizar a inclusão das usinas de biomassa e eólicas.

O plano aponta a importância estratégica da integração das usinas de bioeletricidade e das pequenas centrais hidrelétricas (PCH), especialmente na Região Sudeste. Isso ajudará na estabilização da oferta de energia ao longo do ano, principalmente por existir uma coincidência do período de safra da biomassa (colheita da cana e de outros biocombustíveis) com os de seca na região. Da mesma forma, o sucesso da geração de energia eólica, de acordo com o PDE, dependerá da capacidade de integração dessas usinas à rede de transmissão.

Por enquanto, o Brasil parece apostar apenas na ampliação da oferta de energia nova, sem grandes planos para o aumento da eficiência no uso. O tema não consta do plano decenal. Não há grandes esperanças de evolução dentro do período planejado. Os cálculos do estudo sobre conservação de energia concluem que os ganhos resultantes das ações de combate às perdas no período partirão de uma base quase nula, de 0,6%, em 2010, para 1,8%, em 2014, e 3,2%, em 2019. Em outras palavras, em dez anos, a energia elétrica conservada estimada corresponderá à economia de construção de uma usina hidrelétrica de, aproximadamente, 4,8 mil megawatts, ou de 3,8 mil megas no caso de termoelétricas. Muito pouco, segundo Goldemberg. “Na Europa, a eficiência energética reduziu o consumo em 50% nos últimos 30 anos. É preciso investir mais nessa área, na manutenção das redes de transmissão, mas principalmente em programas de racionalização dos usos finais da energia, que já vem sendo feita correntemente em outros países.”

As fontes renováveis, grandes estrelas na geração de energia limpa, como eólica, solar, marés, biomassa e mesmo as PCHs, ocupam- um papel secundário nos planos energéticos do governo, quando visto pela ótica dos números. As renováveis apresentam uma perspectiva de crescimento de sua participação de 3,2 pontos porcentuais no decênio, ou 10 mil megawatts de capacidade de geração. Do total, o destaque fica por conta das fontes eólicas, responsáveis por 6.041 megas da nova energia verde a ser gerada.

Uma das projeções mais polêmicas do PDE-2019 diz respeito à perda de participação das termoelétricas, de 19% para 15%, especialmente pela redução do uso de óleo diesel em 33%. Na visão de Oliveira, da UFRJ, os investimentos em termoe-létricas, principalmente se movidas a gás natural, deveriam crescer. Para ele, as térmicas funcionam de forma prática e econômica como reservatórios adicionais aos das hidrelétricas, suprindo a energia que essas deixam de produzir nos períodos de seca.

No papel, os planos do governo apontam para uma total ausência de novos projetos de geração de energia de fontes térmicas a partir de 2013. No quesito dos investimentos, o PDE prevê a módica quantia de 3 bilhões de reais para projetos já autorizados. As usinas nucleares manterão sua participação de 2%, porcentual assegurado com a entrada em operação de Angra 3, prevista para 2015.

A produção de biocombustíveis líquidos no Brasil na próxima década continuará a ter como protagonista o etanol. Os estudos mostram que o País “se manterá na liderança de vendas do mercado internacional, sem que isso represente risco ao abastecimento interno”. A estimativa é de que esses investimentos cheguem a 58 bilhões de reais, o que levará a produção total a crescer quase 90%, de 33,7 bilhões de litros para 64 bilhões em 2019. As projeções de consumo interno evoluem de 29 bilhões de litros neste ano para 52,4 bilhões no fim da década. A produção excedente, de cerca de 20%, o Brasil espera vender no mercado internacional.

De acordo com Carlos Alvares Campos Neto, coordenador de estudos de infraestrutura do Ipea, instituto ligado ao Ministério do Planejamento, não será uma tarefa fácil. “A grande dificuldade do Brasil tem sido a de transformar o etanol em uma commodity, porque ele é hoje praticamente o único produtor com capacidade de oferta no mercado internacional e nenhum país quer entrar em um processo novo para ficar dependente de um único fornecedor.” Além disso, observa o pesquisador, “há uma dificuldade enorme para convencer outros países que têm potencial de produção de etanol, a partir da cana, a entrar nesse mercado, tornando o produto competitivo internacionalmente”.

Além da elevação da capacidade industrial, de um forte incremento de produtividade decorrente da aplicação de novas tecnologias, o plano decenal prevê avanços na sustentabilidade da produção do etanol: redução da captação de água, recuperação de fertilizantes (potássio, fósforo e nitrogênio), diminuição do uso dos insumos, menor manutenção dos equipamentos, controle de impactos ambientais dos efluentes e redução do uso de energia, itens considerados essenciais para a aceitação do etanol brasileiro no mercado internacional.

Não menos importante para o futuro do mercado do etanol é a polêmica sobre a ocupação de terras agricultáveis com o plantio de cana, em detrimento da produção de alimentos. O governo rebate com a alegação de que a situação do Brasil é confortável pela grande extensão de terras disponível, estimada atualmente em 91 milhões de hectares, ante uma previsão de ocupação de 11,9 milhões, para esse fim, até 2019. Além disso, o PDE calcula que os ganhos de produtividade serão responsáveis pela “poupança” de 2,1 milhões de hectares. Com isso, segundo o do-cumento, não haverá necessidade de entrar em áreas de biomas e com cobertura nativa nem de ocupar diretamente terras destinadas à produção de gêneros alimentícios. Outro gargalo para o crescimento da produção dos biocombustíveis é a capacidade atual de armazenamento e transporte. O estudo do governo prevê investimentos de 7 bilhões de reais na melhora da infraestrutura do setor e prevê a expansão da rede de dutos, novos píers e navios.

O biodiesel não tem o mesmo destaque. O plano conclui que, apesar do “sucesso de sua implementação”, não se vislumbra a utilização do biodiesel além do porcentual de mistura obrigatório no óleo diesel, atualmente em 5%. A razão? Seu custo em relação ao diesel, o grande concorrente.

Para o professor Goldemberg, o programa do biodiesel teria dado certo se tivesse permanecido no seu projeto original, voltado para a agricultura familiar e o cooperativismo, principalmente no Nordeste. “As pessoas sabem fazer biodiesel de produtos que não são propícios para grandes culturas, tanto que a maior parte do biodiesel brasileiro é feito de soja, o que não faz sentido, porque está competindo com a produção de alimentos.”

Com mais de 70% de todo o investimento previsto para o setor energético na década, petróleo e gás natural serão a base da geração de energia necessária para suportar o desenvolvimento do País. Somente na área de exploração e produção, serão 506 bilhões de reais, que farão o volume produzido no Brasil saltar de 2,2 milhões para 5,1 bilhões de barris dia, gerando um excedente de 2,1 bilhões de barris diários.

O gás natural poderá alcançar uma produção de 230,8 milhões de metros cúbicos diários, ante um volume atual de 80 milhões, crescimento de 300%. Segundo Goldemberg, o gás natural é um dos pontos do PDE que ele não entendeu. “O gás é um excelente combustível, inclusive do ponto de vista da poluição local, porque não emite particulados nem enxofre. Então seria uma ótima opção.” Em sua opinião, o governo erra na política de preços do gás natural, que reduz sua competitividade.

Para absorver esse crescimento da produção na área do petróleo, os estudos consideram como premissa básica a inserção do Brasil no mercado internacional, o que exigirá “a construção de novas instalações de refino, com alta capacidade de conversão e processos mais sofisticados, focando a produção de derivados médios, seja para consumo interno, seja para exportação”. A capacidade de produção nacional de derivados deverá ter crescimento de 65%, o que exigirá investimentos de 77,5 bilhões de dólares.

No balanço final das metas de sustentabilidade exigidas pelo combate às mudanças climáticas, apesar do discurso recheado de “critérios socioambientais”, os estudos mostram que o setor energético não está entre os que contribuirão para que o Brasil atinja até 2020 os 36,1% a 38,9% de redução de emissões assumidos em Copenhague. Pelo plano, o setor de energia registrará um crescimento de suas emissões da ordem de 65%. Os autores do planejamento argumentam que esse volume de emissões ainda é pequeno, equivalente a cerca de metade das de 2005, provocadas pelas mudanças de uso do solo (desmatamento), ou cerca de 31% do total de emissões daquele ano.

Ainda assim, conclui o plano decenal, o Brasil se colocará, daqui a dez anos, entre os países com menor índice de emissões, permanecendo na mesma posição que ocupa hoje (18º lugar). Pouco deve mudar também em termos per capita ou na relação com o crescimento do PIB. Atualmente, enquanto um cidadão norte-americano emite cerca de 20,5 toneladas de CO2/ano, um brasileiro coloca na atmosfera, por ano, 2 toneladas. Em termos de intensidade da economia, diz o estudo, para produzir 1 milhão de reais de PIB, excluindo as emissões devido ao desmatamento, a China emite 1.052 toneladas de CO2, os Estados Unidos emitem 473 toneladas e o Brasil, 220 toneladas.