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Meio Ambiente

Pecuária de baixo carbono. É possível?

por Redação Carta Capital — publicado 12/12/2012 06h30, última modificação 12/12/2012 06h34
No Portal da Amazônia, pecuaristas tentam assimilar "boas práticas" em áreas abertas e mapear a emissão de gases
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Alta Floresta, porta de entrada da Amazônia, tenta introduzir boas práticas na pecuária local

 

Por Thiago Foresti

O município de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, é um símbolo do avanço da agropecuária no Portal da Amazônia. Desde quando foi criada, há 36 anos, a cidade já perdeu mais de 50% dos seus 9 mil km² de floresta nativa. Em 2008 figurou em primeiro lugar na lista suja do desmatamento e só conseguiu sair neste ano, após um longo esforço do poder público, ONGs e da população.

 

Os primeiros moradores de Alta Floresta, oriundos de projetos de ocupação patrocinados pela ditadura, tinham a missão de abrir áreas e ocupar o solo. Sem qualquer acompanhamento técnico ou planejamento, a atividade pecuária se desenvolveu através de uma série de práticas que se propagaram durante anos e resultaram, em 2010, em um desastre ambiental para a população: com mais de 4,5 mil km² de floresta no chão e quatro mil nascentes degradadas no município, os moradores tiveram de conviver com a falta de água durante um longo período de estiagem.

O retrato era trágico: gado com acesso direto aos cursos d’água e nascentes; falta de rotação do pasto; descuido com os dejetos; desmate de APP e reservas legais. “O que existe aqui é muito da cultura do vizinho. Se meu vizinho está fazendo, então eu vou fazer também”, diz Vando Telles, do Instituto Centro de Vida (ICV). Telles é coordenador de um projeto patrocinado pelo Fundo Vale que visa disseminar a cultura do BPA - Manual de Boas Práticas Agropecuárias da Embrapa. “A ideia é levar informação para os pecuaristas e mostrar que é possível trabalhar com uma pecuária de baixo carbono na Amazônia”, diz.

A pecuária é uma atividade de grande emissão, principalmente por conta das grandes áreas necessárias para o plantio de pasto. Milhares de hectares de florestas são postos abaixo na Amazônia para a criação de poucas cabeças de gado. Também entra na conta as emissões do próprio rebanho que emite gás metano através do arroto.

Segundo alguns cientistas, o metano é um gás capaz de reter 20 vezes mais calor que o gás carbônico. Como se já não bastasse o impacto natural da atividade, as práticas atuais dos produtores na região intensificam ainda mais o processo de emissão, pois esgotam o solo, não cuidam dos cursos d'água e não se preocupam manter árvores em pé. "No projetos vamos mostrar que o produtor pode cultivar algumas espécies de árvores comerciais no próprio pasto para ajudar no sequestro de carbono, fazer sombra aos bois e ainda gerar renda", diz Telles.

Além de formação e consultoria, o projeto pretende medir o impacto da pecuária integrada através de um estudo de sequestro de carbono. “Acreditamos que, ao implementar os princípios do BPA, a gente consiga mostrar que é possível equalizar as emissões dessa atividade e, quem sabe, até enquadrar projetos da pecuária dentro dos MDL [Mecanismos de Desenvolvimento Limpo]”, acredita Telles.

São 11 pontos principais do manual de BPA da Embrapa que serão explorados no projeto: gestão da propriedade rural; função social do imóvel rural; responsabilidade social; gestão ambiental; instalações rurais; manejo pré-abate e bons tratos na produção animal; formação e manejo de pastagens; suplementação alimentar; identificação animal; controle sanitário e manejo produtivo. Com a adoção desses princípios os pecuaristas ganham uma produção mais rentável e competitiva e asseguram a oferta de alimentos seguros, oriundos de sistemas de produção sustentáveis. “Queremos mostrar que eles precisam ter o controle da produção. Ao contrário dos produtores de grãos que controlam todas as variáveis, os pecuaristas trabalham com estimativa. Estimam o quanto tem de pasto, de bois, de área. Nossa consultoria vai ensinar a colocar tudo em tabelas e calcular, inclusive, a variável ambiental”, diz Telles.

A pesquisa terá como laboratório a região do Portal da Amazônia. A simples disseminação dessas boas práticas tem dado resultados. Vilson Wittemann é pecuarista e trabalha com produção de leite há 18 anos em Alta Floresta. Ele é um dos beneficiados pelo projeto e já recebe consultoria técnica e financeira. “Conseguimos dobrar a nossa produção após a visita de um consultor que disse que a gente podia tirar leite também à tarde, não só de manhã”, diz o pecuarista.

São práticas simples, que visam melhorar a vida do produtor e incentivar cuidados com o meio ambiente. A perspectiva de aumento de renda e redução de custos é o que mais chama a atenção nos produtores. “A gente fazia as coisas sem saber. Agora, com essa consultoria, a gente tem uma visão mais completa do pasto. Um dos problemas que tinha aqui é a morte súbita, mas agora a gente entende a importância do manejo de pastagem, por exemplo, pra evitar que isso ocorra”, diz Wittemann. A morte súbita é o esgotamento do solo por conta do mau uso. É uma praga fulminante, acredita-se ser transmitida pela pata dos bois e que inviabiliza qualquer produção agrícola ou reflorestamento no solo. Segundo o Instituto Mato-grossense de Agropecuária (Imea), a Morte Súbita de pastagem atinge cerca de 2,3 milhões de hectares no estado. É o estagio mais grave de degradação e um grande drama nessa região do portal da Amazônia.

Avanço da Fronteira Agrícola. A pecuária é uma atividade com impacto ambiental menor do que a agricultura extensiva, principalmente por não usar agrotóxicos e fertilizantes nitrogenados, que emitem alta quantidade de CO2 e contaminam o lençol freático. “Se conseguirmos manter uma pecuária integrada e sustentável no portal da Amazônia vamos contribuir para frear o avanço da agricultura mecanizada nas áreas já abertas. A ideia é fazer de Alta Floresta um modelo de desenvolvimento sustentável no Portal da Amazônia e frear a expansão da fronteira agrícola”, diz

“Aumentando a capacidade de produção, em unidades animal por hectare, você diminui a necessidade de abrir novas áreas para aumentar a produtividade”, diz Bruno Simionato, engenheiro florestal e analista de carbono do ICV. Ele diz que o projeto de pecuária integrada ajuda na manutenção da cobertura vegetal, na proteção do solo, no aporte de biomassa, na manutenção da umidade e ciclagem de nutrientes, tudo porque oferece uma visão integrada do pasto.”E com os estudos que serão feitos saberemos quantas unidades de animal por hectare são possíveis sem que haja desbalanço no sistema, ou seja, sem que haja mais emissões do que absorção de CO2”, explica.

Plano ABC. O Brasil tem uma meta ousada para agropecuária de baixo carbono no compromisso assumido durante a COP15 em Copenhague. O chamado plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) que vai de 2010 até 2020 prevê a recuperação de 15 milhões de hectares de área de pastagem degradada, quatro milhões de hectares de integração Lavoura-Pecuária e 4,4 milhões de m³ de tratamento de dejetos animais em todo território nacional.

O programa ABC tem uma linha de crédito voltada para produtores rurais e cooperativas. As taxas são de apenas 5% ao ano e cada produtor pode financiar até 1 milhão de reais com carência de até 5 anos. Mas as altas exigências ambientais fazem com que o fundo seja pouco acessado.

Na safra 2011\2012 foram utilizados menos de 50% dos R$ 3,15 bilhões disponibilizados. Um dos eixos do projeto da pecuária integrada no Portal é enquadrar as propriedade dentro das exigências legais e auxiliar os produtores a acessar esses recursos de financiamento. Em junho desse ano o governo anunciou que vai disponibilizar 3,4 bilhões para a safra 2012/2013. Ao todo, o governo brasileiro espera disponibilizar 197 bilhões durante a vigência do ABC.