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Crônica

Patrocine um catador de lixo

por Redação Carta Capital — publicado 09/05/2012 10h24, última modificação 10/05/2012 15h56
Dois projeto querem trazer renda, visibilidade, saúde e spots publicitários para recolhedores de materiais recicláveis de São Paulo
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O projeto 'Pimp My Carroça' quer transformar as carroças dos catadores em obras de arte ambulantes. Foto: Flickr /Blog do Milton Jung (Creative Commons)

Por Thiago Foresti

“Se eu tivesse apenas um único dólar, investiria em propaganda”. Quando Henry Ford disse essa célebre frase na década de 1920, no auge do sucesso do seu modelo de produção, ele talvez não soubesse, mas estava inaugurando uma nova era na comunicação coorporativa. Hoje, quase um século depois, a propaganda tem orçamento garantido e obrigatório em qualquer organização e só em 2010 movimentou 12,9 bilhões de dólares na economia brasileira.

Os gráficos das agências de publicidade costumam exibir duas curvas de crescimento: investimento em propaganda e aumento do consumo. Mas esquecem de uma terceira curva que também vem a reboque: o aumento da produção de lixo.

São Paulo, cidade que há três anos tem crescimento de investimento publicitário acima de 10%, produz hoje 17 mil toneladas de lixo por dia. Pouco mais de 1% disso é reciclado. Diante desses números, duas iniciativas surgiram para agregar valor a uma atividade antiga, geradora de cifras bem mais modestas do que as publicitárias, mas que é responsável por 90% de toda reciclagem da cidade de São Paulo.

Em São Bernardo do Campo (SP), um grupo de empreendedores está transformando os carrinhos de catadores de materiais recicláveis em spots publicitários. A ideia é simples: colocar anúncios e aproveitar a visibilidade natural que esses trabalhadores têm no trânsito. “Os anunciantes terão sua marca institucional exposta pela cidade e vinculada a um programa socioambiental”, diz Elaine Santos, idealizadora do projeto ECO.

A meta do programa é combinar a renda da venda de materiais com a verba publicitária da veiculação dos anúncios e, dessa forma, melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores. Os carrinhos funcionam com eletricidade e tem tecnologia adaptada para as necessidades deles. “Além de mais conforto e segurança, o projeto ainda prevê uma série de benefícios trabalhistas como cursos de capacitação, seguro contra acidentes, convênio médico, programas de lazer e cultura, uniformização e Equipamentos de Proteção Individual (EPI)”, diz Elaine.

Sai o veículo tradicional feito de madeira e entra um carrinho elétrico, mais moderno, funcional e com os spots publicitários. Pelas contas do projeto, cada veículo reverterá 600 reais mensais de verba publicitária para a cooperativa. Esse valor será dividido para complementar a renda do trabalhador externo, que faz a coleta nas ruas.

Outro projeto é o Pimp My Carroça, do grafiteiro Mundano, que já levantou 34 mil reais no Catarse, site de financiamento coletivo. O projeto vai transformar as carroças dos catadores em obras de arte. “Meu sonho é que o projeto seja um marco histórico para questionar e mudar o descaso da sociedade em relação aos catadores e o destino toneladas de materiais recicláveis que desperdiçamos diariamente”, diz Mundano. Para isso ele vai transformar as carroças em obras de arte com frases de efeito criadas pelos próprios catadores. Uma já pintada e que foi usada no vídeo do projeto é: “Um catador faz mais que um ministro do Meio Ambiente”.

Além de dar visibilidade para os carroceiros das ruas da cidade, Mundano diz que eles terão uma série de benefícios como consulta com clínico geral, oftalmologista, especialista em dependência química. “O combustível dessa galera é água e alimento, eles são o próprio motor. Temos que refletir sobre isso”.

Daniela Teixeira trabalha na produção PMC e conta que esse é o primeiro projeto submetido ao Catarse: “Somos uma pequena equipe na organização do evento, mas estamos contando com muitos voluntários para a realização do Pimp my Carroça, que terá seu lançamento durante a Virada Sustentável, em São Paulo (nos dias 2 e 3 de junho). Percebemos que seria possível realizar uma primeira campanha de sucesso, que possibilitasse uma primeira edição coletiva, e ainda, nos estimulasse a pensar num modelo itinerante para o projeto”.

  Mesmo ainda em fase inicial, os dois projetos já impactam a vida dos catadores. Maria da Penha Aparecida da Cunha Guimarães, conhecida como Maúa, tem 53 anos é viúva e trabalha como catadora há 25 anos. Ela é diretora executiva da Coopcent, cooperativa que fará parte do programa ECO. Para ela o novo carrinho elétrico e a uniformização dos trabalhadores tem trazido dignidade para a categoria. “O projeto mostra tanto para a população quanto para os empresários a nossa organização e seriedade. Muda até a maneira como nos enxergamos”, diz Maúa.

As duas iniciativas refletem uma pesquisa do IBGE que aponta que a quantidade de lixo no Brasil superou em 40% o aumento populacional nos anos 90. O principal fator foi justamente o marketing de embalagens, que tornaram mais abundantes e descartáveis os produtos usados diariamente. “Dentro desse cenário, nada mais justo do que deslocar a verba de marketing das empresas para valorizar aquele profissional que tanto faz pela nossa limpeza urbana”, finaliza Elaine.