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Partituras renovadas

por Ana Ferraz publicado 28/03/2013 11h56, última modificação 28/03/2013 11h56
Uma nova geração de compositores clássicos se firma e o público de concertos se amplia, mas o provincianismo e a falta de divulgação atrapalham
música

Além da catalogação. Camerata Aberta, a serviço dos novos talentos, a favor dos matizes de sensações. Foto: Heloisa Bortz

Na plateia da Sala São Paulo para assistir à Bachiana Filarmônica Sesi tocar O Diálogo entre Vênus, Azrael e Ogum, o compositor Leonardo Martinelli ficou surpreso quando um espectador o abordou para saber se era de fato ele o autor. “Eu não aprecio música clássica contemporânea, mas gostei da sua peça”, comentou aquele que lhe pareceu um ouvinte de primeira viagem. O rápido diálogo reforçou o que o músico há muito concluiu: o público de concertos se tornou econômica e socialmente mais variado e tem interesse pelo novo. É uma questão de oportunidade para quem consome e ousadia de quem oferece. “Hoje temos algo diversificado que não cabe mais no rótulo antigo de música clássica de casaca. Existe uma classe média e uma camada pobre da população que procuram frequentar as salas de concerto, embora com impeditivos grandes, pois muitas vezes o sujeito tem de pegar dois ônibus e dois metrôs e atravessar a pé a Cracolândia. É um mito achar que quem lota as apresentações de música clássica é a elite. Esta gasta dinheiro no rodeio de Barretos.”

Martinelli, paulistano de 34 anos, tem 27 peças escritas para formações variadas. “Artisticamente sou compositor, mas sobrevivo como professor. Somos excluídos de um ciclo econômico por uma arbitrariedade estética”, diz. “Ocorre com a música de concerto o oposto do que se dá em qualquer outro segmento artístico. As portas estão fechadas aos criadores jovens. No exterior, ao contrário, há a inclusão sistemática de peças contemporâneas e um programa regular de encomendas.” A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), argumenta, encomendou seis peças para toda a temporada 2013. “Na prática, o repertório de música nova é de 0,05%. O que é isso, cota?”, provoca.

Segundo ele, só depois de o compositor ter um pedido de peça do exterior as portas se abrem. “É provincianismo. A Venezuela encomenda obras para o brasileiro Marlos Nobre. O Teatro Colón, em Buenos Aires, é uma casa de ópera que em 2012 apresentou duas séries de música clássica contemporânea, uma voltada exclusivamente a compositores argentinos.” O exemplo do país vizinho expõe a fragilidade nacional. “É uma questão só de falta de vontade ou também de falta de informação dos caciques que comandam a cena musical?”

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