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The Observer

Países ricos fogem de metas contra mudança climática

por Por John Vidal, em Varsóvia — publicado 19/11/2013 06h03, última modificação 19/11/2013 06h29
O tufão Haiyan aumenta o temor sobre a ameaça de aquecimento global, enquanto as Filipinas lideram o ataque na véspera de negociações
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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A baixa umidade do ar na Avenida das Nações, no Distrito Federal

Após o desastre nas Filipinas, os países em desenvolvimento lançaram um intenso ataque contra os países mais ricos do mundo, que deixam de cumprir seus compromissos relativos à mudança climática.

Com mais de 3.600 pessoas supostamente mortas pelo tufão Haiyan, gestos de várias grandes economias para recuar nas promessas sobre as emissões de carbono colocaram os países mais pobres e os mais ricos do mundo em rota de colisão, na véspera de negociações de alto nível em uma cúpula de potências mundiais.

Yeb Sano, o principal negociador das Filipinas na cúpula sobre mudança climática da ONU que se realizou no último fim de semana em Varsóvia, capital a Polônia, falou sobre uma grande ruptura nas relações, obscurecendo as negociações cruciais que deverão conduzir a um acordo em 2015 para reduzir as emissões globais.

O diplomata, no sexto dia de uma greve de fome em solidariedade pelos atingidos pelo Haiyan, que incluem sua própria família, disse ao Observer: "Estamos muito preocupados. As declarações públicas de alguns países sobre redução das metas não ajudam a aumentar a confiança. Devemos reconhecer a nova realidade climática e criar um novo sistema que nos ajude a administrar os riscos e lidar com as perdas a que não podemos nos adaptar".

Munjurul Hannan Khan, representando os 47 países menos ricos do mundo, disse: "Eles se comportam de maneira irresponsável e inaceitável. O modo como estão falando com os países mais vulneráveis não é aceitável. Hoje os pobres sofrem a mudança climática. Mas amanhã serão os países ricos. Começa conosco, mas continua com eles".

Decisões recentes dos governos da Austrália, Japão e Canadá para reduzir seus esforços relativos à mudança climática causaram pânico entre os países mais afetados pelo aquecimento global. Essas nações menos endinheiradas temem que outros os sigam ao reorganizar suas prioridades durante a crise econômica.

Nos últimos dias, o Japão anunciou que vai recuar na promessa de reduzir seus cortes de emissões, de 25% para 3,8% até 2020, já que teve de fechar seus reatores nucleares depois do terremoto e tsunami de 2011.

A Austrália, que enviou um ministro para as negociações do fim de semana, indicou que poderá reduzir suas metas e está rejeitando suas próprias leis do carbono depois da eleição de um governo conservador.

O Canadá se retirou do acordo de Kyoto, que obrigava as principais economias industriais a reduzir suas emissões anuais de CO2 para um nível inferior ao de 1990.

O principal negociador da China nas reuniões em Varsóvia, Su Wei, disse: "Não tenho palavras para descrever minha decepção com a decisão do Japão". Ele criticou a Europa por demonstrar falta de ambição para cortar ainda mais as emissões. E acrescentou: "Eles falam em reduzir gradualmente a ambição, mas na verdade teriam de aumentar essa ambição a partir do zero".

Enquanto prosseguiam as negociações em mais alto nível da cúpula, nesta segunda-feira 18, que tiveram a participação de representantes de 195 países, incluindo o secretário da Energia britânico, Ed Davey, o mundo em desenvolvimento continua a buscar a confirmação de países como a Grã-Bretanha de que não seguirão o rumo do Japão e outros. Os comentários do primeiro-ministro David Cameron neste fim de semana, de acordo com os quais ele apoiou os cortes nas emissões de carbono e sugeriu que há crescentes evidências de uma ligação entre a mudança climática causada pelo homem e desastres como o tufão Haiyan, seriam usados inevitavelmente para pressionar outros a oferecerem garantias semelhantes.

O mundo em desenvolvimento também quer que os países ocidentais ricos se comprometam a estabelecer um esquema de indenizações para futuros eventos climáticos extremos, enquanto o impacto do aquecimento global é sentido de modo cada vez mais intenso. Eles querem sinais firmes de que os países ricos pretendem encontrar pelo menos 100 bilhões de dólares por ano até 2020 para ajudá-los a adaptar-se a mudanças radicais.

A China e 132 países a integrar o bloco G77 de países em desenvolvimento manifestaram decepção pelo fato de os países ricos se recusarem a discutir a proposta de cientistas de calcular as emissões desde o início da Revolução Industrial.

O embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho, do Brasil, que inicialmente propôs as negociações, disse: "Ficamos chocados, muito surpresos com sua rejeição e negação. É surpreendente. Precisamos entender por que eles o rejeitaram.

"Os países em desenvolvimento estão fazendo muito mais para reduzir suas emissões do que os países [ricos] do Anexo 1."

Membros da Comissão de Emergências de Desastres, que coordena os esforços de ajuda britânicos, também advertiram os líderes de que o desastre oferece uma percepção do futuro caso não se tome uma ação urgente.

As agências de ajuda como Christian Aid, Cafod, Care International, Oxfam e Tearfund disseram que os ministros reunidos na capital polonesa devem agir com urgência porque a mudança climática provavelmente tornará essas situações extremas mais comuns no futuro, colocando em risco outros milhões de vidas.