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The Observer

Os negadores da mudança climática venceram

por The Observer — publicado 26/03/2014 12h00
Cientistas continuam nos advertindo sobre o aquecimento global, mas a maioria das pessoas tem um interesse velado em não querer pensar nisso
David Mcnew / Getty Images North America / AFP
Petróleo fracking

Campo de exploração de petróleo em Lost Hills, na Califórnia, nos EUA. O combustível fóssil continua sendo a base da economia

Por Nick Cohen

A Associação Americana para o Progresso da Ciência chegou tão perto quanto poderia uma instituição tão respeitável de dar o grito de alarme, na semana passada. "Como cientistas, não é nossa função dizer às pessoas o que elas devem fazer", disse, iniciando uma dessas sentenças que sempre levam um "mas". "No entanto, a mudança climática causada pelo ser humano está acontecendo, e corremos o risco de mudanças abruptas, imprevisíveis e potencialmente irreversíveis."

Em outras palavras, os cientistas mais renomados do país, nas instituições educacionais mais preeminentes do mundo, estavam tentando despertar a humanidade de sua complacência. Por que suas advertências não recebiam destaque nos noticiários?

Em certo sentido, o apelo da associação não era novo. A Sociedade Real, o Instituto Real, a Nasa, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, a Pesquisa Geológica dos EUA, o IPCC e os órgãos nacionais de ciência de cerca de 30 outros países disseram que a mudança climática causada pelo homem estava em marcha. Uma pesquisa de 2 mil trabalhos sobre o aquecimento global publicados nos últimos 20 anos é reveladora: 97%  do entrevistados diziam que ele é causado pelo ser humano.

Quando os despreparados falam do "debate científico sobre o aquecimento global", ou não sabem ou não aceitam que não há um debate científico. A sugestão feita pela primeira vez por Eugene F. Stoermer de que o planeta passou do Holoceno, com início no final da última era do gelo, para o Antropoceno, causado pelo homem, em que vivemos hoje, está ganhando apoio em todo lugar. O aquecimento global causado pelo homem e a extinção de espécies em massa causada pelo homem definem esta época quente, sangrenta e (esperamos) breve na história do mundo.

Se o aquecimento global não é novo, é urgente: um tema que nunca deveria estar distante de nossos pensamentos. Mas apenas 24 horas depois da advertência da Associação Americana, o orçamento do governo britânico confirmou que não queria mais combatê-lo.

O premier britânico David Cameron certa vez prometeu que se você votasse azul se tornaria verde. Hoje nomeia Owen Paterson, um homem que não apenas é ignorante em ciência ambiental como se orgulha de sua ignorância, como ministro do Meio Ambiente. Por sua vez, o ministro britânico da Fazenda, George Osborne, certa vez prometeu que seu Departamento do Tesouro estaria "no centro desta luta histórica contra a mudança climática". Hoje dá bilhões em deduções fiscais para a indústria de petróleo e gás, corta as verbas para fazendas eólicas em terra e tira do Banco de Investimento Verde a capacidade de pedir e fazer empréstimos.

Tudo isso está muito longe de dizer que os negadores do aquecimento global venceram. E por favor, não quero e-mails de adultos infantiloides ainda a molhar a cama balbuciando não serem "negadores do aquecimento global" porque "negador" nos faz soar como "negadores do Holocausto", e isso quer dizer que estão sendo comparando com nazistas. A evidência do aquecimento global causado pelo homem é tão definitiva quanto a evidência de Auschwitz. Nenhuma outra palavra servirá.

E, embora seja tentador culpar os políticos covardes, o abuso vem com muita facilidade. Fica a pergunta: o que os transformou em covardes? Bilionários de direita nos Estados Unidos e companhias de petróleo gastaram fortunas para bloquear as ações contra a mudança climática. Uma parte da resposta, portanto, pode ser que políticos conservadores em Londres, Washington e Canberra estão fazendo o jogo de seus mais ricos apoiadores. Há verdade na hipótese de propina. Em meu pequeno mundo do jornalismo, vi redatores de direita perceberem o potencial financeiro da negação e transformar-se de homens e mulheres racionais em sérios teóricos da conspiração.

Mas a direita também está acompanhando uma erupção de populismo ignorante. Assim como há verdes de esquerda que nunca aceitarão que os alimentos GM são seguros, um elemento sempre crescente da direita torna-se mais militante conforme a temperatura aumenta.

Clive Hamilton, o autor australiano de Requiem for a Species [Réquiem para uma espécie], defendeu a teoria essencial alguns anos atrás de que a negação da mudança climática não era mais apenas uma campanha de lobby empresarial. Os adversários da ciência diriam o que disseram sem propina. O movimento estava dominado pela "dissonância cognitiva", condição definida pela primeira vez por Leon Festinger e seus colegas nos anos 1950. Eles examinaram um culto que se havia ligado a uma dona de casa de Chicago chamada Dorothy Martin. Ela convenceu seus seguidores a abandonar seus empregos e vender suas posses porque uma grande inundação cobriria a Terra em 21 de dezembro de 1954. Eles seriam os únicos sobreviventes. Alienígenas baixariam em um disco voador e salvariam os poucos escolhidos.

Quando 21 de dezembro chegou e passou, e a Terra continuou como era, o grupo não se desesperou. Martin anunciou que os alienígenas lhe haviam enviado uma mensagem dizendo que tinham decidido no último minuto não inundar o planeta, afinal. Seus seguidores acreditaram. Eles tinham abandonado tanto por sua fé que acreditariam em qualquer coisa em vez de admitir o óbvio: seus sacrifícios tinham sido em vão.

Os negadores da mudança climática são igualmente dedicados. Sua negação se encaixa perfeitamente com seu apoio à economia de livre mercado, a oposição à intervenção do Estado e o ódio a todos os liberais que bebem latte e mastigam quinoa, com suas maneiras arrogantes e carros híbridos vistosos. Pior: eles pretendem dizer a homens e mulheres honestos como devem viver. Se eles admitissem que estavam errados sobre a mudança climática, poderiam ter de admitir que estavam errados sobre tudo o mais, e toda a sua identidade política se desfaria.

Os políticos sabem muito bem que além das corporações e dos fanáticos fiéis em seus movimentos de base está a grande massa de pessoas cuja influência mais importa. Elas aceitam em certo nível que a mudança climática causada pelo homem está acontecendo, mas não querem pensar sobre isso.

Não sou melhor que elas. Eu poderia escrever sobre o meio ambiente todas as semanas. Nenhum editor me impediria. Mas a tarefa parece tão inútil quanto discutir contra o envelhecimento. O que quer que você faça ou diga, ele vai acontecer. Como se pode convencer países a aceitar enormes reduções em seus padrões de vida para limitar (não parar) o aumento das temperaturas? Como se pode convencer a raça humana a colocar o futuro à frente do presente?

Os historiadores da ciência norte-americanos Naomi Oreskes e Eril M. Conway citaram um pesquisador que foi indagado nos anos 1970 sobre o que os líderes de seu país disseram quando ele lhes advertiu que os níveis de CO2 duplicariam em 50 anos. "Eles me disseram para voltar dali a 49 anos", ele retrucou.

A maioria das pessoas pensa como os políticos de Washington da era Carter. E a maioria das pessoas também não tem o direito de zombar de Dorothy Martin e seu culto. Não podemos admitir, mas, como eles, precisamos de um milagre para nos salvar da inundação.

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