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ONGs para salvar ONGs

por Redação Carta Capital — publicado 21/01/2013 14h03, última modificação 21/01/2013 14h03
Como as redes de organizações podem aumentar a eficiência dos projetos. Por Thiago Foresti

 

Por Thiago Foresti

Há quase tantas ONGs na Amazônia quanto permite a biodiversidade da maior floresta do planeta. Segundo o ­IBGE, são 27,9 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos em atuação no bioma. Juntas, empregam por volta de 110 mil funcionários. Tanta gente empenhada em proteger a floresta, seus animais e habitantes leva a supor que os brasileiros e o restante dos habitantes da Terra podem dormir sossegados. Não é bem assim.

O charme de apoiar ações socioambientais na Amazônia levou centenas de organismos financeiros e fundos internacionais a despejar bilhões de dólares na região nas últimas décadas, mas boa parte desses recursos tem sido aplicada sem planejamento. As consequências? Desperdício de dinheiro em projetos de resultados duvidosos e informações perdidas no espaço.

A oferta de dólares (e euros) alimenta a proliferação de organizações. Há desde pequenas estruturas, mal-ajambradas e sem projetos consistentes, até as chamadas King ONGs, com ­capacidade de geração de caixa de fazer inveja a grandes empresas comerciais. De um lado ou de outro, são poucas, porém, aquelas que conseguem realmente disseminar suas ações e modificar o ambiente no qual atuam. “Podemos contar nos dedos quem produz informação qualificada e consegue difundir isso”, diz Marcia Soares, gestora de informação do Fundo Vale.

Para complicar, assuntos polêmicos dividem a opinião de quem trabalha com o tema ambiental na Amazônia. O principal deles é o REDD+, um mecanismo que pretende levar nações desenvolvidas a pagar pela manutenção da floresta em pé e que coloca, de um lado, ONGs que são contra a “mercantilização da natureza” e, do outro, as que acreditam numa “solução econômica” para a floresta.

“É um debate acalorado, com visões bem diferenciadas, mas serão as experiências concretas de REDD+ que vão fazer a discussão e as compreensões avançarem. O consenso num tema como esse nem é desejável”, diz Sergio Guimarães, coordenador da Articulación Regional da Amazonía (ARA), rede de 51 organizações formada pelos países sul-americanos alcançados pela floresta.

A ARA é um exemplo de rede formada para unir o trabalho de entidades. Criada com o apoio da Fundação Avina em 2007, a rede promove ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e à conservação da floresta. Em 2011, lançou um relatório inédito sobre a Amazônia e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, um conjunto de oito metas traçadas pelas Nações Unidas. Guimarães acredita que só o trabalho em rede pode suprir o desafio ideológico e financeiro. “É fundamental se unir em redes, graças à dimensão do problema. Não existe organização ou instituição que, sozinha, possa fazer frente aos desafios amazônicos. Daí a necessidade de se trabalhar em conjunto.”

Outra rede mais antiga, de atuação exclusiva no Brasil, é o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), formado em 1992. A organização conta com oito coletivos regionais nos nove estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal. São mais de 600 entidades representativas de agricultores, seringueiros, indígenas, quilombolas, pescadores, ribeirinhos e entidades ambientalistas. Com experiência de mais de 20 anos de trabalho na Amazônia, Rubens Gomes, presidente do GTA, diz que o bioma apresenta algumas peculiaridades que devem ser levadas em conta na hora de se analisar o cenário em que as ONGs estão inseridas.

 

 

“As distâncias são muito grandes. Não é como nos grandes centros onde você pega um carro e dirige até uma localidade. Tem lugar aqui que você só chega de barco. Avião é muito puxado, sai mais caro ir de um estado para outro na Amazônia do que pegar um avião de São Paulo à Europa. Isso sem falar nas telecomunicações, celular, telefone e internet, que são um luxo na maioria das comunidades onde atuamos.”

Se, por um lado, as organizações sem fins lucrativos têm dificuldade de se organizar em conjunto para minimizar os impactos ambientais na floresta, as organizações com fins lucrativos avançam cada vez mais sobre a floresta. Enquanto os financiamentos para ONGs estão na casa de dezenas de milhões, obras de infraestrutura superam facilmente centenas de bilhões. Só as 15 hidrelétricas previstas para a região têm um custo estimado de 190 bilhões de reais.

Por enquanto, a nova tendência de trabalho em rede ainda precisa de tempo para se consolidar. Sozinhas, muitas das ONGs têm dificuldades para conseguir financiamento e tocar projetos de grande porte. Prova disso é o problema crônico de liberação de verbas do Fundo Amazônia.

“Nosso gráfico aponta que existe grande concentração no centro, com pontas soltas e informação de difícil circulação”, diz Luiz Bouabci, coordenador do projeto Cartografia da Pan-Amazônia, estudo que mapeou o potencial de sinergia e colaboração no bioma. “Queríamos entender como essas organizações interagem e colaboram dentro desse ambiente e notamos que existe certa cooperação entre elas, mas é uma colaboração mais de interesse do que de confiança.”

O estudo aponta a existência de um excesso de gatekeepers, que na linguagem do estudo de redes são os pontos (pessoas) que conectam outros pontos, mas que controlam o fluxo de informação entre as partes. Ao mesmo tempo faltam hubs, que são os pontos de conexão múltiplos e que contribuem para um alto grau de confiabilidade da rede. “Uma rede altamente colaborativa é sempre repleta de hubs, eles são indispensáveis para a troca de informações”, diz Bouabci.

Atentos ao problema, fundos e financiadores têm procurado investir na consolidação de “redes de organizações”. Para Marcia Soares, do Fundo Vale, investir e participar de redes é uma nova tendência. “Não vamos deixar de financiar e apoiar organizações com trabalho de campo, mas, por outro lado, fortalecer essas redes é fundamental para potencializar e dar escala ao resultado. Senão, acabamos apoiando ações que ficam somente no nível ‘piloto’, ou que servem como experiências locais, sem que haja transferência de informação.”

Soares acredita que o principal produto das redes é a disseminação de conhecimento. “Quando a gente faz uma análise isolada de uma organização A, B ou C, ou de seus projetos, de certa forma não estamos olhando para o contexto. As redes são um ótimo canal de distribuição de boas experiências e disseminação de informação, elas ajudam a dar escala para aquilo que dá certo e criam um ambiente de confiança entre as organizações.”