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O mundo não acabou. Ganhamos um bônus

por Dal Marcondes publicado 02/01/2013 13h14, última modificação 02/01/2013 13h17
É importante lembrar que não é preciso salvar o planeta, mas sim preservar o habitat humano
Soja-na-Amazônia

Foto: Rodrigo Baleia/ AE

 

da Envolverde

 

Eu nunca entendi direito as contas para ajustar o calendário Maia ao nosso calendário Juliano. Afinal, os dois foram criados por civilizações muito diferentes e com distintos modos de ver o mundo e, possivelmente, o seu fim. De qualquer forma, como o mundo não acabou, ganhamos um bônus, ou como gostam os aficionados em games, uma vida extra. A humanidade conseguiu dar um salto civilizatório sem precedentes no século 20, saímos da quase idade média para a era espacial em menos de 100 anos. Na maior parte dos rincões da Terra, no início dos anos 1900 ainda se vivia sem eletricidade, sem grandes artefatos mecânicos, sem nenhuma medicina moderna ou qualquer outro vestígio de modernidade. Aliás, como ainda vivem alguns povos esquecidos em diversos continentes.

Mas vamos ao que importa, nosso bônus ou vida extra. Em 1912 rigorosamente ninguém seria capaz de prever o que estava por vir no século 20. Em 1912 a vida ainda era muito mais parecida com o que foi o século 19, com cavalos e carruagens pelas ruas, do que com o caos tecnológico das metrópoles que entraram pelo século 21. Nenhuma das duas grandes guerras mundiais havia solapado as utopias da humanidade e a Europa vivia um esplendor de cultura hoje conhecido como “Belle Époque”, quando intelectuais e artistas ocupavam cafés e teatros em saraus poéticos filosóficos. De nenhuma maneira um cidadão daquela época poderia prever os acontecimentos das décadas seguintes, como a depressão de 1929, as guerras, as tecnologias nuclear ou de telecomunicações que deram à humanidade os instrumentos para o salto para o futuro, que nos levou a Hiroshima, à lua e aos monstruosos congestionamentos das metrópoles abarrotadas de gente e de automóveis.

Sequer dava para prever a televisão e as centenas de canais dos modernos aparelhos digitais, ou a mais revolucionária das invenções humanas do século 20, a internet. E é essa a invenção que será a mãe das inovações no século 21. O conhecimento circulando em uma velocidade exponencial pode levar a história das próximas décadas por caminhos absolutamente impensáveis.

Esse bônus de vida que ganhamos pode ser o momento mais alucinante e criativo da humanidade, por tudo o que sabemos e podemos. Mas, principalmente, pelos desafios que conhecemos. Sabemos o que não poderemos continuar a fazer nas próximas décadas, sabemos os caminhos que não devemos seguir, e essa é a graça de se ganhar uma vida extra, é provarmos que somos capazes de ser e fazer diferente. Em um game, quando se chega a esse ponto, já perdemos as oportunidades que surgiram, morremos várias vezes e, em tese, aprendemos como fazer para ficar vivos.

As perdas do planeta em biodiversidade, qualidade de recursos hídricos, desperdícios de matérias primas e outros impactos sobre o meio ambiente chegaram a um ponto quase irrecuperável em apenas 100 anos, os mesmo asnos que nos deram tantas conquistas. O horizonte climático para este século 21 não é alvissareiro, os dados projetam o aumento dos eventos extremos como secas, furacões, enchentes e todo o tipo de tragédias, atingindo principalmente áreas de alta densidade demográfica.

É importante lançar um olhar de longo prazo sobre o futuro, coisa que a Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, tentou, mas não teve muito sucesso em sensibilizar governantes preocupados com uma grande crise financeira, que começou em 2008 e não tem data para deixar a cena.

Mesmo com as perspectivas pouco claras sobre as próximas décadas, nunca a humanidade teve tantos bons instrumentos e ideias inovadoras capazes de mudar seu destino. Tecnologias, telecomunicações, internet, ciências avançadas em todas as áreas do conhecimento, pessoas de alta qualidade técnica e humanística, e, acima de tudo, um planeta que ainda não se tornou um obstáculo intransponível.

É importante lembrar que não é preciso salvar o planeta, mas sim preservar o habitat humano.