Você está aqui: Página Inicial / Sustentabilidade / O desafio energético

sustentabilidade

Energia

O desafio energético

por Delfim Netto publicado 20/07/2010 11h38, última modificação 28/07/2010 10h22
O Brasil dedicou as últimas décadas a sujar a matriz elétrica mais invejada do planeta. A retomada dos projetos hídricos é um alento

O Brasil dedicou as últimas décadas a sujar a matriz elétrica mais invejada do planeta. A retomada dos projetos hídricos é um alento

Donos da mais invejada matriz energética limpa do planeta, desenvolvida ao longo de pouco mais de meio século para garantir o crescimento econômico, principalmente o suprimento do parque industrial a preços competitivos em níveis internacionais, somos obrigados a reconhecer que esquecemos o objetivo. Hoje, o custo da energia fornecida à indústria brasileira supera largamente o de nossos concorrentes, o que significa um atestado de incompetência difícil de igualar.
É quase uma tragédia o que aconteceu com o setor energético brasileiro, desde quando os governos abandonaram o planejamento estratégico e permitiram que as coisas fossem se deteriorando, até o apagão de 2001. A matriz original foi sendo lentamente destruída. Postos de lado os projetos de aproveitamento hidrelétrico que garantiriam a continuidade da oferta de energia limpa e a preços baratos, o País precisou recorrer, em pleno apagão e nos anos seguintes, à geração de energia térmica, de origem basicamente nos derivados do petróleo. Essa substituição, além de elevar dramaticamente os custos do fornecimento da energia, piorou a qualidade do ar que respiramos e produziu danos nada desprezíveis e permanentes ao meio ambiente.

A questão mais grave, quando se observa o problema da energia entre nós, é que o quilowatt/hora no suprimento à indústria passou a custar 230 reais, o que é quase inacreditável, à luz do que tivemos durante todos os anos de prosperidade econômica. A matriz que garantiu energia barata foi fundamental para a aceleração do desenvolvimento brasileiro. Pior é que o período que passamos a negligenciar o aproveitamento do potencial hidrelétrico coincidiu com a proliferação dos movimentos em defesa do meio ambiente, alguns exacerbados, muitos deles contaminados ideologicamente e cooptados financeiramente desde o exterior, o que dava suporte à incompetência oficial.

A maioria dos ecologistas – mesmo os bem-intencionados que acreditavam estar brigando por justas causas – não conseguia entender que, na medida em que ajudava governos incompetentes a adiar a construção das hidrelétricas, simplesmente contribuía para o aumento da poluição expelida das usinas térmicas a petróleo ou carvão. E mais grave ainda quando a solução encontrada para evitar novos apagões foi recorrer às usinas nucleares. Estas são menos poluentes que as térmicas de óleo e carvão, mas ainda resta demonstrar o que fazer com o indestrutível lixo atômico.
Hoje, no Brasil principalmente, a construção das usinas hidrelétricas leva em conta os vários aspectos que englobam a proteção ambiental, a segurança e o destino das populações no entorno, nas áreas rurais ou urbanas. E não poderia ser de outra forma. Tenho insistido em sugerir que as pessoas de boa-fé, que pretendam realmente lutar em defesa da preservação do ambiente físico e da melhora das condições sociais, façam um esforço e visitem não apenas as instalações, mas o entorno das usinas de Itaipu e Tucuruí, e outras de menor porte construídas desde então, e tirem suas conclusões quanto aos benefícios ou prejuízos que elas trouxeram para as populações regionais.

Felizmente, estamos recuperando os projetos que vão permitir a expansão da oferta de energia hídrica. É preciso recompor a matriz que nos proporcionou um formidável padrão de respeito ao ambiente e de baixo custo. O Brasil manteve por muitos anos um dos custos mais baratos de energia até que o abandono do planejamento permitiu o grande apagão de 2001 e, após ele, a elevação rápida dos preços por dois motivos: a mudança da matriz privilegiando as fontes térmicas resultou num brutal aumento de custos, principalmente da energia para o setor industrial; e, em segundo lugar, o crescimento desordenado dos impostos e de toda sorte de contribuições que passaram a incidir sobre as tarifas no fornecimento da energia. São esses fatores que fizeram com que o preço da energia consumida no Brasil se tornasse um dos mais caros do mundo, hoje. •