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Dal Marcondes

O clima conforme a mídia

por Dal Marcondes publicado 15/11/2011 16h25, última modificação 15/11/2011 16h25
A imprensa dos Estados Unidos e da Inglaterra abre mais espaço para opiniões que contestam as mudanças climáticas do que os veículos do Brasil, França, Índia ou China
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Segundo o WSTJ, o homem não é o culpado pelo aquecimento global. Imagem: Reprodução

As mudanças climáticas são um dos assuntos ambientais mais presentes na mídia global. As causas e ao agentes que estariam provocando essas mudanças ainda são motivo de discórdia em alguns círculos. No Brasil tem havido um certo consenso em relação às atividades humanas como a maior causa das alterações climáticas, principalmente pela queima de combustíveis fosseis e, em nosso caso específico, a queima de grandes extensões de floresta. Um sinal importante dessa crença é que o governo federal estabeleceu uma Política Nacional de Mudanças Climáticas e 22 Estados da Federação adotaram políticas climáticas regionais.
Em termos globais, no entanto, a mídia não é tão conclusiva. Uma equipe liderada por James Painter, da Universidade Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo, examinou mais de 3.000 artigos a partir de títulos de jornais diferentes no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França, na China e na Índia durante dois períodos distintos. Em cada país (além da China), os jornais foram selecionados para representar diferentes pontos de vista políticos. Os períodos estudados foram fevereiro-abril de 2007 e meados de novembro de 2009 a meados de Fevereiro de 2010 (período que incluiu a cúpula sobre mudança climática da ONU em Copenhague).
Os dados do estudo constatam que nos Estados Unidos e na Inglaterra há uma presença maior de vozes que negam a responsabilidade humana em relação às mudanças climáticas, ou mesmo negam que essas mudanças estejam ocorrendo. Um terço desses artigos são assinados por políticos ou entrevistam políticos. O jornal que mais dá espaço a esse tipo de abordagem é o The Wall Street Journal. Na Índia a pesquisa constatou muito pouca contestação às causas antropogênicas das mudanças climáticas e a inexistência de grupos de pressão dos chamados “céticos”. Na França, Brasil e China a mídia praticamente não dá espaço para a contestação da mudanças climáticas.

Apesar dos pesquisadores terem descoberto uma ligação entre a quantidade de cobertura dada aos céticos do clima do ponto de vista político om base em títulos de jornais no Reino Unido e nos EUA, este link não aparece nos países em outro estudo -- Brasil, França e Índia. Em todos os países, os políticos representavam cerca de um terço de todas as vozes céticas. Jornais do Reino Unido e dos EUA citam com maior frequência os políticos que a imprensa de outros países.
Segundo o coordenador do estudo, James Painter, nos Estados Unidos e na Inglaterra existem grupos políticos e empresariais que atuam fornecendo informações à mídia, principalmente à aquelas mais receptivas às sua causa. Esses grupos praticamente não existem nos outros países estudados.
O objetivo desses grupos “céticos” é difundir a tese de que, em primeiro lugar as mudanças climáticas não são um fato provado pela ciência. Em segundo lugar, mesmo que estejam ocorrendo mudanças climáticas é improvável que as causas sejam as atividades humanas. Desta forma defendem que não há urgência em abordar o tema e nem a necessidade de gastos de governos e empresas para combatê-la.
O estudo também constatou que:
Na Índia, a ausência de negócios ligados a grupos de pressão e climacéticos, cientistas e políticos e a presença de fortes ONGs ambientais, em grande parte explica a ausência de ceticismo nos meios de comunicação;
A mídia brasileira teve a menor quantidade de ceticismo em relação às mudanças climáticas dos seis países estudados;
Jornalistas chineses tendem a seguir a linha do governo sobre a ciência do clima;
O ceticismo climático foi particularmente presente nas colunas de opinião e editoriais do The Wall Street Journal.
Os países e média incluídos no estudo foram o Brasil (Folha de São Paulo, Estado de São Paulo), China (Diário do Povo, Pequim Evening News), França (Le Monde, Le Figaro), Índia (Times of India, The Hindu), Reino Unido (todos os dez jornais de circulação nacional) e Estados Unidos (New York Times, Wall Street Journal). O estudo foi realizado e financiado pelo British Council, juntamente com a Fundação Europeia do Clima e do Grantham Research Institute sobre Mudança do Clima e Meio Ambiente da London School of Economics.
Mais informações sobre o tema: http://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/