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Não há escolha: devemos plantar colheitas GM agora

por The Observer — publicado 24/03/2014 09h02
Quase um bilhão de pessoas enfrentam a fome, e o problema vai se agravar se não usarmos as tecnologias mais eficazes
Flickr/ pkpriya
gm food

Plantações de alimentos geneticamente modificados poderiam melhorar a produtividade sem ter de criar mais campos agrícolas

Editorial

Alimentar a população crescente do nosso planeta é um dos desafios mais sérios que nossos líderes enfrentam hoje. Até 2050 é provável que a população da Terra chegue a 9 bilhões de pessoas. Encontrar alimento para tanta gente não será fácil. A ciência não solucionará o problema por si só, é claro, mas evidentemente tem um papel chave a desempenhar. Sem novas tecnologias, as futuras gerações passarão fome. É simples assim.

Para ajudar a identificar as novas tecnologias mais promissoras, os políticos precisam incentivar as pesquisas relacionadas aos alimentos criando um ambiente burocrático em que as melhores abordagens possam ser avaliadas com rapidez e eficácia. O problema é que tal regime não existe no Reino Unido ou na Europa. Essa situação é especialmente preocupante porque prejudica a adoção das tecnologias agrícolas mais promissoras, as colheitas geneticamente modificadas (GM). Atualmente, apenas uma colheita GM é cultivada comercialmente na Europa -- uma espécie de milho plantada principalmente na Espanha. A burocracia europeia bloqueou a adoção de todas as outras, apesar do fato de muitas oferecerem ricas recompensas ambientais e nutricionais, comparadas com o cultivo das variedades convencionais.

A situação é inaceitável, um ponto salientado na semana passada por um grupo de assessores científicos do governo britânico. O grupo advertiu que os regulamentos europeus sobre o cultivo de colheitas GM não servem mais a seus objetivos. Eles pediram que a Grã-Bretanha possa decidir por si mesma se as colheitas geneticamente modificadas devem ser cultivadas no Reino Unido. Os muitos benefícios a serem obtidos em termos de produção sustentável de alimentos superam de longe quaisquer perigos percebidos, declarou o relatório enviado ao Conselho de Ciência e Tecnologia (CST na sigla em inglês), que assessora o primeiro-ministro David Cameron sobre desenvolvimentos científicos. Ele pediu a reorganização completa do modo como as colheitas são avaliadas pelos reguladores. Se isso não acontecer, a Grã-Bretanha e a Europa provavelmente ficarão atrás de outras partes do mundo onde as colheitas GM foram adotadas, especialmente os Estados Unidos.

O relatório, preparado por importantes pesquisadores botânicos do Reino Unido, deve ser recebido calorosamente. Faz 30 anos que as colheitas GM foram desenvolvidas pela primeira vez e sua introdução foi discutida neste país. A ciência amadureceu desde então, mas as reações dos ativistas, não. A ignorância científica e a inércia burocrática continuam predominando e ao longo de décadas bloquearam a adoção de uma série de projetos promissores: plantas capazes de reforçar os níveis de vitaminas em nossa alimentação, de reduzir a dependência dos agricultores de pesticidas e de aumentar a produtividade durante três décadas. Repetindo: essa situação é inaceitável.

Temos muito a ganhar com o plantio de colheitas GM. Elas oferecem à humanidade uma maneira de melhorar a produtividade dos alimentos sem fazer novas incursões na natureza de nosso planeta para criar mais campos agrícolas. A posição foi resumida por sir Mark Wolpert, o cientista-chefe do governo, na semana passada, quando debateu o relatório da CST. "O desafio é obter mais da terra existente de maneira sustentável, ou enfrentar a alternativa, que é deixar a população sem alimentos, ou teremos de ocupar mais terra inexplorada com plantações." Dessa perspectiva, a tese a favor das colheitas GM é irrefutável.

Nem todo mundo vai concordar, é claro. Os verdes, adversários das colheitas GM, afirmam que elas representam um risco para a saúde, apesar de nenhuma pesquisa jamais ter produzido qualquer evidência verossímil que apoie essa tese. Trinta anos atrás, podia-se argumentar que devíamos seguir cautelosamente devido aos potenciais riscos para a saúde. Esse argumento não é mais aceitável.

Outros dizem que os autores do relatório, que foram liderados por sir David Baulcombe, da Universidade de Cambridge, tinha ligações "ocultas" com a indústria. Isso simplesmente não é verdade. Todas os elos entre os autores e a indústria agrícola foram anunciadas na entrevista coletiva no Centro de Mídia Científica, onde o relatório foi lançado na semana passada. A maioria dos observadores considerou essas ligações modestas e não comprometedoras.

Outros ativistas verdes afirmam que as colheitas GM são impuras por causa de suas ligações com grandes empresas. Mas, como indicou Mark Lynas, o ex-ativista anti-GM que hoje apoia as colheitas geneticamente modificadas, essa situação surgiu como consequência direta do próprio comportamento dos ativistas. Suas ações -- invadir fazendas e destruir testes de colheitas GM -- fizeram disparar os custos do desenvolvimento das plantas, de modo que apenas grandes companhias podem financiá-los hoje. Como coloca Lynas: "Os ativistas anti-GM se queixam de que as colheitas GM só são comercializadas por grandes corporações, mas essa é uma situação criada por eles, mais do que quaisquer outros".

Vale a pena comparar esse comportamento com o tipo de ciência produzido hoje por pesquisadores de colheitas GM. Considere a estação de pesquisas de Rothamsted, em Hertfordshire (Inglaterra), onde cientistas produziram uma variedade de trigo que emite uma substância química chamada E-beta-farneseno, também é liberada pelos afidídeos (pulgões) quando são ameaçados. Na verdade, ela diz a outros pulgões para se afastarem. Além disso, o E-beta-farneseno atrai predadores dos pulgões, como joaninhas e vespas.

Em suma, ele produz um duplo efeito -- e com rico potencial. Os pulgões causam um prejuízo estimado em 100 milhões de libras anuais às colheitas no Reino Unido. No entanto, a eficácia do trigo GM antipulgão de Rothamsted só foi demonstrada em laboratório até agora. Dois anos atrás, testes em campo estavam preparados, mas foram ameaçados por ativistas anti-GM. Felizmente, seu protesto esmoreceu – um sinal de que essas atividades podem estar perdendo sua atração e seu ímpeto. Nesse caso, devemos nos sentir animados.

O mundo estará sob enorme pressão para fornecer água, energia e alimento para sua população. Quase um bilhão de pessoas já sofrem séria penúria e enfrentam a fome, e nas próximas décadas esse problema se agravará, a menos que tomemos medidas eficazes agora.

Para tanto, precisamos empregar as melhores e mais produtivas tecnologias disponíveis – e, como a modificação genética das colheitas é provavelmente a mais poderosa de todas essas técnicas, está claro que a Grã-Bretanha precisa agir já para facilitar o caminho de sua utilização. Depois de 30 anos, está na hora de adotar colheitas GM em todo o país.

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