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Entrevista

Mundo real

por Dal Marcondes publicado 21/07/2010 10h47, última modificação 21/07/2010 10h54
Para José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, o fim dos combustíveis não renováveis está longe
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O presidente da Petrobras. Foto: Ag. Petrobras

Para José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, o fim dos combustíveis não renováveis está longe

Nos últimos anos, a Petrobras enfrenta uma série de críticas por sua atuação em relação a questões ambientais. Em 2008, foi protagonista de um dos episódios mais polêmicos do cenário dos debates ao ter suas ações excluídas do cálculo do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bolsa de Valores de São Paulo. Episódio que também resultou na suspensão da representação do Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial do conselho do ISE. Tudo porque havia uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) a prever a redução dos índices de enxofre (um elemento muito poluente) no diesel oferecido para a frota brasileira de ônibus e caminhões.

Para muita gente ligada ao movimento pela sustentabilidade, o afastamento da Petrobras das discussões com ONGs, principalmente de São Paulo, foi uma perda, pois a estatal é responsável por grande parte da energia que move o Brasil, além de ser um dos principais investidores em projetos ambientais em andamento no País. A Petrobras é criticada por explorar um recurso natural não renovável e que responde pela maior parte das emissões de gases estufa, causadores das mudanças climáticas globais.

José Sergio Gabrielli esteve na Conferência Internacional do Instituto Ethos de 2010, em maio. Falou com jornalistas e uma plateia de especialistas e executivos de empresas. A seguir, os principais trechos da conversa com Gabrielli.

Tecnologia - A descoberta do pré-sal foi resultado de trabalho, de muita investigação e de muita tecnologia aplicada. Os seres humanos se organizaram há milhares de anos e o elemento fundamental que levou a transformações foi a capacidade de usar energia para modificar os produtos com os quais se relacionavam. Foi a capacidade de transformar minerais em alguma coisa, foi o ato de cozinhar que transformou o selvagem no civilizado. E cozinhar implica transformação de energia. Então, desde a origem dos seres humanos, cresce o uso da energia.

A energia que a sociedade “deseja” - Quase 90% – exatamente 87% – da energia no mundo vem de fontes não renováveis, apenas 13% vem de fontes renováveis. O mais grave é que, das renováveis, 10% é lenha, queima de madeira. O Brasil tem 47% de renováveis, sendo 15% de hidroeletricidade, e 16% de produtos da cana. Essa matriz brasileira é praticamente única entre os grandes países do mundo. Temos a mais limpa matriz energética do mundo. As projeções para 2030 mostram que o mundo vai baixar de 87% para 86% o porcentual de uso de fontes não renováveis. As renováveis vão sair de 13% para 14%. Praticamente não haverá alterações importantes da matriz energética de hoje para 2030. Essa é a realidade que temos, uma realidade dura, complicada.

Nesse sentido, é fundamental que o uso da energia existente seja mais eficiente. Considerando que a demanda de petróleo se mantém relativamente estável, com crescimento em torno de 1% ao ano, vamos precisar adicionar, até 2030, entre 65 milhões e 78 milhões de barris a mais para atender à demanda. Esse é um desafio enorme. O pré-sal brasileiro é a principal e maior fonte adicional de petróleo conhecida hoje no mundo.

A Petrobras está ampliando sua participação na área dos biocombustíveis. Existe a perspectiva de dobrar a participação na matriz energética mundial, de 0,4% para 1%. No Brasil é diferente, temos hoje 51% dos veículos leves abastecidos com etanol. A gasolina é o combustível alternativo no Brasil. A expectativa é de que em 2020, mais de dois terços, 70% do mercado, serão supridos pelo etanol. Na área de biodiesel existe uma adição de 5% de biodiesel ao diesel brasileiro.

Acidentes - Em relação a acidentes, existem os que podem ser evitados e os que não podem. A maneira de evitar acidentes é atuar na causa. É antecipar e prever, mas é também estar preparado para, quando um acidente ocorrer, saber lidar com as consequências, para corrigir os efeitos. Hoje temos uma estrutura articulada com a Marinha, a Aeronáutica, instituições internacionais, em prontidão 24 horas por dia, sete dias por semana para qualquer eventualidade de acidente, como o que aconteceu no Golfo do México.
A Petrobras opera 22% da produção mundial de petróleo em águas profundas, ou seja, é a maior operadora de águas profundas do mundo. A atuação na prevenção é fundamental, mas não garante que não vá acontecer acidente. Temos vários procedimentos que, essencialmente, podem ser resumidos na seguinte expressão: “Se tiver dúvida, pare!”

Royalties - Discutimos com o economista Ignacy Sachs como usar os recursos do pré-sal para alavancar uma nova economia. Em uma conta redonda, digamos que 60% do lucro vá para o principal acionista, no caso da Petrobras, o Estado brasileiro, e esses recursos vão para um fundo social. Esse fundo vai acumular muito dinheiro. Além disso, entre 10% e 15% serão pagos em royalties. Digamos que esse fundo social faça uma transformação profunda no sistema educacional brasileiro e permita o acesso universal à educação, e que estimule melhoras educacionais que aumentem a produtividade dos trabalhadores brasileiros. Digamos que grande parte dos investimentos em inovação tecnológica seja para o desenvolvimento da pesquisa de enzima que permita a produção do etanol de celulose, ou que vai avançar na eficiência do lítio para fazer baterias que tornem os carros elétricos eficazes. Ou que apoiem o desenvolvimento genético de plantas oleaginosas não ligadas à cadeia alimentar para a produção de biodiesel. Não estou falando do futuro, estou falando de possibilidades reais de hoje.

Para minimizar os efeitos da exploração do pré-sal estamos trabalhando para zerar suas emissões de gases estufa. Vamos reinjetar e sequestrar o CO2 produzido no processo. Esse gás sempre existe em fenômenos naturais que envolvem energia. Então, na exploração do pré-sal, vai haver uma certa produção de CO2. O que vamos fazer é reinjetar nos poços e fazer projetos de captura e compensação desse gás. O ponto específico é que queremos retirar e emitir zero de CO2.