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Meio Ambiente

Muito além da mera distribuição de mudas

por Brasil Econômico — publicado 25/11/2010 17h00, última modificação 25/11/2010 17h56
Algumas abordagens à questão da sustentabilidade costumam incorrer em erros que, de modo geral, acabam por imputar a ativistas e analistas certa pecha de inocência, ou de alienação da realidade. Por Luciano Martins Costa

Por Luciano Martins Costa - Jornalista e escritor, consultor em estratégia e sustentabilidade*

Algumas abordagens à questão da sustentabilidade costumam incorrer em erros que, de modo geral, acabam por imputar a ativistas e analistas certa pecha de inocência, ou de alienação da realidade — o que certamente mais atrapalha do que ajuda na consolidação dos valores emergentes relativos à responsabilidade ambiental e social dos gestores e dos cidadãos em geral.

São equívocos que, quase sempre, nascem de visões simplistas para questões relativamente complexas.

Um deles é considerar que, antes da globalização dos movimentos pela defesa do patrimônio ambiental, não havia preocupações com a sustentabilidade na maioria das empresas.

Para tal simplismo, uma alusão simples: todas as decisões de gestão em defesa da permanência de um negócio privado ou público podem ser ações de sustentabilidade.

Por isso se diz, acertadamente, que a nova tendência dos negócios foi inaugurada pelos programas de melhoria contínua da qualidade dos processos, sistematizados pelos consultores americanos Edwards Deming e Joseph Juran no Japão do pós-guerra.

Nesse contexto, também se convencionou que o plantio de árvores é sempre uma atitude "do bem". Na verdade, em muitos casos um projeto que exige a criação extensiva de mudas pode ter seus benefícios anulados ou superados por uma logística incorreta.

Além disso, é preciso considerar que um número inadequado de espécimes em determinados ambientes pode desestabilizar o bioma onde são implantados.

Por essa razão, aquelas promoções, muito comuns até uns cinco anos atrás, na qual lojas, supermercados e postos de combustível tratavam de melhorar sua imagem distribuindo mudinhas de ipê se tornaram mais raras.

Os gestores dessas empresas foram convencidos por especialistas de que nem todo vaso contém bondades. O reflorestamento, em pequena ou larga escala, exige a presença de um especialista, que irá verificar a adequação das espécies que se pretende implantar, o número ideal de unidades e sua densidade.

Uma das características desses tempos em que tanto se fala de sustentabilidade é a necessidade de limpar o ambiente de negócios de todos os tipos de mistificações e preencher esse espaço com o conhecimento correto.

Quando a legislação que regulamenta a compensação ambiental foi criada, em 2002, houve alguma confusão entre empreendedores, pois se convencionou que bastava providenciar o plantio de árvores para compensar eventuais danos produzidos por um projeto.

Muitas empresas foram vítimas de consultorias mal-informadas e acabaram sofrendo punições por parte do Ibama.

A lei foi reformada em 2009 e, desde então, uma câmara de compensação ambiental orienta e supervisiona os planos de reflorestamento. Ficou mais claro que um conhecimento específico deve ser aplicado, o que reduziu o assédio de aventureiros.

É mais difícil emplacar estudos de impacto ambiental malfeitos ou produzidos apenas para preencher as planilhas, uma vez que a implantação desses projetos passa a ser avaliada passo a passo.

O Brasil avançou bastante nos últimos anos em termos de normatização visando a sustentabilidade, e muitos entraves foram afastados pela simplificação das regras. Só faz do jeito errado quem gosta de encrenca.

*Matéria publicada originalmente no Brasil Economico