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Amazônia

Movimentos se unem para dizer ‘não’ às hidrelétricas na bacia Amazônica

por Adital — publicado 27/08/2010 09h46, última modificação 27/08/2010 11h48
Cerca de 700 pessoas deverão se reunir no Parque de Esposição Itaituba

Cerca de 700 pessoas deverão se reunir no Parque de Esposição Itaituba

Natasha Pitts*

Para fortalecer a luta contra a construção de hidrelétricas na Amazônia, membros de movimentos sociais e povos indígenas decidiram se unir. Prova disso é que nesta quarta-feira (25) teve início em Itaituba, no Pará, o ‘I Encontro dos Povos e Comunidades Atingidas e Ameaçadas por Projetos de Infraestrutura’. A mobilização segue até sexta-feira (27) com atividades de sensibilização e encontros para traçar as estratégias que os movimentos deverão seguir daqui para frente.

O Encontro unificado deverá reunir cerca de 700 pessoas no Parque de Exposição de Itaituba, entre lideranças sociais e indígenas do Rondônia, Mato Grosso e Pará. Também estarão presentes pesquisadores do Painel de Especialistas que avaliou os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, representantes do Ministério Público Federal e de várias ONGs socioambientais.

O intuito é articular, conjuntamente, estratégias unificadas que possam barrar os projetos de construção de hidrelétricas na bacia Amazônica. O foco dos debates estará nas grandes obras que já estão em andamento no rio Madeira (RO) e nas usinas planejadas no rio Teles Pires (MT), Tapajós (PA) e Xingu (PA).

De acordo com Padre Edilberto Sena, do Movimento Tapajós Vivo, o evento buscará alcançar dois objetivos principais. "Primeiro, queremos sensibilizar a população de Itaituba e das cidades e comunidades vizinhas para a situação dos atingidos pelas obras de hidrelétricas e chamar atenção para o plano perverso que estão tramando contra o Rio Tapajós e outros rios. Em segundo lugar, pretendemos neste evento ampliar a forma de resistência dos que lutam contra as hidrelétricas".

Para Padre Edilberto, o Encontro deverá gerar passos concretos que definirão como os movimentos organizados vão agir para estreitar a forma perversa de construção de obras que causam grandes impactos socioambientais na Amazônia. "Precisamos agir, dar passos concretos e definir o que vai ser feito daqui para frente. Não adianta ficarmos apenas choramingando as desgraças", alerta.

Na programação do Encontro constam mesas-redondas, depoimentos dos atingidos pelas obras, uma caminhada pelas ruas da cidade e um programa radiofônico, que será realizado na sexta-feira. Um dos momentos especiais será o ritual de Encontro das Águas, quando os participantes irão demonstrar o respeito que têm pelas águas dos Rios Madeira, Tapajós e Xingu.

As atividades de sensibilização serão realizadas nos bairros de Itaituba. Transpondo os muros do local de realização do Encontro, os participantes buscarão, por meio de peças teatrais e de depoimentos, mostrar à população do município os prejuízos que estão sendo gerados pela construção das hidrelétricas na bacia Amazônia.

"Gostaria de fazer um alerta os irmãos do Nordeste e do Sul do país: quando vocês virem propagandas que o governo faz sobre a geração de energia limpa, lembrem que ela é suja na fonte, pois fere os direitos de milhares de pessoas. Não pensem que nossas ações são de vandalismo. O rio é nossa vida, por isso lutamos por ele", encerrou Padre Edilberto.

Grandes obras

Cada município sofre de uma maneira distinta as diversas agressões geradas pelas grandes obras. Em Roraima, onde estão localizadas as usinas de Santo Antonio e Jirau, a superpopulação em Porto Velho, os desmatamentos, a mortalidade de peixes, as epidemias de dengue, o crescimento da prostituição e a descoberta de trabalho escravo são apenas algumas das problemáticas mais inflamadas.
No Mato Grosso, ao menos 26 municípios serão afetados pelas obras de construção da hidrelétrica Teles Pires. Esta é a primeira das cinco hidrelétricas mapeadas e em processo de licenciamento no rio. O governo já anu nciou que em breve fará o leilão de comercialização da energia de Teles Pires.

No Pará, o Complexo Tapajós abrigará cinco hidrelétricas que afetarão diretamente 871 km² de áreas protegidas de floresta e impactarão sobre as terras indígenas demarcadas dos povos Mundukuru e Sai Cinz. No Rio Xingu, conforme pontuou Padre Edilberto, "o governo chegou a mudar as leis" para construir a hidrelétrica de Belo Monte. O processo de licenciamento e leilão da hidrelétrica foi marcado por irregularidades e violações às normais internas e internacionais. A obra deixará comunidades indígenas sem água, alimento e acesso a transporte. Em Altamira, uma grande área urbana será alagada, situação que obrigará cerca de 20 mil a 40 mil pessoas a se deslocar.

*Matéria originalmente no Adital