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Meio ambiente e interesse nacional

por Envolverde — publicado 23/09/2010 11h16, última modificação 23/09/2010 11h16
É essencial entender a relevância estratégica das florestas para o desenvolvimento do país no século 21

Por Virgilio Viana*

O debate sobre o Código Florestal tem sido pautado por uma polarização pouco desejável. De um lado, ruralistas defendendo a redução de suas obrigações de proteção ambiental. De outro, ambientalistas resistindo mudanças na legislação vigente. Nesta queda de braço, o relatório do Deputado Aldo Rebelo acabou atendendo mais aos interesses dos ruralistas, deixando os ambientalistas revoltados. Mais grave: este debate não conseguiu apontar o melhor caminho para atender aos interesses do Brasil.

É preciso ir além desta polarização primária e fazer uma pergunta simples, porém estratégica: é do interesse nacional ser mais ou menos rigoroso na conservação das florestas brasileiras? Para responder esta questão, é essencial entender a relevância estratégica das florestas para o desenvolvimento do país no século 21.

Se as florestas forem entendidas como um estorvo à produção agropecuária, geração de energia e crescimento econômico, a conclusão é clara: deveríamos ser pouco rigorosos, permitindo e legalizando a continuidade do desmatamento. Assim, aumentaríamos ao máximo a área plantada, a geração de empregos, a produção de alimentos e as exportações.

Se as florestas forem entendidas como um ativo estratégico do país, tanto para o agronegócio quanto para as cidades e a indústria, a conclusão é óbvia: deveríamos ser muito rigorosos, promovendo a recuperação da cobertura florestal em paisagens intensamente cultivadas e reduzindo ao máximo o desmatamento e a degradação florestal na fronteira agrícola. Nesta perspectiva, deveríamos entender as florestas não como um estorvo, mas sim como um patrimônio estratégico e um diferencial competitivo do Brasil.

O papel estratégico das florestas pode ser explicado por três dimensões principais. Primeiro, as florestas são essenciais para a sustentabilidade do nosso desenvolvimento. Dependemos das florestas para manter o regime de chuvas, a vazão dos rios e o controle de pragas e doenças na agricultura. Paisagens com pouca cobertura florestal têm maior incidência de pragas e doenças, o que resulta em maiores custos de produção e maior contaminação por agrotóxicos. Sem um regime equilibrado de chuvas, diminui-se a produtividade da agropecuária. Os pequenos produtores são os mais vulneráveis. Sem uma vazão regular dos rios, diminui-se a geração de energia elétrica e a disponibilidade de água para o abastecimento de áreas urbanas. Num contexto de mudanças climáticas globais, a importância das florestas para as cidades e a agropecuária assume dimensão ainda maior.

Em segundo lugar, as florestas são essenciais para o acesso aos principais mercados das commodities do agronegócio. Interessa ao agronegócio brasileiro, especialmente o segmento exportador, uma imagem verde. Não se trata de um desafio de propaganda e marketing, mas sim de gestão da qualidade ambiental na agropecuária. Num contexto onde barreiras não alfandegárias são usadas de forma cada vez mais freqüente, os concorrentes brasileiros usam e abusam da relação entre o nosso etanol, soja e carne com o desmatamento.

Mesmo que muitas vezes de forma exagerada ou até imprópria, esta “pegada florestal” do agronegócio brasileiro é e continuará a ser uma barreira para abertura de novos mercados, especialmente nas economias mais industrializadas e nas sociedades mais bem informadas. Num mundo conectado pela internet, estas barreiras ambientais devem aumentar.

Em terceiro lugar, as florestas são importantes para o funcionamento dos ciclos e processos ecológicos que sustentam a vida no Planeta Terra. Como ainda não temos outra opção cósmica, não nos resta outra alternativa senão cuidar deste velho e combalido Planeta. A continuar o atual ritmo de degradação ambiental o caminho é claro: não conseguiremos oferecer a nós mesmos um futuro decente. Se pensarmos nos nossos filhos, netos e seus descendentes, o horizonte torna-se ainda mais alarmante.

Estas três dimensões - que poderiam ser expandidas se o espaço fosse um livro - nos levam a uma conclusão óbvia: não é do interesse nacional reduzir ainda mais a cobertura florestal do Brasil. Se assim fizermos, todos serão prejudicados, até mesmo os produtores rurais. Com menos florestas teremos um futuro pior para quem cultiva a terra e para aqueles que consomem os alimentos cultivados.

Deveríamos sim revisar o Código Florestal. Ao contrário do que pensam alguns, ele não é bom. É um absurdo considerar ilegal todos os moradores ribeirinhos da Amazônia ou pequenos produtores de café ou frutas do sul e sudeste do Brasil, para citar apenas alguns exemplos.

Entretanto, a revisão do Código Florestal deve ser cuidadosa e guiada por três princípios básicos: a ciência, o interesse nacional e o bom senso. Não devemos ser guiados pelo medo de mudar, que norteia o pensamento de alguns ambientalistas; nem pela visão de curto prazo, que guia o pensamento de alguns representantes do agronegócio.
A gestão inteligente do nosso patrimônio florestal é do interesse nacional. Deveríamos usar nossas florestas como um ativo para manter processos básicos como o ciclo da água e o equilíbrio do clima, no Brasil e no Planeta. Deveríamos valorizar nossas florestas como sumidouros de carbono, com valor de mercado. Deveríamos usar a biodiversidade como um ativo para negócios sustentáveis. Deveríamos investir mais em ciência e tecnologia para aumentar a produtividade e reduzir a pegada ecológica. Deveríamos tornar nosso agronegócio cada dia mais verde e sustentável, para a saúde dos nossos riachos, o crescimento de nossas exportações e a sustentabilidade do nosso desenvolvimento. De quebra, ainda ganharíamos o canto dos bem-te-vis, sabiás e canários.

* Virgilio Viana é engenheiro Florestal, Ph.d. pela Universidade de Harvard, é Superintendente Geral da Fundação Amazonas Sustentável.