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Extração ilegal de madeira é problema crônico, diz ONG

por Clara Roman — publicado 04/04/2012 11h08, última modificação 04/04/2012 11h08
Greenpeace descobre ação ilegal de madeireiras em assentamento em Santarém: 65% da madeira que sai da floresta não tem autorização
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Ativistas do Greenpeace penduram uma faixa sobre toras de madeira em local próximo a Santarém (PA). Foto: Karla Gachet/Greenpeace

O assentamento Corta-Corda, em Santarém, no Pará, se transformou num verdadeiro palco da extração ilegal de madeira, segundo relatório feito pela ONG Greenpeace e enviado a órgãos públicos. Por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém (Sirsan), moradores têm relatado a atuação de madeireiros sem autorização na área sob responsabilidade do Incra, o Instituto Nacional de Cololização e Reforma Agrária.  Segundo a ONG, foram constatados sete pontos no meio da mata que servem como estoque para a madeira ilegal.

“É uma coisa crônica ali na região: já faz mais de dez anos que o Greenpeace denuncia ações ali”, afirma André Muggiati, do Greenpeace.
Segundo o Imazon, 65% da madeira retirada da Amazônia não tem autorização da Secretaria do Meio Ambiente, o equivalente a 78.941 hectares. Dia e noite, conta André, caminhões transportam madeira da área para os portos da região.

As acusações dos moradores foram intermediadas pelo Sirsan. Segundo Raimundo Miracildo Corrêa, um dos diretores do sindicato, foram feitas diversas reuniões com o Incra para comunicar a situação, mas nenhuma iniciativa foi tomada até agora. O Incra, por sua vez, afirmou que já tomou conhecimento do desmate e prepara uma ação junto ao Ibama, órgão que, segundo o Greenpeace, também recebeu o relatório da ONG.

O Ministério Público Estadual do Pará também recebeu cópia, mas ainda não se pronunciou.

Durante a incursão da equipe da ONG no assentamento, para averiguação in loco do desmate, os ativistas afirmaram, segundo Muggiati, ter sido perseguidos por um carro em todo o percurso. “Tinha um carro que seguiu nossa equipe por muito tempo: passava a nossa caravana, esperava a gente passar por ele, seguia de novo passava outra vez”, afirma. Quando finalmente chegaram ao local indicado, havia apenas vestígios da atividade praticada, mas o local estava vazio.

Em sobrevoos, a ONG constatou sete pontos onde a madeira é estocada no meio da mata. “Quando essa madeira chega ao porto, precisa ter papéis que comprovem sua legalidade. Essa é a grande questão aí no caso: como essa madeira acaba se tornando legal”, afirma Muggiati.

Miracildo dá pistas de como esse processo ocorre: “A madeira é esquentada em alguns parques”, afirma. Ou seja, a madeira ilegal sai do lugar onde foi retirada e, antes de ir para os portos, é misturada à madeira estocada dos planos de manejo de extração legalizados.

Para Miracildo, o aumento da grilagem e desmatamento na área está conectado com o
recrudescimento da reforma agrária na região. “Desde o meio de 2011, a reforma agrária retrocedeu muito e abriu precedente para as madeireiras ficarem tranquilas”, afirma.

O Incra, por sua vez, reclama do esvaziamento de sua estrutura na Amazônia, tendo em vista o tamanho de suas terras na região e o alto número de denúncias que recebe semanalmente.
Alguns poucos assentamentos sobrevivem da extração de madeira, autorizada pela Secretaria do Meio Ambiente, e chegam a terceirizar o serviço à madereiras, mas são minoria.

A maior parte dos trabalhadores rurais dos assentamentos depende da mata nativa para o tipo de agricultura familiar que exercem. Isso explica, inclusive, o alto número de denúncias contra a ação das madeireiras.

 

[caption id="" align="alignleft" width="300" caption="Mapa do local onde ONG denunciou a atuação de madeireiros: Fonte:: Greenpeace"]
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