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Clonagem para salvar espécies ameaçadas?

por Deutsche Welle publicado 22/08/2014 04h50, última modificação 22/08/2014 05h05
Conservação dos animais no seu habitat natural é prioridade, afirmam especialistas. Clones seriam usados em zoológicos
Flickr /Fabiana Berssanetti

A clonagem é vista por alguns pesquisadores como uma alternativa para salvar animais ameaçados de extinção. Desde o início de 2000, pesquisas vêm sendo feitas em vários países, incluindo o Brasil. Para muitos especialistas, porém, esse processo reprodutivo está longe de ser uma alternativa viável para salvar as mais de 20 mil espécies ameaças no mundo.

"A clonagem é uma ferramenta emergencial no caso de uma multiplicação necessária, quando há poucos indivíduos, mas ela não vai recuperar ou salvar uma espécie. Vamos produzir exemplares para o zoológico", afirma o pesquisador Carlos Frederico Martins, coordenador do projeto da Embrapa, desenvolvido com o zoológico de Brasília, para clonar animais ameaçados.

Apesar dos avanços científicos dos últimos anos, a clonagem continua sendo um processo muito complexo, com resultados nem sempre satisfatórios. Além do DNA do animal a ser clonado, o processo depende também de um óvulo adequado para receber o embrião e da escolha do receptor para gestar o clone. Em muitos casos são necessários vários embriões e gestações para produzir um clone.

Além disso, a expectativa de vida de clones frequentemente é baixa, ou seja, eles vivem menos tempo do que os demais indivíduos. Eles também apresentam deficiências e não são aptos para se reproduzir. Justamente essa dificuldade reprodutiva é um dos fatores determinantes para excluir a clonagem das alternativas para aumentar a população de animais ameaçados em seu habitat natural.

Proteger o meio ambiente
Além disso, a clonagem nada pode fazer para impedir a destruição de habitats naturais, causada pela interferência humana. Por isso, conservacionistas defendem que, além de proteger as espécies em seu habitat natural, é necessário também preservar o próprio ambiente em que elas vivem.

"Proteção de espécies não significa que o animal sobreviva de alguma maneira, como um clone num zoológico, mas em seu habitat, no seu ecossistema intacto. Esse precisa ser o objetivo de todos os esforços. Muitas outras medidas são muletas, que em longo prazo oferecem pouco sucesso", afirma o biólogo Thomas Pietsch, chefe do departamento de animais silvestres da organização alemã Vier Pfoten.

Colman O'Criodain, analista de políticas do programa de espécies globais do WWF, é da mesma opinião. "A nossa prioridade é tentar conservar os animais no seu habitat natural. Se falamos na conservação em zoológicos, já perdemos a batalha. Na clonagem para zoológicos há um valor educativo e de curiosidade, mas não é uma contribuição significativa para a conservação", avalia.

Experiências mundiais
A primeira clonagem de um mamífero foi anunciada em 1997, na Escócia: a ovelha Dolly. Desde então, esse processo de reprodução passou a ser considerado por alguns pesquisadores como uma alternativa para salvar espécies ameaçadas de extinção.

A primeira tentativa de clonagem de um animal ameaçado foi feita em 2001. Pesquisadores dos Estados Unidos clonaram um gauro, mas o animal morreu dois dias após o nascimento. Em 2009, foi clonado o primeiro animal extinto: um íbex-dos-pireneus, cujo último exemplar silvestre morreu em 2000. O clone morreu minutos após o nascimento.

Na Coreia do Sul e no Japão, pesquisadores têm projetos para clonar um mamute, espécie extinta há cerca de 10 mil anos. Para, O'Criodain, a ideia é interessante no âmbito das possibilidades genéticas e técnicas, mas ele vê esses experimentos de forma crítica.

"Estamos preocupados com os recursos consumidos nesses projetos. Esse dinheiro e essaexpertise poderiam ser usados para melhorar as condições dos animais que ainda não estão extintos", reforça o especialista.

Projeto brasileiro
O projeto da Embrapa é o primeiro estudo desse tipo com animais da fauna brasileira. Quase dois anos após seu anúncio, a fase de compra de equipamentos e estruturação de laboratórios já foi concluída, e agora os pesquisadores estão analisando possíveis animais para a clonagem.

Entre os candidatos estão o lobo-guará, o gato-palheiro, o cachorro-vinagre e até o bisão-europeu. O sucesso da clonagem está diretamente ligado ao conhecimento que pesquisadores possuem sobre a fisiologia reprodutiva desses animais. E é justamente nessa fase que se encontra a pesquisa.

Por ser um processo muito complexo, ainda não há uma data exata para a primeira tentativa de clonagem. Segundo Martins, o projeto também está testando novas drogas no processo de transferência nuclear e pesquisando a clonagem interespécies entre o bisão e um bovino.

"Como o bisão tem a fisiologia reprodutiva próxima a dos bovinos, estamos tentando ver se conseguimos realizar uma clonagem interespécies, clonando um bisão a partir de um ovócito e uma receptora bovinos", afirma Martins.

Apesar de ser um processo caro, para o pesquisador a clonagem é válida para zoológicos quando não há muitos exemplares desses animais ou eles são raros. Atualmente, uma clonagem de bovinos custa em torno de 30 mil reais.

  • Autoria Clarissa Neher
  • Edição Alexandre Schossler

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