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Roberto Amaral

De volta ao candeeiro e ao carro-de-boi

por Roberto Amaral publicado 13/12/2011 13h06, última modificação 13/12/2011 13h09
Que tal dizermos agora aos milhões de brasileiros retirados da pobreza e que recém ingressaram nas primeiras faixas do consumo, que eles podem tudo, menos... consumir energia?

Aos ambientalistas de boa-vontade e aos ingênuos, pergunto se conhecem a importância da geração e distribuição de energia elétrica, para o desenvolvimento social (esqueçamos o crescimento econômico).

Alguém já mensurou o significado, do ponto de vista da dignidade humana, do programa ‘Luz para Todos’, ao tirar milhões de compatriotas de uma verdadeira Idade Média para as ofertas do século XX?

Sugiro um exercício: calcular quantas florestas são poupadas no Brasil e no mundo quando as locomotivas a vapor são substituídas pelas elétricas ou pelos carros dos metrôs e a geração de energia elétrica a partir de fontes fósseis ou lenha é substituída pela energia derivada de hidroelétricas ou usinas termonucleares.

A esse respeito, não seria ocioso lembrar que Angras I e II nos forneceram milhões de toneladas de energia limpa ao longo de sua existência. A lamentar, apenas, a demora na retomada do projeto de Angra III.

Seria cômico se não fosse trágico, ou cínico, nossa classe média gritar contra a geração de energia de fontes limpas como a hidráulica e nuclear, e ao mesmo tempo querer mais tevês, mais geladeiras e freezers, mais aparelhos de ar-condicionado, mais máquinas de lavar roupa e mais isso e aquilo cuja fabricação depende de...energia, e cujo funcionamento  depende de... energia. E quanto mais aparelhos elétricos, já sabia o conselheiro Acácio, mais consumo de energia.

É curioso pretender o primeiro, o segundo e mesmo o terceiro automóvel, ou camioneta ou quase-tanques de guerra (pra se deslocar, em regra, daqui até logo ali, quase sempre só o motorista) esquecida a classe-média de que a indústria automotiva depende de energia. Não é sério querer mais plástico e alumínio (que é pura energia) em seus lares – na construção de suas casas, em seus eletrodomésticos, nos brinquedos de seus filhos e nos seus próprios (tablets, e-books, smartphones...), deslembrando-se de que essas maravilhas são filhas da mineração e da petroquímica.

Que tal dizermos agora aos milhões de brasileiros retirados da pobreza e que recém ingressaram nas primeiras faixas do consumo, que eles podem tudo, menos... consumir energia? Tudo menos comprar seu fogão, sua tevê, seu liquidificador?

Energia elétrica não brota dos roçados nem cai do céu, como a chuva. Precisa ser produzida, e é cara. Neste ponto, nem os economistas conseguem obrar milagres.

As opções são poucas: as térmicas alimentadas por petróleo ou carvão, as usinas nucleares e as hidroelétricas, disponíveis em poucos países. O Brasil é um deles e dos mais ricos em recursos hídricos. Mas querem que desse recurso (limpo, renovável e menos caro) abramos mão, como querem que abramos mão da alternativa nuclear, embora sejamos possuidores de uma das maiores reservas de urânio do mundo.

Que sobra?

Aos desmemoriados, lembremos o ‘apagão’ do final do segundo governo FHC, que só não se repetiu em 2003 porque naquele ano o crescimento do PIB foi simplesmente pífio: 0,5%. O ‘apagão’ (quem pagará ao povo os prejuízos sofridos?) não foi pena imposta pelo diabo negando-nos chuva, mas incontornável consequência da falta de investimentos, que o Brasil tenta recuperar com Santo Antonio, Jirau e Belo Monte, e Angra III.

Lembremos: o aumento da geração de energia deve caminhar à frente da demanda, para poder estimular a economia e melhorar as condições de vida da população.

Mas, saberão os inocentes do Leblon o que faz o governo quando a geração de energia elétrica, no Brasil derivada principalmente das hidroelétricas, não atende à demanda? Aciona as termelétricas movidas a diesel ou carvão mineral, os campeões em emissão de C02, aumentando o aquecimento global. Em resumo: lutar contra hidrelétricas e usinas nucleares é defender a fonte fóssil. Não tem saída.

Vejamos os fatos objetivos.

A tendência mundial, considerando mesmo a crise geral do capitalismo, indica o aumento constante e acentuado do consumo de energia. Segundo a norte-americana EIA (Energy Information Administration), a demanda deverá crescer 53% entre 2008 e 2053, ou seja, mais que dobrará em apenas 45 anos!

E sabem quem deverá atender a esse consumo?

As usinas dependentes de combustíveis fósseis, a saber, petróleo e carvão vegetal. O Brasil é dos poucos países que têm condições de romper com essa tragédia, pois dispõe de recursos hidráulicos ainda abundantes e inexplorados. Mas não pode, impedido que está de construir hidrelétricas (como está impedido de criar aquavias), porque elas ora alagam terras sem uso, ora alteram o passeio de bagres, ou, diz-nos um anônimo procurador do Ministério Público Federal do Pará, porque “as compensações oferecidas pelo governo e pelo Consórcio Norte Energia (construtor da usina de Belo Monte) são insuficientes para manter a qualidade de vida” dos 700 índios da etnia Xilkrin, que teriam de abandonar suas terras.

Não faz muito, o início das obras do Centro de Lançamento do foguete Cyclone-4, em Alcântara, Maranhão, foi retardado em 14 meses, tempo durante o qual durou Ação movida pelo Ministério Público Federal daquele Estado, que acusava a empresa Alcântara Cyclone Space, fruto de tratado firmado entre o Brasil e a Ucrânia, de, com a movimentação de máquinas e operários, ‘haver assustado os antepassados dos quilombolas que moravam em grutas na praia’...

As dificuldades interpostas às construções de Santo Antonio e Jirau pedem um livro.

As previsões mais recentes, considerando a crise mundial e o horizonte próximo, indicam o crescimento da demanda brasileira de energia, que deverá saltar de 456,5 mil GWh para 730 mil GWh em apenas 12 anos. Que fazer, se nossas hidrelétricas estão interditadas e se a opção nuclear, a única absolutamente não-poluidora, é tratada como verdadeira pornografia pelo fundamentalismo ambientalista?

Falar nas alternativas eólica ou solar, em termos de alternativas para o país (produção em grande escala) é ignorar que essas fontes, pois, embora não descartáveis, são, ainda, fontes caras, tecnologias em desenvolvimento, mesmo  pouco eficientes (e, diga-se de passagem, dependem de complementação térmica para sua regulação). Servem para garantir calor às residências de praia das classes abastadas ou para suprir as necessidades de condomínios ricos e pequenas vilas e povoações isoladas, compensando, com a geração local, o alto custo das redes de transmissão.

Hoje, essas fontes geram 1.436 MW e podem chegar, em 2020, a 6.041MW. Ora, isso representará apenas 3,59% do total de energia de que necessitaremos naquele ano. Basear nessas fontes nosso futuro energético...

Uma coisa é certa, a oposição midiática, com seu apêndice partidário, faz a cabeça da classe média alienada, levando-a a crer que existe ‘almoço grátis’ e insuflando o sentimentalismo ingênuo para, isto sim,  combater o projeto nacional desenvolvimentista de que carecem nosso país e nosso povo, nada importando quanto suicida seja, e criminoso, para com as gerações que nos sucederão.

Depois do ‘pós-comunismo’ e do ‘fim da História’, eis a proposta da ‘nova direita’: a pós-civilização.

Voltemos para o candeeiro a azeite e ao carro de boi. Voltemos nós, pois os ricos já estão comprando apartamentos em Miami.