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Ciranda para crescer

por Beatriz Mendes — publicado 27/05/2012 10h23, última modificação 28/05/2012 14h10
Sistema de canteiros circulares quebra dependência da cana-de-açúcar e garante segurança alimentar e renda extra a famílias do Nordeste
donaneidepais

Dona Neide em sua horta, no município de Cabo de Santo Agostinho

A estrada que une Recife ao município de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, é banhada por um mar de canaviais. A maioria dos moradores da área – antes ocupada pela Mata Atlântica – trabalha na produção da cana, que se adapta bem ao sol, mas não garante renda após a colheita e durante os longos períodos de estiagem.

Em pleno mês de maio, quando pouco chove na região, a horta da Dona Neide Cristina Rodrigues, de 54 anos, é uma boa surpresa. Pés de alface, couve e milho de um verde vivo reluzem no pequeno sítio no Engenho Ipiranga, distrito da zona rural do Cabo de Santo Agostinho. “As alfaces ainda estão aí por culpa de vocês. Não colhi semana passada porque sabia que vinha visita”, brinca a agricultora com os repórteres de vários estados do País que participaram do IV Congresso de Jornalistas do Nordeste.

As hortaliças não são fruto do tempo, mas da tecnologia, implantada na região graças ao projeto Pais (Produção Agroecológica Econômica e Sustentável), resultado de uma parceria da Fundação Banco do Brasil com empresas como Petrobras, Sebrae e BNDES. É um sistema de canteiros circulares – em forma de "ciranda" ou “mandala”- para a produção de verduras, frutas e legumes orgânicos. No centro dessa horta é mantido um galinheiro, responsável pela geração de adubo para a plantação. “É um sistema no qual nada é perdido. A adubagem natural torna desnecessário o uso de agrotóxicos”, explica Deiwison Borba, um dos técnicos da Assocene - Associação de Orientação às Cooperativas do Nordeste -, instituição responsável por acompanhar os pequenos agricultores de Pernambuco durante a implantação do projeto.

No estado, 540 famílias já foram contempladas. Somente no Cabo de Santo Agostinho, são 48 famílias. O investimento é de 8 mil reais, que permitem a compra de um kit com sementes, dez galinhas, um galo, uma caixa d’água, bomba e sistema de irrigação. Dentro deste valor também está garantido o apoio técnico e não é preciso devolver o dinheiro à Fundação.

Para ter direito ao Pais, é preciso preencher alguns requisitos. A renda máxima da família deve ser de mil reais e no local é necessário haver energia elétrica (para o sistema de irrigação por gotejamento). O projeto requer ainda certo conhecimento básico sobre agricultura – por isso trabalhadores de cana-de-açúcar costumam ser escolhidos.

Há nove meses no programa, dona Neide abandonou seu trabalho na colheita de cana. “Eu fazia de tudo: plantava, colhia e amarrava a cana. A única coisa que eu não fazia era colocar no caminhão, mas se mandassem, faria também”, adianta. Para cozinhar, plantava macaxeira, feijão e inhame, alimentos insuficientes para suprir os nutrientes necessários para a saúde da família. Às vezes pescava no brejo para complementar o cardápio. Agora com suas verduras, a carne e com os ovos das galinhas, dona Neide e seus doze parentes que dividem um terreno de 10 hectares levam uma vida mais saudável.  “Mas minha menina menor tem dó quando matam as galinhas. Ela desgraça a chorar. Agora só quer saber de verdura, é bom que eu economizo na carne”, conta, entre risadas.

Às sextas-feiras, as hortaliças são comercializadas na feira livre da cidade. Cinco da manhã e dona Neide já está com sua banquinha montada.  Às dez horas já não tem mais o que vender. “O cliente chega para mim e fala que tudo está muito caro. Eu respondo: ‘meu filho, isso aqui não tem agrotóxico, é natural, é saudável’. Então eles levam é o dobro”, diverte-se. Já estabeleceu uma clientela fiel. Por semana, costuma faturar entre 200 e 250 reais. Ao fim do mês, acumula cerca de 1500 reais.

Com a nova fonte de renda, já conseguiu melhorar sua qualidade de vida. Sua casa está equipada com uma televisão de tela plana e LCD, computador e acesso à internet. Dona Neide tem e-mail, Orkut e Facebook. Do Twitter ela não gosta. “Durante o dia eu trabalho na minha horta e de noite eu mexo no computador. O marido é que não gosta, fica dormindo sozinho na cama. Fala: ‘Eita que a mulher casou com o computador!”, conta.

Ao ver o sucesso da vizinha, Maria José da Silva Batista, de 58 anos, mais conhecida como “Vanda”,  já fez o requerimento de seu kit. Ela conheceu Dona Neide na Associação dos Trabalhadores Rurais de Santo Agostinho e assim como a amiga costumava fazer, planta cana para viver. “Eu achei bonita a horta, o galinheiro no centro. Desse jeito fica bom, porque eu crio galinhas, mas como elas ficam soltas, não posso usar o mesmo terreno para plantar”, lamenta.

Deiwison acha o Pais da Dona Neide exemplar. O técnico agrícola esclarece que após receber o kit, os agricultores devem mostrar que estão trabalhando para a consolidação de sua plantação.  O projeto começa com três canteiros e vai aumentando, de acordo com o crescimento econômico da família. “Por exemplo, se a teia de arame enferrujar, os agricultores têm que trocar. Se eles virem que há algo que não está dando certo, eles devem adaptar a horta. E o técnico sempre dá apoio”. Se o dono do projeto não cuidar de seus canteiros devidamente, eles são fiscalizados e doados a uma nova família.

A  agricultora acha a medida correta: “Eles dão a vara e a isca. Se eles derem também o peixe seria bom demais, não é?”, questiona. Para manter suas verduras saudáveis, ela conta o segredo: planta mudinhas de pimenta e coentro entre uma hortaliça e outra, livrando-as da ameaça de pragas. O verdinho da alface é consequência de um ou dois copos d’água além do que o sistema de gotejamento oferece. “Eles falam que não pode, para economizar água, mas eu acho melhor molhar mais um pouquinho”, diz.

O Pais parte de um sistema comum para todas as regiões do Brasil, mas cada local pode adaptá-lo de acordo com suas necessidades. Na Amazônia, por exemplo, foram implantadas sombreiras, para proteger a horta das chuvas excessivas.

Dona Neide está satisfeita com o projeto. No futuro, sonha em exportar sua produção. Só faz uma ressalva: gostaria que junto ao kit viesse também uma forrageira, máquina para cortar capim. "Vocês ficam segurando caneta e bloquinho, mexem no computador e quase morrem de dorzinha no braço. Imagina puxar enxada, esse é um trabalho duro!", tira um sarro dos repórteres mais uma vez, a simpática agricultora.