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The Observer

As rotas comerciais das mudanças climáticas

por The Observer — publicado 07/02/2014 05h56, última modificação 07/02/2014 10h12
O aumento das temperaturas poderá trazer benefícios para a cidade siberiana de Nadym, com a alteração dos padrões comerciais
Ice Calves / SXC.hu
Ártico

As mudanças climáticas podem alterar a importância das rotas comerciais no mundo

Por John Vidal

A cidade de Nadym, no extremo norte da Sibéria, é um dos lugares menos hospitaleiros da Terra, envolto em escuridão durante a metade do ano, com temperaturas inferiores a -30 graus e o mar de Kara quase sempre congelado.

Mas as coisas estão melhorando para esse polo urbano no Ártico, a meio caminho entre a Europa e a China. Nos próximos 20 anos a mudança climática deverá abrir uma rota de navegação polar entre os oceanos Pacífico e Atlântico, cortando o tempo de viagem até a Ásia em 40% e permitindo que os vastos recursos em gás e petróleo da Rússia sejam exportados para a China, o Japão e a Ásia meridional muito mais depressa.

Nadym deverá se beneficiar do aquecimento climático mais que qualquer outra cidade ártica – o governo russo pretende conectá-la por rodovia e ferrovia a outros centros de gás e petróleo; a Gazprom, maior companhia de petróleo do mundo, está construindo um porto próximo com a francesa Total; e se a nova rota marítima do norte ficar aberta durante seis meses por ano Nadym se encontrará no equivalente à antiga rota da seda.

"Todo o centro de gravidade da economia mundial está mudando para Nadym", disse o prefeito Stanislav Shegurov, um ex-operário do gás, em uma recente reunião de líderes árticos na Noruega.

Há grandes expectativas de que a rota complemente o canal de Suez como principal via aquática para o comércio da e para a Ásia. "O Ártico é nossa casa e nosso futuro. Usaremos plenamente a rota marítima do norte. Estamos construindo infraestrutura, estamos fazendo história. Temos planos ambiciosos", disse Anton Vasiliev, embaixador russo para o Ártico.

Somente 71 grandes navios, que trabalham principalmente com quebra-gelos russos, navegaram essa rota em 2013, mas a Rússia espera um aumento de 30 vezes até 2020 e água livre de gelo na maior parte de sua extensão até 2050. O gelo de verão diminuiu quase 50% em 40 anos, e até 2050, segundo Laurence Smith e Scott Stephenson, da Universidade da Califórnia, navios comuns deverão conseguir atravessar facilmente pela rota do norte. Navios reforçados para enfrentar gelo deverão passar sobre o próprio polo.

A confiança em que o Ártico terá importância econômica é vista na corrida de países e empresas para reivindicar direitos. Onze países, incluindo a Polônia e Singapura, indicaram embaixadores no Ártico para promover seus interesses nacionais.

A Gazprom lançou na semana passada na Coreia do Sul o primeiro de quatro gigantescos transportadores de gás natural "classe gelo" para essa rota. O governo russo pretende gastar mais de 3 bilhões de dólares para reabrir uma base militar nas ilhas Novosibirsk e está construindo novos barcos quebra-gelo e centros de navegação. A gigante do petróleo Rosneft e a ExxonMobile começarão a perfurar em busca de petróleo no mar de Kara este ano.

A Noruega e outros países nórdicos fizeram do desenvolvimento do Ártico uma prioridade. "O Ártico está mudando rapidamente. Ele será nossa principal área de política externa. A mudança climática está colocando a Noruega sob pressão", disse sua primeira-ministra, Erna Solberg.

A Finlândia, que não tem acesso a essa rota marítima, propôs que uma ferrovia ligue suas minas à costa russa. "A Finlândia precisa de uma nova Nokia. O Ártico poderia ser ela", disse seu embaixador de Assuntos Árticos, Hannu Halinen.

Empresas americanas, canadenses, japonesas, sul-coreanas e britânicas pretendem usar a rota para minerar pela região, mas nenhum país espera ganhar mais que a China, segundo Wang Chuanxing, pesquisador polar na Universidade de Tongji, em Xangai. "A economia da China depende 50% do comércio. O desenvolvimento da rota marítima do norte teria um grande impacto em sua economia. Um terço do comércio chinês é com a União Europeia e os Estados Unidos. A abertura dessa rota é vital para a China", disse ele. O Japão também espera se beneficiar. "Dez por cento do petróleo cru não explorado do mundo e 20% de seu gás natural estariam no Ártico. Mudanças recentes por causa da mudança climática estão atraindo pessoas no Japão. Queremos participar ativamente. Estamos pesquisando a rota marítima do Ártico", disse Toshio Kunikata, embaixador japonês encarregado de Assuntos Árticos.

"Uma grande partida de xadrez está sendo jogada com países que fazem reivindicações sobre o Ártico para garantir que não ficarão de fora. A mudança climática ocorre em uma velocidade duas vezes maior no Ártico. Alguns países, como a China, estão olhando 50 anos à frente", disse Malte Humpert, diretor do grupo de pensadores Arctic Institute, sediado em Washington.

"O instituto de pesquisa polar da China disse que a navegação no Ártico terá um grande papel no futuro comércio do país, e sugeriu que até 2020 de 5% a 15% do valor do comércio chinês – cerca de 500 bilhões de dólares – poderão passar pelo Ártico. Mas essa previsão pode ser apressada. Achamos que a rota beneficiará principalmente o comércio da China com a Europa, mas isso não é provável porque sua prioridade é construir laços mais fortes com a América Latina e a África.

"Pensamos que a navegação futura na região polar consistirá principalmente em atividade sazonal e transporte dos recursos naturais da região para mercados no leste da Ásia. A mudança climática transformará o norte congelado em um oceano navegável sazonalmente, mas as rotas de navegação no Ártico não se tornarão uma nova rota da seda para a China", diz Humpert.

Os estaleiros noruegueses também estão cautelosos. "A navegação transártica de Yokohama a Hamburgo economizaria 40% da distância, comparada com o canal de Suez. Mas nossas previsões são modestas. Em 2013 houve 71 trânsitos comerciais pelo mar polar, comparados com 18 mil e 14 mil pelos canais de Suez e do Panamá", disse Sturla Henriksen, diretor da Associação de Armadores Noruegueses.

"Em 30 anos, mais de dois terços do volume do gelo de verão no Ártico desapareceram. Nossos filhos serão a primeira geração na história moderna a experimentar a abertura de um oceano totalmente novo. O Ártico tornou-se agora um verdadeiro ponto quente estratégico no centro do interesse global. O extremo norte envolve altas apostas. Está havendo uma mudança de paradigma na política internacional."

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