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Chuvas de verão, todo verão

por Dal Marcondes publicado 26/01/2012 13h17, última modificação 06/06/2015 18h27
Todo ano são nomeados os culpados de sempre: a própria chuva ou essa gente indigente que insiste em viver nas beiras de córregos e de morros
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Moradora de Itabirito, em Minas, observa os estragos causados pela chuva. Foto: Antônio Cruz/ABr

As chuvas de verão agora tem nome chique. Na tevê chamam de “Zona de Convergência do Atlântico Sul”, que é quando a umidade que vem da Amazônia se encontra com o frio que vem do Sul.

O resultado é que a cada ano chove muito e pode chover ainda cada vez mais, porque tem outra novidade que veio para ficar, as “mudanças climáticas”, que já criaram até furacão em Santa Catarina. E todo ano morre gente, no Rio de Janeiro, em Minas, em Pernambuco, nas Alagoas e até em São Paulo. Não escapa ninguém. Mas se é assim todo ano porque não se dá um jeito? Até ministro balança por conta das “obras de contenção de enchentes”, mas as águas insistem em subir, em ocupar as várzeas dos rios e em escorrer forte pelas encostas dos morros.

Nos jornais o brado é porque o governo, incompetente, não fez as obras. As organizações correm para a filantropia nossa de cada dia e recolhem alimentos, águas e roupas para os desabrigados. Mas ninguém pergunta onde está o Plano Diretor das cidades alagadas, onde está o planejamento urbano que pode tirar as pessoas das “áreas de risco”, onde está a política habitacional que pode dar casa decente a toda essa gente? Mas, acima de tudo, onde estão as prioridades de governos que tapam córregos e cimentam praças para dar lugar a carros e avenidas? Os mesmos córregos e rios que deveriam das vazão a toda essa água? Rios que seguem espremidos pelo cimento e sem lugar para se espalhar e cumprir seu papel de fertilizar os campos.

Vai chover todo ano. Vai ter enchente todo ano, só não precisa morrer gente. Não precisa ter tanto prejuízo. E não é só aqui no Brasil, é em todo o mundo. Um estudo de uma seguradora alemã (Munich Re)  informou que em 2011 o prejuízo do setor por conta de catástrofes naturais ficou em US$ 115 bilhões, muito acima dos US$ 42 bilhões de 2010. E nada Indica que as coisas venham a melhorar nos próximos anos. No Brasil o prejuízo não é dimensionado, as pessoas dos morros e das várzeas não tem seguro de suas roupas, fogões e geladeiras carregados pela lama e pelas lágrimas.

Clamar por obras de emergência não adianta muito. Pode satisfazer a mídia, mas não resolve nada. Devíamos é clamar por planejamento, por ações de recuperação urbana e de estruturação social. Não adianta tirar a lama das casas e rezar para que no ano que vem não chova tanto. Vai chover e não há nada que se possa fazer em relação a isso. O melhor mesmo é botar nossa engenharia e nossos políticos a serviço de cidades mais sustentáveis e menos vulneráveis. Aliás, em minhas andanças por esse Brasil, nunca vi uma aldeia indígena alagada. Deve ser porque eles sabem onde a água é forte e não constroem em seu caminho.

 

*Matéria originalmente publicada em Envolverde