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As curvas da estrada de Santos. De bicicleta

por Piero Locatelli — publicado 11/12/2012 15h27, última modificação 13/12/2012 11h37
As dificuldades para deixar a metrópole e seguir em duas rodas em direção ao litoral. Por Piero Locatelli
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Ciclistas descansam na serra do mar. Foto: Piero Locatelli

“Todo ciclista em São Paulo sempre teve o sonho de descer pedalando para Santos. É uma coisa instintiva,” diz Daniel Labadia, do Instituto CicloBR. No último domingo 9, milhares deles seguiram os instintos e desceram de bicicleta da capital ao litoral. Foram 6.762 inscritos para a descida, mas a estimativa é que o número tenha sido ainda maior.

A rota para as bicicletas foi batizada com o nome da cicloativista Marcia Prado, morta ao ser atropelada na avenida Paulista em janeiro de 2009. Desde aquele ano, o instituto organiza descidas anuais da serra para mostrar que há demanda por um caminho sinalizado e seguro até o litoral. O evento só cresce desde então, e o número de inscritos mais do que dobrou a partir do ano passado.

O sonho dos ciclistas não é difícil de ser realizado, como foi mostrado pelas milhares de pessoas que foram a Santos no final de semana. Mas ainda esbarra na desinformação, na falta de vontade das autoridades públicas e na visão burocrática da empresa responsável pela rodovia.

Caminho até Santos

O trajeto sugerido tem cerca de cem quilômetros. Partindo da região central de São Paulo, o ciclista deve pedalar a ciclovia da marginal Pinheiros até o final, e depois seguir por um trecho urbano no Grajaú, extremo da zona sul. Lá, o ciclista passa por uma parte urbanizada e comercial do bairro, mas corre riscos dividindo o espaço com carros e ônibus. Em diversos trechos, os ciclistas tinham que ir à calçada para ficarem seguros no trânsito.

 

 

De lá, o ciclista embarca em uma balsa para chegar à área de proteção ambiental Bororé, onde pega uma segunda embarcação. O caminho segue por uma estrada de terra. Apesar de calmo, o trecho é o que mais exige dos ciclistas, devido às subidas e descidas do trecho.

Depois é necessário percorrer um trecho da rodovia dos Imigrantes antes de entrar no parque da Serra do Mar. Dentro dele, o ciclista desce a serra e percorre o trecho mais bonito do trajeto, cercado pela mata atlântica.

Descida congestionada

A grande quantidade de ciclistas na descida  deixou clara a demanda reprimida por uma rota permanente. Não são poucos aqueles dispostos a fazer o caminho.  Mas a necessidade das pessoas descerem todas de uma só vez expôs a falta de estrutura para uma descida com tantas pessoas. A maioria dos problemas, relatados abaixo, não aconteceria com a abertura permanente da rota. Com a um caminho sinalizado permanente, os ciclistas poderiam descer aos poucos e em grupos menores, ao invés de fazer uma descida maciça por ano.

Logo no início do evento, ciclistas levavam até 40 minutos para conseguir entrar nas ciclovias da marginal em algumas estações mais cheias, como Pinheiros e Vila Olímpia.

As balsas também foram um funil no percurso. Com capacidade para 160 pessoas, elas não davam conta da demanda e a espera podia chegar a mais de três horas. Além disso, moradores da região se mostravam incomodados com a dificuldade de embarcar.

 

O parque, que proíbe a entrada de ciclistas após as três da tarde, também teve seu horário expandido. Como resultado, muitos chegaram a Santos depois de escurecer.

A polícia também se mostrou despreparada para lidar com os ciclistas. A reportagem da CartaCapital presenciou dois problemas com o policiamento no caminho. No primeiro embarque das balsas, um policial militar sem identificação mandava os ciclistas retornarem. Diante dos ciclistas, que esperavam pacificamente, dizia que iria chamar a tropa de choque caso eles não fossem embora.

Já na entrada da rodovia dos Imigrantes, policiais sugeriam aos ciclistas voltarem os quarenta e cinco quilômetros já percorridos. Diziam ter certeza de que o parque estava fechado. Mas a informação dada pelos policias não era verdadeira, uma vez que o parque ainda estava aberto naquele horário.

Trecho administrado pela Ecovias é o maior entrave

Os ciclistas pedem a criação de um caminho perene, sinalizado e seguro. O processo para a realização da demanda não traz grandes dificuldades, mas esbarra na má vontade do poder público e da Ecovias, empresa responsável pela concessão da rodovia dos Imigrantes.

A maior conquista até agora foi a aprovação de uma lei, em 2010, que cria a rota em São Paulo. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), porém, ainda não fez a sinalização necessária e os ciclistas tem de se misturar aos carros no trecho do Grajau. O instituto pressiona os políticos pela aprovação de leis semelhantes nas outras três cidades em que a Ciclovia passa: São Bernardo, Cubatão e Santos.

O maior empecilho para a criação da rota é o trecho em que os ciclistas devem passar pela Imigrantes. A Ecovias impede os ciclistas que descem em grupos menores de continuar seu trajeto, apesar do Código de Trânsito Brasileiro dar o direito a pedalar na estrada. “Esse é o único trecho da ciclorrota em que não existe muita conversação,” diz Labadia.

 

 

A Ecovias disse, em nota, que “não há previsão de construção de ciclovias ou ciclorrotas no contrato de concessão da Ecovias.” A empresa também alega que “o risco de acidentes para os cliclista exige que estes sejam impedidos de trafegar pelo local”.

Integrantes do instituto também reclamam da falta de diálogo com a secretaria de Meio Ambiente do estado, que poderia intermediar um acordo com a Ecovias. Procurada pela reportagem na última semana, a secretaria não se manifestou. O secretário Bruno Covas não respondeu aos pedidos de entrevista.