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Após referendo na Bolívia, o ecologismo é alternativa para a esquerda

por Felipe Milanez publicado 25/02/2016 16h34, última modificação 26/02/2016 11h27
Da onde vem essa aversão anti-ambientalista que os “nacionais populares” compartilham com os neoliberais na América Latina?
G_Jallasi/ABI/Fotos Públicas
O presidente da Bolívia Evo Morales

Evo Morales anunciando, em coletiva, que aceitará resultado do referendo

A derrota de Evo Morales no referendo de reforma da Constituição que permitiria a sua quarta candidatura vem a somar-se com outras derrotas recentes da esquerda latinoamericana.

O ecologista político e economista catalão Joan Martinez-Alier escreveu um artigo oferecendo uma reflexão para esse momento difícil que passa a América do Sul.

Morales, o primeiro presidente indígena, tem muitos méritos em seus mandatos, sobretudo o de reduzir pela metade a pobreza. No entanto, a política econômica continuou baseada na extração de matérias primas para a exportação, conforme critica Martinez-Alier, o que acarreta uma série de limites.

Não há outra saída que seja emancipadora, para a América do Sul, que não tenha uma base ecológica. No artigo abaixo, que traduzi e revisei junto do autor por e-mail, com complementos para o contexto brasileiro, a conclusão é que é preciso que a esquerda se torne ecologista para sair do atual impasse — o ecologismo popular é alternativa para a soberania política e econômica:

Por Joan Martinez Alier* com tradução de Felipe Milanez

Os governos nacionais-populares da América do Sul prefeririam perder votos ecologistas e de esquerda em vez de aceitarem que suas políticas econômicas extrativistas estão equivocadas e fracassaram. Fazem parte desse grupo Dilma Rousseff, Rafael Corrêa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e Cristina Kirchner (Argentina). 

Uso aqui a palavra “extrativismo” não como Chico Mendes ou os seringueiros fazem, mas no sentido crítico de pesquisadores e pesquisadoras como Eduardo Gudynas, Maristella Svampa e Alberto Acosta. A saber: uma política incentivadora da exportação de produtos primários. 

Esses governos atacaram e ainda atacam as ideias, as propostas e as organizações do ecologismo popular. Na Bolívia, o vice-presidente Álvaro García Linera é um dos expoentes dessa linha crítica ao ecologismo. Agora, com a derrota no referendo da Bolívia, este é um momento de reflexão sobre essa posição. 

Na Argentina, o partido de Cristina perdeu a eleição, há poucos meses e por uma pequena margem de votos, sem que ela pronunciasse uma palavra sequer amável para aqueles em Famatina e em outros lugares que se opõe à mineração de ouro a céu aberto, e sem reconhecer os trabalhos de Andrés Carrasco e outros pesquisadores, e as denúncias das Mães de Ituzangó, dos danos à saúde pelo uso de glifosanto nas plantações de soja transgênica.Aos ecologistas populares, não se deve dar nem água, ou ainda, contaminada.

Da onde é que vem essa aversão anti-ambientalista, que os “nacionais populares” compartilham com os neoliberais na América Latina? Faz 25 nos que eu me pergunto. 

A maior parte dos votos contra Evo Morales e García Linera, na Bolívia, de 21 de fevereiro, não vêm de uma esquerda decepcionada, mas sim da direita, que é bastante racista. Os partidários do “Sim” à reeleição, em geral, são de esquerda e apoiam o governo de Evo Morales, um presidente indígena, o que é totalmente excepcional na história da Bolívia. 

Morales e García Linera ficaram a poucos votos da vitória, menos de 3%. Perderam. Venceu o “não”, que impede uma quarta candidatura de Evo Morales. Nessa pequena margem de votos, podemos atribuir 2% a arrogância do vice-presidente García Linera e seus terríveis insultos aos ecologistas, no caso dos protestos contra a construção da estrada no Tipnis e temas parecidos.

Outros 2% por Evo Morales ter negado a reconhecer abertamente sua paternidade e atuar legalmente, como qualquer um deve fazer, seja bispo ou ministro; e por fim, podemos atribuir outros 2% ao crescente temor da população com relação mudança da conjuntura econômica, pois o governo não quer aceitar que a política extrativista da Bolívia tem sido um erro, como indica a balança comercial que já está negativa (como quase todos os países sul-americanos). 

Sem estes votos perdidos, o governo Evo Morales teria vencido com boa margem. 

Eu teria votado “sim” para Evo Morales (mas “não” para García Linera). Teria lamentado uma vez mais os 500 anos de racismo; teria feito preces ao espírito do querido René Zavaleta Mercado (1936-1984), quem eu imagino que teria aplaudido tanto a “guerra da água", em Cochabamba (em 2000), como a “guerra” do gás (em 2003), como a expulsão de Goni (presidente entre 2002-2003) e a eleição de Evo Morales, há dez anos, mas que eu imagino que teria sido mais aberto do que García Linera às críticas anti-extrativistas. 

De qualquer forma, Evo Morales perdeu o referendo que teria permitido a sua candidatura presidencial. E assim como Cristina, Correa e possivelmente Nicolás Maduro, já estão de saída. E também Dilma Roussef, cujo mandato, ameaçado por pedidos de impeachment, termina em 1 de janeiro de 2019.

Isso não significa assumir um triunfo permanente do neoliberalismo. Notem que os primeiros atos de Mauricio Macri, na Argentina, foram aumentar as vantagens para exportação de soja e para as multinacionais, suprimindo os impostos (“retenciones”) à exportação. O novo presidente neoliberal da Argentina caminha para ser tanto ou mais extrativista do que a sua predecessora nacional popular. 

Fala-se às vezes que o nacionalismo popular latino-americano está de saída não por sua culpa, mas em razão de uma mudança de um ciclo econômico. Isso faz sentido e tem explicação. O volume da extração de materiais e também da exportação aumentou quatro vezes, na América Latina em conjunto, desde 1970 até 2008. 

Algo parecido aconteceu com países africanos exportadores de matérias primas. Além disso, também aumentou a oferta de matérias-primas produzidas nos Estados Unidos, na própria China e na Índia.Os mercados mundiais não iriam absorver para sempre esse crescente excesso.

Ao aumentar as quantidades, diminuiu o preço da soja, do minério de ferro, dos hidrocarbonetos, do cobre. A reação imediata na América do Sul é tentar exportar ainda mais, derretendo os preços.

Dessa forma, Rafael Corrêa insiste em abrir duas novas minas de cobre, reprimindo protestos e manifestações locais em Intag e no território Shuar, ainda que o preço do cobre esteja a dois dólares uma libra, a metade do preço de poucos anos atrás.

O mesmo ocorre com a expansão da mineração de ferro da Vale em Carajás, no Pará, em meio a protestos dos movimentos camponeses e os crescentes conflitos por terra, enquanto despenca o preço do mineral. 

O valor em dinheiro das exportações bolivianas registrou uma queda de 31,6% em 2015, o que provocou um déficit comercial de 774 milhões de dólares, o primeiro déficit em 12 anos de balança comercial com saldos positivos.

As vendas bolivianas para o exterior foram de 8.9 bilhões de dólares em 2014, o que significa 4.1 bilhões a menos do que os 13 bilhões registrados em 2014. As importações caíram em 8,3%, de 10 bilhões de dólares em 2014 para 9.6 bilhões em 2015.

A desvalorização da moeda, o ajuste e o crescente endividamento já são uma realidade na Bolívia, o mesmo ocorre no Brasil, Argentina, Peru, Colômbia e Equador — ainda que o dolarizado Equador não possa desvalorizar e deva restringir importações e baixar salários.

O fracasso econômico em 2014-16 das políticas extrativistas exportadoras é geral e ocorre em toda a América do Sul. Nesse sentido, dá no mesmo que sejam governos “neoliberais” ou “nacionais-populares”, o que muda é o custo da crise, que será repartido entre a população de maneira diferente segundo cada um desses governos. 

O nacionalismo-popular sul-americano cometeu um grave erro ao menosprezar a crítica dos pós-extrativistas, como de Alberto Acosta, Eduardo Gudynas, Maristella Svampa.

Essa crítica tem quatro pontos principais: a economia extrativista exportadora alcança volumes físicos sem precedentes, mas, para tanto, conduz como nunca antes na história a destruição de ecossistemas e ataca a sobrevivência dos habitantes locais; esta economia não é sustentável fisicamente.  

Esta economia leva a um déficit democrático, ao impor autoritariamente decisões governamentais em conjunto com empresas nacionais ou multinacionais, criminalizando os ambientalistas e proibindo a prática de consultas populares. Esta prática econômica, enfim, não é sustentável economicamente porque o excesso das exportações pode levar a derrubar os preços. 

Ainda é preciso argumentar que a economia industrial converte em resíduos quase tudo o que se extrai, seja energia dos combustíveis fósseis, que é dissipada pela combustão, sejam materiais como o cobre, alumínio, minério de ferro, pasta de papel, celulose, alimentos para o gado como a soja, tudo o que se recicla apenas uma pequena parte. O que garante uma boa demanda futura de produções primárias. Quanto a este ponto, não resta dúvidas.

Mas dificilmente haverá outra época de tanta alegria exportadora primária como pela qual passou a América do Sul nos últimos anos — ainda que Alicia Bárcena e a CEPAL não tenham feito advertências  contrárias a essa política excessivamente extrativista-exportadora. 

A aversão e o desprezo anti-ecologista de Rafael Correa, Alvaro García Linera, Cristina Kirchner, dos presidentes Lula e Dilma Rousseff, cobra agora um preço alto que beneficia, temporariamente, o neoliberalismo, que não tem nada melhor para oferecer. 

Por isso, de uma vez, é urgente que a esquerda latino-americana se torne ecologista. 

* Joan Martinez Alier é professor catedrático da Universidade Autônoma de Barcelona e autor do livro “O ecologismo dos Pobres” (Ed. Contexto, 2010)